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Tudo por LeBron: o malabarismo do Cavs para vencer e convencer o astro
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Giancarlo Giampietro

Seu time está no centro das chacotas por anos e anos? Você não tem coragem de assumir para quem torce e, no final, tenta escapar dizendo ser um “admirador profundo do estilo de basquetebol do San Antonio Spurs”? Você nem, mesmo, veste a camisa para bater, casualmente, uma bola na praça? Calma, gente. Isso não te obriga a jogar fora o uniforme. Pode ser que ainda dê tempo de reutilizá-lo – desde que não perca de vista a balança, claro. Os finalistas da NBA 2014-2015 nos ensinam que, das profundezas, após muitas trapalhadas no Draft, desmandos da diretoria, conflitos entre jogador e técnico, pode emergir um candidato ao título. Mesmo que demore um pouco. Ontem, publiquei a lista de dez episódios marcantes da história do Golden State Warriors, que nos ajudam como demorou tanto – precisamente 40 anos – para que a franquia retornasse a uma decisão. Hoje, as idas e vindas do Cleveland Cavaliers em torno de LeBron James:

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Um rei e um reino para conquistar

Façamos as contas: LeBron James está na NBA há 12 anos. São oito pelo Cleveland Cavaliers e quatro pelo Miami Heat. Em Ohio, chega a sua segunda final de NBA, enquanto, na Flórida, foram quatro. Pelo Cavs, busca o primeiro título. Pelo Heat, ganhou dois. Ok, então. Com a devida ressalva de que recebeu em 2003 um jogado ainda adolescente, em formação, não há como negar ao mesmo tempo que o clube demorou muito para capitalizar, durante a década passada, um dos maiores craques do esporte. Foram muitas falhas estruturais que propiciaram um produto aquém das expectativas em quadra e resultou na migração dos talentos de LeBron a South Beach, causando desespero geral em Cleveland, camisas queimadas, carta rancorosa de bilionário, até que os ânimos fossem apaziguados e o Rei Retornasse. Vamos lá:

– Antes de LeBron
Os deslizes aconteceram enquanto o jovem astro estampava capas de revista como colegial. Nos dois Drafts antecedentes ao de LeBron, o Cavs escolheu o pivô DeSagana Diop em 2001, na oitava colocação, e o ala-armador Dajuan Wagner, em 2002, na sexta. Nenhum deles conseguiu ajudar o craque, com status assustadoramente messiânico. Em retrospecto, se o Cavs tivesse acertado duplamente, talvez não tivesse nem mesmo condições de receber James em 2003. Ou, talvez, a produção de um calouro ainda não fosse o suficiente para elevar tanto assim o padrão de um time caótico, gerenciado (?) por Jim Paxson –  ex-jogador e irmão mais velho de John, o vice-presidente do Bulls.

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Diop vocês conhecem, já que deu um jeito de ficar na liga por mais de dez temporadas, se aposentando em 2013, mesmo que nunca tenha superado a média de 3 pontos por jogo. Sim, não tem erro de digitação aqui, não: foram 3,0 em 2006-07, e daí para baixo. O senegalês conseguiu a proeza de fazer mais faltas do que pontos em sua carreira (1.219 x 1.185). Nos, hã, bons tempos, Diop até protegia o aro em Dallas, revezando com Erick Dampier como segurança de Dirk Nowitzki. Mas foi muito pouco para justificar uma escolha tão alta, saindo direto do high school. Essa era a febre do momento, a captação de adolescentes antes mesmo de sua entrada no basquete universitário, e o recrutamento de 2001 foi um marco nesse sentido: Kwame Brown saiu em primeiro, Tyson Chandler, em segundo, Eddy Curry, em quarto. Kwame e Curry foram decepções, mas renderam muito mais que o africano, selecionado enquanto nomes como Joe Johnson, Zach Randolph, Richard Jefferson, Troy Murphy, Jason Collins, Brendan Haywood e Samuel Dalembert estavam disponíveis. Não vale mencionar Tony Parker aqui, pelo fato de o francês ter sido uma aposta inesperada do Spurs ao final da primeira rodada.

Quanto a Wagner, recordamos uma das histórias tristes recentes do basquete americano. Quando garoto, chegou a ser comparado a Allen Iverson. É aquele tipo de paralelo que sempre parece injusto, mas registre-se que o rapaz chegou a marcar 100 pontos numa partida de high school em New Jersey. Extremamente badalado, o cestinha preferiu jogar um ano por John Calipari na Universidade de Memphis. Sua experiência na NCAA não foi das melhores, mas a fama dos tempos de colegial ainda inflacionava sua cotação para o Draft de 2002. Nenê, Amar’e Stoudemire, Caron Butler e Chris Wilcox foram escolhidos entre os sétimo e décimo lugares.

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Tivesse esperado mais, talvez não assinasse nenhum contrato com a NBA. Wagner sofreu diversas lesões e com problemas de saúde em suas três primeiras temporadas e desfalcou o Cavs em 144 jogos. Na campanha 2004-05, então, foi afastado por conta de uma colite ulcerosa. É uma doença inflamatória intestinal rara, com incidência em 0,1% da população americana, por exemplo, e considerada crônica por muitos especialistas. No caso de Wagner, a medicação não surtia efeito. Em 2005, então, ele passou por uma cirurgia para remoção completa do cólon. Dispensado pelo Cavs, ele ainda tentou retornar a jogar em 2006, assinando com o Golden State Warriors. Novamente doente, foi cortado do elenco após uma partida e sete minutos. Estima-se que, ao menos, tenha ganhado  mais de US$ 8 milhões devido ao primeiro contrato.

– O primeiro time a gente não esquece
É preciso entender que a ideia de Jim Paxson não era ter uma boa equipe no início da década. O dirigente adotou a estratégia do quanto pior, melhor, para concorrer aos principais calouros da liga. Quando LeBron chegou em 2003, o cenário era de terra arrasada, mesmo. De qualquer forma… aquele elenco do Cavs era qualquer coisa de frankenstênico. Bad boys, veteranos improdutivos (Eric Williams, Ira Newble, Lee Nailon, Kevin Ollie, Tony Battie, Argh Argh), fiascos de Draft (já citados) e o caos geral: ao todo, 21 atletas se fardaram pela equipe no campeonato.  É tanta informação aqui, que a CPU começa a esquentar, castigando a ventoinha.

Darius Miles: presente para quem?

Darius Miles: presente para quem?

Os bad boys: Darius Miles, um promissor ala selecionado pelo Clippers em 2000, também vindo direto do high school, mas criticado constantemente por seus técnicos devido ao comportamento pouco entusiasmante em treinos e jogos; Ricky Davis, um cestinha explosivo, mas também fominha inveterado e que, num jogo contra o Utah Jazz, já arremessou contra a própria cesta para pegar o ‘rebote’ e completar um suposto triple-double. Despertou a ira de Jerry Sloan, que ordenou, em nome do basquete, que seus jogadores o quebrassem em quadra. Você por acaso gostaria de cercar seu prodígio com companheiros assim? Pobre Paul Silas, um técnico que, nos tempos de atleta, foi um grande pivô e também referência de vestiário.

Paxson ao menos entendeu o perigo dessa situação e se livrou dos dois jogadores. Primeiro, em dezembro, mandou Davis para o Boston. Em janeiro, Miles foi despachado para Portland. Quando chega a hora de desfazer de um problema, dificilmente virá em contrapartida o jogador dos sonhos. No pacote por Davis, ainda foi incluído o pivô Chris Mihm. Ambos foram trocados pelos alas Eric Williams e Kedrick Brown e o pivô Tony Battie. Aos 31 anos, já degastado, Williams acertou apenas 25,3% de seus tiros de três pelo Cavs e 36,6% dos chutes em geral. Battie teve médias de 5,4 pontos e 4,8 rebotes em 19 minutos, mas, com 2,11 m e boa capacidade atlética, convertia apenas 42,7% de seus arremessos. Dramático. Miles ao menos rendeu ao Cavs o armador Jeff McInnis, que ajudaria LeBron na condução do time, que até ensaiou uma reação e lutou por vaga nos playoffs, terminando com 35 vitórias e 47 derrotas. Aos 29 anos, porém, não era uma solução de longo prazo.

Mesmo jovem, para um jogador inteligente como LeBron, só dois parceiros deveriam se safar: Zydrunas Ilgauskas, com quem desenvolveu ótimo relacionamento, e Carlos Boozer, um acerto de Paxson no Draft de 2002, para compensar todos os problemas que teve com Wagner. Juntos, os dois pivôs contribuíram naquele ano com 30,8 pontos e 19,5 rebotes. O ala Jason Kapono não conseguia marcar nem a própria sobra, mas ao menos era um excelente chutador para tentar espaçar a quadra – o único especialista no elenco. Em 2005, ficou fora da lista de protegidos no Draft de expansão para a formação do elenco do Charlotte Bobcats e acabou recrutado.

Agora, um detalhe: nem mesmo uma boa notícia como o rendimento de Boozer duraria muito. O pivô revelado pelo Coach K passou a perna na diretoria do Cavs ao final do campeonato. Por ter sido escolhido na segunda rodada, seu contrato tinha um valor já bastante defasado. Querendo agradar o jovem pivô, então de 22 anos, o clube concordou em exercer uma opção contratual para torná-lo agente livre e aí fechar com ele um acordo muito mais lucrativo. Foi tudo acertado verbalmente (algo, em tese, proibido pela liga). Boozer foi liberado e… Assinou com o Utah Jazz. Uma punhalada que o tornou persona non grata em Cleveland. O jogador recebeu uma bolada, foi eleito duas vezes para o All-Star Game em sua nova equipe, mas virou as costas para LeBron. Valeu a pena? Bom, talvez a bagunça fosse tão grande que ele não se importasse.

– Procura-se um ala
Não dava para depender de Williams e Newble, obviamente. Paxson conhecia a necessidade de buscar um parceiro para LeBron no perímetro. O Draft de 2004 era uma boa oportunidade para tanto. Na décima posição, não daria para escolher Andre Iguodala, Luol Deng ou Josh Childress. Então foram de Luke Jackson. Jackson não era tão comentado assim quando jogava pela Universidade de Oregon, mas que impressionou os olheiros durante a fase de treinos. Já tinha 23 anos e teoricamente estava pronto para contribuir, com um perfil técnico que se encaixava: tinha capacidade atlética, bom arremesso e visão de quadra. Pelo menos era o que o gerente geral do Cavs enxergava. Só não deram tanta atenção aos exames médicos, físicos realizados pelo jogador. Assim como Wagner, Jackson mal conseguiu parar em pé. Em dois anos, disputou apenas 46 partidas pelo time, com média inferior a oito minutos e um total de 125 pontos. Aos 27,  já não estava mais na liga.

Pavlovic, não deu

Pavlovic, não deu

Já preocupado com a condição de Jackson, o cartola, então, orquestrou uma troca ao final da temporada, dando uma escolha futura de Draft ao Charlotte Bobcats, para receber Sasha Pavlovic. O sérvio já havia sido descartado pelo Utah Jazz, mas era jovem, com 21 anos e potencial a ser explorado. Só recebeu, porém, 13 minutos em média no primeiro ano em Cleveland, enquanto Ira Newble recebia 23 minutos. Foi reserva  durante boa parte de sua estadia em Cleveland. Em fevereiro de 2005, então, uma nova negociação foi feita, por mais um europeu: o tcheco Jiri Welsch, que vinha do Boston Celtics, custando ao time mais uma escolha de Draft. O tcheco era habilidoso com a bola, bom passador, versátil, mas havia mostrado pouco por Golden State ou Boston para justificar a transação. Em junho, já seria repassado ao Milwaukee Bucks.

Aqui, já começa um padrão bem maluco: o time sacrificava seu futuro para (tentar) melhorar de imediato, mesmo que sua jovem estrela estivesse apenas no segundo ano de liga. As duas escolhas gastas seriam usadas em 2007, respectivamente com  Jared Dudley e Rudy Fernández. Quando o Cavs foi eliminado pelo Celtics em 2010, Dudley era um jogador importante na rotação do Phoenix Suns, vice-campeão do Oeste. Bom defensor, sólido arremessador da zona morta, inteligente, poderia o ala poderia, quiçá, ter sido um Shane Battier antecipado na vida de LeBron.

– Troca de comando
Dan Gilbert comprou o Cleveland Cavaliers em março de 2005 e prometeu mudanças. Três semanas depois, Paul Silas foi demitido, com uma campanha de 34 vitórias e 30 derrotas. A equipe estava dentro da zona de classificação para os playoffs, mas vinha perdendo rendimento. O experiente assistente Brendan Malone foi promovido e venceu 8 de 18 partidas. O time acabou eliminado na temporada regular. Aí foi a hora de Jim Paxson procurar outro emprego também, mesmo que, antes de o campeonato começar, tivesse fechado uma excelente troca para amenizar a saída de Boozer: mandou Tony Battie para Orlando e recebeu Drew Gooden (quarta escolha em 2002) e Anderson Varejão, a primeira escolha da segunda rodada naquele ano (30º no geral). Além disso, cuidou para que o clube tivesse espaço em sua folha salarial para investir para a próxima temporada. O conjunto da obra era fraco, mesmo.

Danny Ferry foi o escolhido para o seu lugar – contratado depois de Mike Brown, aliás, o novo técnico. Ele havia defendido o Cavs na década de 90 e vinha trabalhando em San Antonio, cidade que havia conquistado dois títulos em três anos. O novo gerente geral tinha uma grande oportunidade de remontar a equipe em torno de LeBron – mas também trabalhava pressionado por Gilbert, que queria os playoffs a qualquer custo.

Dan Gilbert, Danny Ferry, Mike Brown, LeBron James: sobraram dois

Dan Gilbert, Danny Ferry, Mike Brown, LeBron James: sobraram dois

Ray Allen e Michael Redd eram os alvos iniciais, mas renovaram com Seattle e Milwaukee, respectivamente. Pois Ferry, em vez de usar da precaução e manter a flexibilidade financeira, torrou uma bela grana em opções alternativas que se provaram, em retrospecto, errôneadas: o ala-armador Larry Hughes, Donyell Marshall e Damon Jones.

O maior equívoco foi Hughes. Se, no futuro, haveria questões sobre como o jogo de Dwyane Wade e o de LeBron poderia se encaixar, com o ala-armador ex-Wizards simplesmente não rolou. Era mais um jogador que precisava da bola para entrar em ritmo no ataque, mas tinha um chute de longa distância ainda menos eficiente (30,9% de três na carreira e 34,2% com a camisa do Cavs). Lembrando que LBJ ainda tinha Para complicar ainda mais o entrosamento se lesionou no primeiro ano em Cleveland e não rendeu bem nos playoffs. Marshall e Jones seriam os gatilhos para tentar remediar essa carência, depois de terem se valorizado bastante nas duas campanhas anteriores. Mas já eram veteranos, perto do declínio físico.

Cavs sonhava com Redd, se contentou e pagou muito por Hughes (d)

Cavs sonhava com Redd, se contentou e pagou muito por Hughes (d)

O Cavs melhorou consideravelmente e alcançou a marca de 50 vitórias pela primeira vez desde 1993mas , isso tinha muito mais a ver com a evolução natural de LeBron e com a fortíssima defesa orientada por Brown, do que por melhora significativa no plantel, e Ferry já estava de mãos atadas. A ponto de as próximas contratações de agentes livres terem sido mais veteranos em final de carreira David Wesley, Scott Pollard, Devin Brown e Lorezen Wright, caras para compor o banco, e olhe lá. Qualquer evolução a partir daí caberia ao craque e ao treinador, mesmo.

A campanha de 2007 foi idêntica: 50 triunfos e 32 derrotas. Nos playoffs, porém, o time deslanchou, batendo Wizards, Nets e Pistons para conquistar o Leste pela primeira vez em sua história. Na decisão regional contra Detroit, LeBron teve uma das melhores atuações de sua careira. Na verdade, dá para especificar: uma das duas melhores – ao lado do Jogo 6 da final do Leste de 2012 contra o Boston Celtics. Tive o prazer de gravar um VT desta partida de , pelo Sports+, neste ano, ao lado do chapa Marcelo do Ó. Era o Jogo 5 da série, e o craque, aos 22 anos, realmente fez de tudo pela vitória:  anotou 25 pontos consecutivos para o Cavs entre o quarto período e a prorrogação, e 29 dos últimos 30 do seu time, chegando a 48 para derrubar Billups, Hamilton, Prince e Rasheed, a base campeã em 2004. Foi um divisor de águas para a estrela: ainda havia muita gente disposta a questionar sua integridade em momentos decisivos.

Se LeBron foi heróico, é por ter precisado agir assim, fora de seu modus operandi. Na visão do craque, basquete é um jogo que se vence e perde em conjunto. Acontece que, com Eric Snow, Daniel Gibson, Jones, Hughes e Pavlovic ao seu lado, fica difícil. A rotação de pivôs era sólida, com Ilgauskas ainda em relativa boa forma, Varejão aprontando das suas, Gooden e Marshall. Mas a turma do perímetro… Sem condições. Tirando o camisa 23, não havia ninguém ali em condições de criar jogadas. As tentativas de Pavlovic, sem aliviar, chegavam a ser hilárias. Eric Snow estava mais para Stone, com sua postura petrificada. Gibson era um calouro.

Na decisão, de qualquer forma, veio o choque de realidade: foram varridos pelo San Antonio Spurs. Era outro ponto a mais para se considerar:  a conferência é fraca há tempos já. Havia o decadente Detroit Pistons, e mais nada – o revival do Boston Celtics só aconteceria no ano seguinte, o Indiana Pacers foi destroçado por Ron Artest e o Chicago Bulls de Scott Skiles era quase um fac-símile da versão Thibs: defendia horrores, com operários adoráveis, mas morria nos playoffs. Ciente de que o que tinha em mãos não era o bastante, a diretoria passou a perseguir trocas. No entanto, o velho dilema se repete: se você está interessado em se desfazer de um contrato ruim, é bem provável que vá ter de receber o entulho do outro.

– A ciranda
Ninguém vai poder dizer que Ferry não tentou. Em fevereiro de 2008, veio a primeira chacoalhada, numa negociação tripla, mandou Hughes, Marshall, Gooden, Shannon Brown e o pivô Cedric Simmons embora, dando lugar a Ben Wallace, Joe Smith, Wally Szczerbiak e Delonte West. A equipe foi eliminada pelo Boston Celtics na semi do Leste (4 a 3). Em agosto do mesmo ano, trocou Smith e Jones por Mo Williams, cujas habilidades eram um ótimo complemento para as de LBJ. O Cavs conseguiu a melhor campanha da história (66 vitórias e 16 derrotas), mas perdeu na final de conferência para o Orlando Magic, de modo surpreendente. Então que mudassem de novo, em junho de 2009 trouxe Shaquille O’Neal de Phoenix, pagando Wallace, Pavlovic, uma escolha de Draft e US$ 500 mil. Por fim, no meio da temporada 2009-10, partiu o coração de muita gente ao trocar Zydrunas Ilgauskas e mais uma escolha de Draft para ter Antawn Jamison e Sebastian Telfair. E o Cavs voltou a perder para o Celtics, por 4 a 2, pela segunda rodada.

Olhar o quê, exatamente?

Olhar o quê, exatamente?

Com exceção de West e Williams, a esmagadora maioria das aquisições foi de jogadores envelhecidos, bem distante de seu auge atlético. Foram todas contratações um tanto desesperadas, imediatistas, para tentar agradar a LeBron antes que ele se tornasse um agente livre. Não funcionou. Por mais competitivo que o time tenha sido, a frustração por tantos revezes consecutivos nos playoffs foi enorme. Será que nem mesmo um craque desse porte conseguiria livrar Cleveland de sua teimosa maldição? Numa última medida, Gilbert saiu dos bastidores e demitiu Brown, apesar da equipe ter feito a melhor campanha nas últimas duas temporadas combinadas. Ferry não aprovou a decisão, e acabou se desligando do time também “em comum acordo” (aquela de sempre). Seu assistente, Chris Grant, foi promovido. Byron Scott foi contratado. LeBron se mandou para Miami.

– A reconstrução
Não há como se recuperar de imediato com uma perda dessas. Simplesmente não dá, especialmente depois de o clube ter apostado todas as suas fichas em negócios de pouco fôlego. Byron Scott jamais vai admitir isso, mas duvido que topasse a oferta do Cavs se soubesse que sua rotação na temporada regular seria composta por Mo Williams, Ramon Sessions, Daniel Gibson, Anthony Parker, Antawn Jamison, Anderson Varejão, JJ Hickson e Ryan Hollins. Conta outra.

O que Grant conseguiu fazer foi juntar cacos peças para o futuro. Ajudou já o fato de ter fechado um sign-and-tarde com o Miami Heat, já coletando duas escolhas de primeira rodada do Draft e duas de segunda. Nenhuma delas foi aproveitada pelo time em sua rotação, é verdade. Mas foram triunfos para outras transações. Outra escolha de segunda rodada veio em um negócio tramado com o Minnesota Timberwolves (Telfair e West por Sessions e Hollins). A terceira troca foi ainda mais lucrativa: assimilou o contrato de Baron Davis, dando Williams ao Clippers, para receber uma escolha de Draft de 2011. A franquia californiana pretendia abrir espaço salarial e caçar novos atletas (CP3 chegaria nessa). Mas o pick cedido deu ao Cavs a sorte grande: Kyrie Irving. Sem saber, a franquia começava a pavimentar a via para o Retorno. Em quarto, adicionou Tristan Thompson, coincidentemente agenciado por um amigo de infância de LeBron, Rich Paul. Para completar, ainda mandaram JJ Hickson para Sacramento, por Omri Casspi e mais uma escolha.

O processo de acúmulo de ‘ativos’ continuou na campanha 2011-12, quando Ramon Sessions foi enviado ao Los Angeles Lakers em troca de Luke Walton e mais um pick de primeira rodada, além do direito de inverter a ordem de seleção com o time californiano em 2013, se julgasse necessário (aconteceu). Para não perder a conta, nessas cinco transações, foram adquiridos seis picks de primeira rodada. No Draft, chegaram Dion Waiters e Tyler Zeller. Uma sexta troca, agora com o Memphis Grizzlies, renderia nova escolha, para que pudessem acolher Wayne Ellington, Marreese Speights e Josh Selby. Nenhum deles seria uma peça integral, mas o que valia era o suculento adicional do negócio.

Na teoria, o time ia se abastecendo de jovens atletas e moedas de troca valiosas para o futuro. Na prática, verdade seja dita, o time era uma bela porcaria, vocês sabem. Foram 64 vitórias em 230 jogos. E aí que a paciência de Gilbert chegou ao limite. O proprietário enquadrou Grant, dizendo que era a hora de obter resultados mais concretos. Sobrou primeiro para Scott, que não conseguiu desenvolver seus atletas, muito menos instaurar uma aura vencedora no vestiário – ainda que uma cobrança dessas fosse uma baita hipocrisia, considerando que o evidente plano do gerente geral era perder para pensar no futuro. Assim como faz o Philadelphia 7e6rs hoje.

A escolha de Draft do Memphis que chegou a Cleveland com Wayne Ellington ajudou na troca por Timofey Mozgov

A escolha de Draft do Memphis que chegou a Cleveland com Wayne Ellington ajudou na troca por Timofey Mozgov

Antes de Lebron, então, quem voltou foi Mike Brown, com um contrato de cinco anos e US$ 25 milhões. Ele retomava seu antigo cargo com o privilégio de poder orientar dois novatos número 1 do Draft, já que Anthony Bennett se juntava a Irving. O russo Sergey Karasev era mais um jogador jovem para a base. No mercado, contratou Jarrett Jack (pagando demais), Earl Clark e Andrew Bynum (uma roubada). No meio do campeonato, pela primeira vez desde 2010, o Cavs faria uma troca na qual o jogador mais relevante estava chegando, em vez de saindo: Luol Deng. Mas o time não evoluiu da forma que Gilbert esperava.

O desempenho de Bennett era decepcionante, e Bynum armou um circo, antes de ser envolvido na transação por Deng. A sucessão de erros recentes custou a demissão de Grant. David Griffin foi promovido e ainda teve de providenciar a chegada do pivô Spencer Hawes, do Sixers, numa vã tentativa de subir na tabela. Os veteranos não influenciaram a campanha,  e o time ficou fora do playoffs. Foi a vez de Brown ser novamente chutado para escanteio, mesmo com US$ 20 milhões ainda por receber da franquia.

De todo modo, a visão geral de Grant estava correta. O time estava preparado para avançar, ainda que tenha tropeçado feio em seu último ano de gestão. O campeonato ruim colocou o time novamente na loteria do Draft, e o restante dos concorrentes entrou em choque ao saber que, pela terceira vez em quatro anos, a família Gilbert era agraciada novamente com o primeiro lugar da lista e o direito a optar entre Andrew Wiggins, Jabari Parker e Joel Embiid. Uma das escolhas de Draft acumuladas durante o processo foi enviada por Griffin para o Boston Celtics, ao lado de Tyler Zeller, para que o clube pudesse se desfazer dos contratos de Jack e Karasev. Estava aberta a trilha para a contratação de LeBron – e de Kevin Love. Outra das escolhas foi usada para aquisição de Timofey Mozgov, enquanto Dion Waiters foi peça central na troca por Iman Shumpert e JR Smith. Aí… Bem, aí que o Cavs torna a disputar o título depois de oito anos.

Desde que publicou sua celebrada carta na Sports Illustrated, LeBron pediu paciência a todos. Que as coisas levariam um tempo até a se ajustar. Quando se apresentou ao clube, porém, ficou claro que o mais ansioso pela conquista de bons resultados era o próprio craque. Vem daí a troca de Wiggins por Love. O astro também deu uma canseira em David Blatt, deixou claro seu descontentamento com o próprio Love e com Irving e Waters em diversas partidas e não parou de mandar recados, velados ou não. Seu discurso inicial não poderia ser mais vazio. LeBron queria o título, e para já. Agora tem uma segunda chance, em busca da redenção em sua terra natal.  A diretoria, mais uma vez, cedeu a todos os seus pedidos. Só esperam todos que o desfecho seja diferente. Para agora e um pouco mais à frente.


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Giancarlo Giampietro

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Varejão e Leandrinho: mais um brasileiro sairá campeão de quadra

A partir do momento em que o Golden State Warriors terminou o serviço na Conferência Oeste, despachando o Houston Rockets para se classificar à final, ficou definido que mais um brasileiro se juntaria a Tiago Splitter na lista de campeões da NBA: ou vai dar Leandrinho, ou Anderson Varejão, com seu Cleveland Cavaliers. Demorou um pouco, é verdade, desde que Nenê chegou a Denver em 2002 para reabrir as portas da liga americana aos jogadores nacionais. Mas, com dois títulos em dois anos seguidos, essa geração de 1982 a 85, um tanto contestada pela falta de sucesso com a camisa da seleção, trata de confirmar seu valor.

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Não, nenhum deles alcançou um status transcendental como o da dupla Manu Ginóbili e Luis Scola, ainda que Splitter já tenha sido eleito o melhor pivô da Espanha (e da Europa), que Leandro já tenha ganhado um prêmio de Sexto Homem (tal como Manu), e que, juntos, tenham ganhado, só nos Estados Unidos, mais de US$ 208 milhões em salários – sem contar os US$ 92 milhões que ainda estão por cair na conta. Se as franquias decidiram desembolsar tanta grana assim por quatro atletas, é que com algo de positivo eles podem contribuir. Creio. Mesmo que coadjuvantes.

Bons times não são compostos apenas por grandes estrelas. Se bem que… Qualquer treinador adoraria escalar cinco LeBrons… Ou, imaginem, que pesadelo seria marcar cinco atletas com a habilidade de Steph Curry no arremesso. Mas, hã, isso é impossível. Esses caras são aberrações, que você não encontra facilmente por aí. Os dirigentes têm, então, de se virar para encontrar as melhores peças complementares possíveis, enfrentando concorrência pesada e também tendo de se adequar  regras de controle das folhas salariais. É aí que entram os dois finalistas deste ano, além do campeão Splitter e de Nenê.

Eles têm algumas características em comum – especialmente os pivôs, os três muito inteligentes, com visão de quadra, excelentes no corta-luz e no passe – e outras habilidades bastante específicas que os tornam jogadores cobiçados e valiosos na confecção de um elenco. Lembrando que, numa liga de padrão elevadíssimo, mesmo os ‘operários’ tendem a ser bastante qualificados e, quando atingem um nível de excelência naquilo que são contratados para entregar, acabam muito bem pagos.

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Esse quarteto ganhou uma nota, é verdade – e acumularam também muitas vitórias, aquilo que, supomos, vale mais. É interessante notar como no currículo de Leandro, Varejão, Nenê e Splitter estão relacionadas equipes que prosperaram na maior parte do tempo. Com uma boa ajuda do Basketball Reference, dá para levantar precisamente o quanto elas venceram com a ajuda dos brasileiros. Então vamos lá: com 4o campanhas acumuladas entre os quatro, apenas em nove delas seus times tiveram aproveitamento inferior a 50% quando estavam em quadra, enquanto em 27 ocasiões foram para os playoffs.

aproveitamento-brasileiros-nbaSão quatro temporadas negativas para Varejão (no intervalo sem LeBron em Cleveland de 2011 a 2014), três para Leandrinho (a primeira em Phoenix em 2003, uma em Toronto em 2011 e outra dividida entre Toronto em Indiana em 2012) e apenas duas para Nenê (a primeira pelo Denver em 2002 e a de 2013 pelo Washington – tomando o bom senso de ignorar sua campanha 2005-06, na qual disputou apenas um jogo, sofrendo grave lesão no joelho logo na primeira partida). Splitter, no bem bom de San Antonio, tem um aproveitamento de 72,3% nas partidas que disputou (veja mais ao lado). No total, eles somam 2.329 partidas, com 1.366 vitórias, com aproveitamento de 58,6%. Para relativizar, esse número valeria a quinta colocação na Conferência Leste na atual temporada, ou o oitavo lugar no duríssimo Oeste.

O Golden State Warriors de Leandrinho, esteve bem acima dessa média, com 81,7% para entrar na decisão com mando de quadra. Nas 66 partidas em que escalou Kerr, o rendimento foi um tiquinho superior (81,8%). Quando vai para quadra, joga 11 minutos por partida durante os playoffs, rendendo Stephen Curry ou Klay Thompson. Varejão está fora de ação em Cleveland, devido a uma cirurgia no tendão de Aquiles que interrompeu sua vitória em dezembro. Quando jogou, em tempos de turbulência pré-folga de LeBron e trocas, foram 16 vitórias e 10 derrotas (61,5%, contra os 64,6% do final). Mas os poucos minutos e jogos não só não condizem com a história que os dois (e seus compatriotas) construíram nos últimos 13 anos de NBA, como também não diminuem a importância de ambos em seus grupos.

“Acho que se fôssemos fazer uma eleição no nosso time sobre quem seria o atleta mais popular, ele ganharia. É um cara divertido e que está sempre dando atenção a todos. Ele proporciona muita energia para o nosso time, energia no dia a dia para o vestiário, o que é sempre muito bom e importante”, afirmou ao VinteUm Alvin Gentry, recém-contratado pelo New Orleans Pelicans, mas ainda assistente do Warriors nas Finais da NBA que começam na próxima quinta-feira. Pergunte a LeBron James sobre o impacto que Anderson Varejão pode causar no dia a dia de um clube, também com muito carisma e empenho inesgotável. “Ele foi uma parte gigante no sucesso que tivemos no passado aqui, e, quando tomei a decisão para voltar, fiquei muito feliz que ainda fizesse parte do time”, disse durante a pré-temporada no Rio.

spurs-splitter-campeao-2014Não é apenas como ombro amigo que se ganha relevância. Varejão, obviamente, fica limitado a esse papel nas próximas semanas. Quando está em quadra, porém, sabemos que se trata de um dos melhores reboteiros e defensores entre os grandalhões da liga, além de ótimo passador. Leandrinho, por outro lado, tem sido produtivo nos minutos que lhe cabem como reserva de dois All-Stars, com 7,1 pontos em 14,9 minutos, com 47,4% nos arremessos (a melhor marca desde 2009) e 38,4% de três pontos (a melhor desde 2008). Numa projeção por 36 minutos, se mantivesse o ritmo, estaria com 17,1 pontos, 3,6 assistências, 3,3 rebotes e 1,5 roubo de bola. Em termos de eficiência, atingiu aos 32 anos o quarto melhor índice de sua carreira.

Os números caíram de modo significativo nos playoffs, mas o veterano ainda conta com a confiança de seu técnico em duelos importantes, de pressão. Por isso, já deve ficar de prontidão nas próximas 48 horas,  dependendo da avaliação médica de Klay Thompson. O ala ainda está sendo examinado de acordo com o protocolo de concussão da liga e não tem escalação garantida para o Jogo 1 em Oakland. Num cenário ideal, Kerr não vai precisar acionar o ligeirinho. Mas sabe que o ala-armador está jogando com muita velocidade e um nível de intensidade, agressividade fora do comum. Características tão ou mais importantes que as estatísticas. Menos do que uma lenda viva como Ginóbili ofereceu ao Spurs com frequência, desde 2003, quando estrearam juntos nos Estados Unidos. Normal, ué. Manu é outro que está na galeria dos diferentes, daqueles em torno do qual você pode montar um belo time. Sozinhos, contudo, eles não vão a lugar nenhum. Na escolta, pode muito bem caber um dos brasileiros.


Em números: as finais da NBA entre Warriors e Cavs
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Giancarlo Giampietro

LeBron x Iguodala, Cavs x Warriors

Golden State Warriors e Cleveland Cavaliers ainda têm alguns dias de descanso pela frente. Só vão jogar na próxima quinta-feira, em Oakland. Até lá, dá muito temp para que suas comissões técnicas e dirigentes processem uma penca de números para encaminhar o estudo para a disputa pelo título. Aqui, fazemos um apanhado estatístico diversificado sobre a produção dos dois finalistas da NBA 2014-2015 durante os playoffs, além de alguns dados de contexto histórico:

73 – Stephen Curry já converteu 73 arremessos de três pontos nestes playoffs, um recorde absoluto. Já são 15 a mais do que o segundo colocado na lista, Reggie Miller. Se formos pensar apenas nos atletas da atual campanha, quem aparece na vice-liderança é justamente seu companheiro de perímetro, Klay Thompson, com 45. James Harden é o terceiro, com 41.

Ricky Barry era o Steph Curry do Warriors há 40 anos: um excepcional arremessador e All-Star

Ricky Barry era o Steph Curry do Warriors há 40 anos: um excepcional arremessador e All-Star

40 – Essas vocês já ouviram antes: é a primeira decisão do Golden State Warriors depois de 1975, em 40 anos. Isso equivale ao maior intervalo entre duas aparições nas finais da NBA. Para o Cleveland, a espera foi bem mais curta – oito anos, depois de LeBron e Varejão terem disputado a decisão de 2007. São os únicos remanescentes daquela campanha, com a diferença de que o craque do time tirou férias prolongadas em South Beach no meio do caminho.

37 – Shawn Marion, quem diria, é o jogador mais velho dos dois elencos que disputam o título. O ala que um dia foi conhecido como Matrix, devido a sua incrível habilidade atlética, nasceu em 7 de maio de 1978. O pivô Brendan Haywood, também do Cavs, é o segundo mais velho, com 36 anos (faz aniversário em novembro). Quer saber quem é o vovô no elenco do Warriors? Leandro Mateus Barbosa. Sim, o Leandrinho, nascido em São Paulo no dia 28 de novembro de 1982.

35,8% – É o percentual de arremessos do Golden State Warriors que vem atrás da linha de três pontos, acima da dos 31,1% que havia tentado durante a temporada regular. O Cavs aparece logo em sequência, todavia, até num empate técnico, com 35,6%. Em termos de aproveitamento, o Golden State tem acertado 38%, o segundo melhor. O Cleveland é o quinto, com 35,9%. Em termos de chutes da zona morta, o famoso corner three, o Warriors vem convertendo 46,4%, contra 40,2% do Cavs.Curiosamente, os dois times são aqueles que melhor se defendem contra arremessos de longa distância. O Cavs permitiu aos seus oponentes apenas 28,1% de acerto aos seus oponentes, enquanto o Warriors levou 31%. Vale destacar, no entanto, que ambas as equipes enfrentaram alguns times fracos nesse fundamento, como Boston Celtics, Milwaukee Bucks, Memphis Grizzlies e New Orleans Pelicans.

31,2 – Foi a média de pontos de Stephen Curry na série contra o Houston Rockets, valendo o título do Oeste. LeBron James anotou 30,3 pontos. Nos mata-matas, as médias foram de, respectivamente, 29,2 e 27,6. Na temporada regular, 23,8 e 25,3.

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30,5% – É o percentual dos arremessos que o Golden State busca na área restrita ao redor do aro. O jogo lá dentro, mesmo, com os chutes de maior eficiência, e o aproveitamento do time de Steve Kerr nesta área é de 63,9%. Os números do Cavs são, novamente, muito semelhantes: respectivamente 29,8% de seus chutes próximos ao aro, com rendimento de 61,9%. Na hora de comparar esses dados, é importante lembrar apenas que cada time enfrentou adversários diferentes.

Klay para três: o segundo que mais acertou de fora nestes playoffs

Klay para três: o segundo que mais acertou de fora nestes playoffs

28,5% – O Cleveland Cavaliers coleta 28,5% dos reboetes ofensivsos em suas partidas, mesmo com Kevin Love caindo no meio do caminho. O Golden State Warriors aparece em segundo, com 27,5% (o Dallas Mavericks, com 28,1%, aparece entre eles, com muito menos jogos). Tristan Thompson é quem tem o melhor aproveitamento neste fundamento entre aqueles que disputaram ao menos duas séries, com 13,4% das rebarbas quando está em quadra. Timofey Mozgov aparece em terceiro, com 12,1%.

21,6 – O Golden State Warriors tem marcado 21,6 pontos por contra-ataque nesta fase decisiva, com o maior rendimento. É uma vantagem significativa em relação ao Cleveland Cavaliers, o penúltimo, com apenas 7,4. O interessante é que quando o Cavs sai em transição, é na boa: convertendo 1,27 ponto por investida em transição,  a melhor nesta fase.

14,7 – Sem Kevin Love, com Kyrie Irving estourado… Tem sido um LeBron James muito mais agressivo. O craque do Cavs lidera os playoffs em 14,7 infiltrações com a bola por jogo, ocupando a primeira colocação nesse tipo de ataque. Stephen Curry tem 7,8 infiltrações, sendo o 15º na lista. Para comparar, James bateu para a cesta 9,8 partidas para a temporada regular, contra 5,7 de Curry.

LBJ, atacando o aro na hora do vamos ver

LBJ, atacando o aro na hora do vamos ver

10,7 – LeBron partiu para a finalização em jogada individual, isolado em quadra, em 140 posses de bola nos playoffs, com média de 10,7 por jogo. Mais que o dobro do Chef Curry (51 posses em 14 partidas, média de 3,6). Curry, porém, tem melhor aproveitamento, acertando 42,1% de seus arremessos nesse tipo de ocasião, contra 32,5% de James.

10 – Em 15 partidas nestes playoffs, Draymond Green já conseguiu 10 double-doubles. Ótima fase? Grande esforço? Para se ter uma ideia, em 240 compromissos pela temporada regular da NBA, o ala-pivô havia conseguido apenas dois duplos-duplos. Suas médias nos mata-matas subiram de 11,7 pontos, 8,2 rebotes e 3,7 assistências para 14,0, 10,8 e 5,3, respectivamente.

7 – O Cavs chega para brigar pelo título com sete triunfos em sequência – um abaixo de sua melhor marca nos playoffs.

5 – De 29 partidas feitas por Warriors e Cavs nestes playoffs, eles perderam apenas cinco. A campanha combinada de 24 triunfos e 5 revezes é a melhor desde os finalistas de 1991: o Chicago Bulls de Phil Jackson e Michael Jordan e o Los Angeles Lakers de Mike Dunleavy e Magic Johnson. Naquela ocasião, somavam, respectivamente, 22 e 4. Com um detalhe: a primeira rodada dos mata-matas era definida em sistema melhor-de-cinco. Tanto o Bulls como o Lakers varreram seus primeiros oponentes (Knicks e Rockets) por 3 a 0. O Bulls havia perdido apenas uma partida, pelas semifinais, contra o Philadelphia 76ers de Charles Barkley. Avançando para 2015, o Cavs cedeu dois jogos no duelo com Chicago pelas semis, enquanto o Warriors perdeu duas vezes para Memphis e uma para Houston.

Está difícil de ganhar do Warriors em Oakland

Está difícil de ganhar do Warriors em Oakland

3 – Com mando de quadra na série final, o Golden State Warriors sofreu apenas três derrotas em casa nesta temporada, em 49 jogos. É a melhor campanha de um anfitrião neste ano, e uma das melhores da história entre os finalistas. Apenas dois times entraram na decisão com menos derrotas: o Boston Celtics de 1986, rumo ao título, perdeu apenas uma vez no antigo Garden, para o Portland Trail Blazers, por 121 a 103, e o Chicago Bulls de 1996, o das 72 vitórias, que sofreu apenas dois reveses em sua jornada. Duas equipes legendárias.

0,7 – Com três assistências a mais na final do Leste contra o Atlanta Hawks ou 0,7 em média, LeBron James teria sido o primeiro jogador na história a ter médias superiores a 30 pontos, 10 rebotes e 10 passes para a cesta numa série de playoff. Acabou terminando com 30,3, 11,0 e 9,3, respectivamente.

0 – Nenhum jogador do Warriors disputou uma edição das finais da NBA. Zero, mesmo. Seria este um dado preocupante? Talvez. Mas, entnao, qual foi o último time a chegar a uma decisão nessas condições? O mesmo Bulls aqui já citado, o de 1991, com Michael Jordan, Scottie Pippen, Horance Grant, Bill Cartwright e John Paxson todos estreando. É que os Bad Boys do Detroit Pistons simplesmente não os deixava avançar. Quando o Bulls passou, levou. Em Cleveland, LeBron James já vai para a sua quinta final consecutiva, é verdade – sendo o primeiro atleta da liga a conseguir essa façanha desde diversos nomes do dinástico Boston Celtics em 1966. James Jones, seu amigão, o assessorou em todas as quatro decisões anteriores também. Mike Miller jogou nas de 2011 a 2013. Kendrick Perkins foi campeão pelo Celtics em 2008 e vice-campeão em 2012, enquanto Shawn Marion ganhou a de 2011.


Deu Warriors x Cavs. Notas sobre os desfecho das finais de conferência
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Giancarlo Giampietro

LBJ que se prepare: Warriors tem diversos defensores para tentar segurá-lo

LBJ que se prepare: Warriors tem diversos defensores para tentar segurá-lo

As finais de conferência já são história, definindo que o Golden State Warriors vai jogar sua primeira decisão da NBA após 40 anos e que LeBron James chega a sua quinta em cinco anos – um aproveitamento de 100% nesta década. Para o seu Cavs, vale como o retorno após a varrida sofrida em 2007 contra o Spurs.

Assunto é o que não falta. Seguem, então, algumas notinhas sobre os desdobramentos dos últimos dias e outras pílulas sobre o que vem por aí. Alguns desses tópicos provavelmente mereçam ser explorados com mais atenção até a próxima quinta-feira, quando começa o embate. Foi apenas a segunda vez em 29 anos em que as conferências consagraram seus campeões em um máximo de cinco jogos. Ambos terão uma semana de descanso, então, para regenerar James, preservar o joelho de Kyrie Irving e cuidar de uma eventual concussão de Klay Thompson.

*  *  *

Os relatos de Oakland afirmam que não houve comemoração mais tímida como a do Warriors nesta quarta, no vestiário. Nada de champanhe, choro e exaltação. “Alguns jogadores tiraram selfies com o troféu da Conferência Oeste, e ficou nisso”, escreve o veterano jornalista Tim Kawakami, do San Jose Mercury News. “Já estão claramente concentrados nas próximas quatro vitórias.”

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Poxa, mas nenhuma tacinha?

Dá pra entender a sobriedade. melhor time o ano todo. Só o título vale como desfecho de uma das melhores campanhas da história. Com 79 vitórias e 19 derrotas até agora, são os favoritos. Em que pese o fator LBJ.

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Varejão e Leandrinho, mais de 10 anos na liga

Varejão e Leandrinho, mais de 10 anos na liga

Vamos ter um segundo brasileiro campeão, para se juntar a Tiago Splitter. E pelo segundo ano consecutivo. Se Leandrinho tem jogado muito bem como substituto eventual de Chef Curry ou Klay Thompson, com média de 11 minutos em 15 partidas, Anderson Varejão é praticamente um assistente do Cleveland, depois de ter sofrido uma ruptura de tendão de Aquiles em dezembro. Se a equipe desbancar o Warriors, porém, o pivô merece tão ou mais o anel de campeão do que qualquer um de seus companheiros. Afinal, é o cara que está no clube desde 2004, viu LeBron crescer e partir com os seus talentos para South Beach, sofreu com tantas derrotas nos últimos anos e se tornou um patrimônio da cidade. Quando seu corpo não lhe trai, não há quem entregue mais.suor em quadra.

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“Nós somos um time de arremesso e que não chutou bem hoje. Pelo menos fizemos uma ótima defesa.”

Foi uma das frases de Draymond Green nas entrevistas após a vitória final sobre o Rockets. Sem a eloquência costumeira, mas resumindo sua equipe. De novo: o Warriors não é especial só por causa do talento dos Splash Brothers. No Jogo 5, acertaram apenas 9 de 29 tentativas de longe, com Curry em desarranjo, mas acabaram com James Harden e souberam proteger a cesta depois de um primeiro quarto dominante e preocupante de Dwight Howard.

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Sobre Curry: o que houve? O MVP matou apenas 7 de 21 arremessos, sendo 3 em 11 de três pontos. Ainda perdeu 3 de 12 lance livres. Sem dúvida que foi um reflexo do tombo que levou em Houston. Ele sentia leve dor no lado direito de seu corpo. Decidiu até mesmo jogar com a proteção eternizada por Allen Iverson no braço. Mas a bola não caía com a frequência desejada. Tirou a braçadeira, e não deu em nada. Faço um paralelo com um carro de Fórmula 1, se me permitirem. A forma de arremesso do armador é tão especial, tão sofisticada que qualquer componente desalinhado pode fazer toda a diferença. Com uma semana de treinamento e respiro, tem tempo suficiente para restaurar a configuração original.

Agora é descansar o braço. Se a pequena Riley permitir

Agora é descansar o braço. Se a pequena Riley permitir

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É,  James Harden…  13 turnovers, recorde individual em um jogo de playoff. Só fez um pontinho a mais que isso. Se o Sr. Barba conseguiu evitar a varrida em Houston, acabou vivendo um pesadelo em Oakland. Fica a dúvida agora sobre qual desfecho seria menos indigno para a sua temporada.

Mas o Houston Rockets como um todo deve se despedir de cabeça erguida. Ser o segundo colocado numa conferência dessas não é pouco. Ainda mais com Howard perdendo exatamente a metade da campanha e Terrence Jones, Patrick Beverley e Donatas Motijeunas fora por muito tempo. E com Josh Smith, Corey Brewer e Pablo Prigioni chegando no meio do caminho.

Lembrem-se que o time texano caiu na primeira rodada dos playoffs do ano passado. Voltou, então, com uma defesa top 10, num progresso sensacional, mesmo sem Howard. O próximo desafio agora é procurar diversificar o ataque encontrar outros planos para além da correria e das investidas de Harden. O craque precisa da ajuda de outra força criativa no perímetro. Beverley, Brewer e Ariza são peças complementares excelentes, mas contribuem muito mais com defesa e energia. Não são caras que desafoguem a vida na hora de buscar a cesta.

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Para ficar no tema dos eliminados, o Hawks encerra a melhor campanha da franquia desde que se estabeleceu em Atlanta. Foi um ano maravilhoso, mas que terminou como um suplício. Começou com a fratura na perna de Thabo Sefolosha, causada pela polícia nova-iorquina. Depois foi a vez de DeMarre Carroll quase estourar o joelho. Al Horford foi expulso. Kyle Korver acabou de passar por uma cirurgia no tornozelo direito. Shelvin Mack sofreu uma ruptura no ombro e também vai ser operado. Afe. O futuro do time fica no ar agora, devido à entrada de Paul Millsap e Carroll no mercado, com a cotação elevadíssima. Danny Ferry, um dos dirigentes que melhor contratou nos últimos anos, segue afastado. E o clube tem novos proprietários. Seria um pecado que esse núcleo não tivesse mais uma chance.

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Steve Kerr, Cleveland Cavaliers, player, cardE este card? Ainda iniciando sua carreira na liga, depois de uma temporada com o Phoenix Suns, o chutador Steve Kerr jogou pelo Cavs de setembro de 1989 a dezembro de 1992, quando foi trocado para o Orlando Magic por uma escolha de segunda rodada do Draft de 1996, que resultaria em… Reggie Geary (quem?). Depois, acertaria com o Chicago Bulls. O resto da história vocês conhecem. Cinco títulos como atleta, comentarista brilhante, dirigente competente e agora um técnico de sucesso. Não apostem contra ele.

*   *   *

Ao assumir o Golden State, um dos primeiros nomes contatados pelo treinador para compor sua comissão técnica foi… David Blatt. E pensar que o comandante do Cavs ficou muito perto de aceitar a proposta. Meio que já tinham um acordo informal, até que o Cavs (antes do Retorno) entrou na parada. Kerr nem tinha muito do que reclamar, pois havia feito a mesma coisa com Phil Jackson e o New York Knicks. Se o Mestre Zen tivesse feito a proposta dias antes, talvez tivesse assinado um contrato com o ex-pupilo. Pequenos desvios no rumo da história que nos colocam aqui, diante da final Warriors x Cavs. Agora Kerr e Blatt se enfrentam: é o primeiro par de treinadores (coff! coff!) novatos. Tecnicamente, é a segunda vez, mas isso porque houve uma primeira temporada, com dois treinadores que, dãr, estreavam em seus postos. Em 1947,  Eddie Gottlieb, do Philadelphia Warriors, levou a melhor sobre Harold Olsen, do Chicago Stags, por 4 a 1.


LeBron carrega Cavs em esforço que justifica (e relativiza) estatísticas
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Giancarlo Giampietro

A linha estatística de LeBron James deste domingo é qualquer coisa de anormal, mesmo: 37 pontos mais 18 rebotes maaaaais 13 assistências, em 47 minutos de jogo. E sabe o que mais também? Tentou 37 arremessos de quadra, convertendo 14 (37,8%). O que deveria levar todo mundo automaticamente ao seguinte questionamento: e se fosse o Kobe ou o Westbrook? Estaríamos falando de um ato heroico, que justifique a belíssima foto abaixo, ou seria simplesmente um espancamento público?

LeBron, Game 3, East Finals, Cavs, Hawks, triple-double

LeBron, hero, Cavs, Cleveland, playoffs 2015

Agora, antes que os defensores de Kobe, Wess e LeBron se inflamem, vamos apelar para aquela máxima do bom senso: que tal a gente relativizar os números, em vez de processá-los friamente, ignorando o que se passou ao redor do protagonista em quadra. De novo aquele conselho de jamais acessar a tabela de estatísticas e tão somente as estatísticas para dizer se um jogador “brilhou”, “deu show” ou “amarelou” e “afundou” o time.

Assim, de cara, dá para dizer que não é saudável que um atleta precise arremessar 37 vezes para levar seu clube ao triunfo, como aconteceu neste domingo, com o Cavs vencendo o Hawks por 114 a 111 para abrir 3 a 0 na série. Isso, aliás, é algo que contraria até mesmo a visão de jogo do craque, um cara que já foi acusado no início de sua carreira de passar até demais a bola em momentos decisivos. Quem se lembra disso? Foi lá em 2008.

Mas o que a gente vê hoje em quadra é justamente um Cleveland que lembra, em muitos aspectos, sua versão de seis, sete anos atrás, mesmo. Sem Kyrie Irving, sem Kevin Love, o que se tem é um conjunto que gira em torno completamente de seu grande astro. Pivôs competentes e combativos, mas que não criam por conta própria (tal como Zydrunas Ilgauskas e Anderson Varejão) e um bando de chutadores e operários no perímetro (com a diferença de que JR, Shumpert e mesmo Dellavedova superam as contribuições de Daniel Gibson, Damon Jones e dos Sasha Pavlovics da vida).

Uma cena que deixou isso mais evidente foi quando sentiu uma torção de tornozelo na reta final da partida e ficou mancando por umas duas ou três posses de bola. Pediu para ser substituído. Quando olhou bem para o banco, porém, pensou duas vezes e disse que ficaria em quadra. Não dava para chamar Mike Miller, Shawn Marion ou James Jones numa situação daquelas. “LeBron sabia que não venceríamos o jogo sem ele. Ele simplesmente não nos deixaria perder. Fantástico”, afirmou David Blatt. Pois é: está na cara que o Cavs só chegou a três vitórias nesta série devido aos talentos do ex-morador de South Beach.

Se LeBron tentou 37 arremessos, é porque foi preciso. Entre seus companheiros, só mesmo JR Smith tem capacidade de criar jogadas por conta própria na hora do aperto, e nem isso é lá muito recomendado. Sobrou uma carga enorme para o craque monitorar, num esforço muito desgastante. Da mesma forma que aconteceu com Russell Westbrook durante o campeonato e como já ocorreu com Kobe Bryant em meados da década passada, quando ele poderia alcançar 81 pontos numa partida. Uma coisa é esfomear com Kevin Durant, James Harden, Kevin Martin, Pau Gasol, Andrew Bynum ou Lamar Odom ao seu lado. Outra, com Andre Roberson, Anthony Morrow, Serge Ibaka, Smush Parker, Ronnie Price e Carlos Boozer. O ideal, antes de julgar, é deixar qualquer preconceito de lado e procurar se ater aos fatos.

“É preciso confiar nos seus companheiros”, vai pregar qualquer treinador. Claro que sim. E LeBron confia em Thompson, Mozgov, Dellavedova, JR e Shumpert. Nota-se isso a cada pedido de tempo ou mesmo a cada erro deles. Acontece que, na atual conjuntura da equipe, a relação entre a estrela e os coadjuvantes é de submissão, mesmo.

Blatt poderia fazer alguma coisa a respeito? O natural é cobrar, mesmo, algo a mais de um técnico desses, algo além do bumba-meu-boi-LeBron-contra-a-rapa, que o deixa todo estourado ao final da partida. Por outro lado, não dá para ignorar as dificuldades que os desfalques de Irving e Love representam. Você pega um elenco novíssimo no início da temporada, desenha, planeja o que precisa ser feito. Demora para entrosar, para que os atletas se entendam, ainda mais com grandes mudanças no elenco no meio do caminho. Quando chega o momento de decisão, duas peças vitais da equipe caem. Não vai ser em uma semana de treinos que tamanho ajuste sistêmico vai ser feito.

Para fechar, segue, então, um apanhado de dados sobre o que a atuação do astro representa para sua equipe neste jogo em específico e também a quantas anda seu contexto histórico estatístico na fase decisiva da NBA:

4.782 – É o seu total de pontos em jogos de playoff, ultrapassando o carteiro Karl Malone para ocupar a sexta posição na lista. Acima dele, estão: Michael Jordan (5.987), Kareem Abdul-Jabbar (5.762), Kobe Bryant (5.640), Shaquille O’Neal (5.250) e Tim Duncan (5.113). Boa companhia, né?

60% – LeBron foi responsável por 60% dos pontos do Cleveland neste domingo, somando 68 pontos entre as cestas que fez e as assistências que deu. Apenas no terceiro período, esteve envolvido com 29 dos 33 pontos do time – dois deles numa belíssima infiltração seguida por cravada sobre dois (vídeo abaixo). Mais sobre a carga que carregou: foram dele 37 dos 97 arremessos. Dos 60 arremessos do restante do elenco, 30 saíram em chutes de três pontos, numa tática clara de espaçamento da quadra para o astro, com o ataque inteiro girando ao seu redor. E o aproveitamento dessa rapaziada foi excelente, matando 13 em 30 (43,3%).

22 – LBJ foi o primeiro jogador em 22 anos a bater a marca de 35 pontos, 15 rebotes e 10 assistências num confronto de playoff, desde Charles Barkley em 1993, pelo Phoenix Suns. Antes disso, apenas James Worthy havia conseguido essa marca, em 1988, pelo Los Angeles Lakers. Agora, se for falar em um mínimo de 37 pontos, 18 rebotes e 13 assistências, isso nunca havia acontecido antes.

18 – Com 18 rebotes, o astro superou, sozinho, os dois pivôs titulares em seis. Timofey Mozgov somou 5, enquanto Tristan Thompson coletou 7.

12 – Podemos computar já uma dúzia de triple-doubles para o camisa 23 do Cavs em playoffs, ocupando o segundo lugar na lista histórica nesse quesito, atrás apenas de um tal de Magic, que soma… 30. Jason Kidd, porém, ficou para trás, com 11.

6 – Foi o sexto jogo da carreira de LeBron em mata-matas com 30 pontos, 10 rebotes e 10 assistências. O líder para jogos deste nível é o legendário Oscar Robertson, com oito. Wilt Chamberlain e Barkley bateram a marca duas vezes. Se for para se ater apenas a jogos com 30 pontos, o craque chegou ao 75º, superando Jerry West e empatando com Abdul-Jabbar na terceira posição, atrás de Jordan (109) e Kobe (88).

3 – Ainda aconteceram três recordes pessoais para James, contando inclusive partidas pela temporada regular: número de arremessos tentados (os famigerados 37), número de arremessos dentro do garrafão (25) e rebotes ofensivos (8, muitos deles decorrentes dos erros iniciais no primeiro quarto).


JR Smith: da confusão ao encaixe para reforçar o Cavs
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Giancarlo Giampietro

E aí? Não é que deu certo?

E aí? Não é que deu certo?

O supertimes tendem a dar muito certo. O Boston Celtics de Pierce, Garnett e Allen precisou de apenas um training camp para se entender perfeitamente e caminhar para o título, o primeiro da franquia desde a era Larry Bird, após 22 anos. Em Miami, levou um pouco mais de tempo para LeBron e Wade se acertarem e terem na quadra o mesmo entrosamento da sala de estar, ou do jatinho privado, no caso. Karl Malone não conseguiu o anel com o Lakres, mas foi até a final ao lado de Shaq, Kobe e Payton, mesmo numa temporada 2003-04 espalhafatosa e acidentada.

Agora, no momento de construir uma equipe, o gerente geral X não vai obrigatoriamente buscar sempre os melhores componentes, o que há de melhor disponível no mercado. Existe, ou deveria existir uma preocupação com o encaixe dessas peças, tanto do ponto de vista esportivo, como na questão do convívio social. Não que todo elenco de NBA requeira uma aura fraternal. Família Kerr, Família McHale… Coisa mais cafona. Se tiver, porém, tanto melhor. Apenas espera-se que os jogadores tenham um mínimo de respeito mútuo para que o projeto possa ser levado adiante.

Tudo isso para chegar ao Jogo 1 da final da Conferência Leste, também já conhecido como O Jogo de JR Smith – assim como a sétima partida entre Clippers e Spurs pertence a Chris Paul. O que o ala ex-Knicks fez na quarta-feira foi para deixar qualquer observador maluco, independentemente de sua ocupação ou filiação. Torcedor, jogador, técnico, olheiro, dirigente, do Cavs ou do Hawks. Todos de queixo caídos, por diversas razões.

Fato 1: JR anotou 28 pontos, seu recorde pessoal nos mata-matas, sendo que 24 deles vieram em arremessos de três pontos. Seu aproveitamento ultrapassou o limite do absurdo, com oito conversões em 12 tentativas de longa distância.

Fato 2: JR converteu, então, 66,7% de seus arremessos de fora. O Cavs, excluindo seus números, ficou em 2-14 (14,3%). O Hawks chutou 4-23 (17,4%).

Fato 3: Dos 28 pontos de JR, 17 aconteceram entre a marca de 3min27s do terceiro período e a de 9min59s do quarto. Foram cinco disparos de três nesse intervalo, vencido por Cleveland por 22 a 4, para que uma vantagem de 85 a 67 fosse aberta no placar. O time da casa reagiria, mas o estrago foi grande demais.

Fato 4: Sabe quantos pontos os demais reservas de David Blatt fizeram? Nenhum. Zero. Nada.

Fato 5: As oito cestas de três do ala representam a segunda melhor marca de um jogador que tenha saído do banco em uma partida de playoff. Jason Terry encaçapou 9 pelo Mavs em 2011.

Foi uma exibição especial de um talento especial, que pode assombrar os adversários se empolgado. Ao mesmo tempo, talento cujo detentor também afugentou muitos dirigentes durante a temporada – e toda a sua carreira, na real. Vale a pena ler uma reportagem de Brian Windhorst no ESPN.com, na qual ele detalha como o Knicks estava desesperado para se livrar de Smith, até o Cleveland topar a empreitada. “Francamente, o Knicks estava tentando limpar seu contrato da folha salarial na próxima temporada, mas também queria afastá-lo do time. Reclamando sobre sua situação e o status decadente do Knicks, Smith não estava apenas falhando em produzir, mas também dando muito trabalho. Na verdde, o Knicks estava tentando encontrar um meio de se livrar deles há meses”, escreve.

Se o seu antigo time o estava tratando dessa forma, que tipo de problema ele poderia causar num vestiário que já andava um tanto turbulento? (Para não falar, claro, de todo o dossiê já público sobre sua prática avançada do lunatismo.) Foi o tipo de reflexão que o gerente geral David Griffin teve de fazer antes de levar o negócio adiante. A preocupação era tamanha que o cartola chegou a pedir autorização para o Knicks para conversar com o jogador antes de assinar qualquer coisa.

Para bater o martelo, teve cobertura. Sondou LeBron e Blatt e ouviu sim de ambos. O astro não só avalizou a troca, como também a incentivou. Disse que tomaria conta do reforço. O treinador também não se mostrou preocupado com a bagagem fora de quadra: se fosse pensar apenas no jogo, as habilidades de JR seriam perfeitas para um time que precisava de mais capacidade atlética no perímetro e mais arremesso. A combinação deu certo, como podemos notar, e nem mesmo a suspensão que sofreu por agressão a Jae Crowder foi recebida de forma negativa pelo clube. Windhorst relata: todos acharam o gancho de dois jogos exagerado, apoiando o ala. Provavelmente nenhum treinador tenha se empenhado tanto como Blatt vem fazendo, na hora de defendê-lo.

Xácomigo: LeBron disse que cuidaria de JR

Xácomigo: LeBron disse que cuidaria de JR

E aí veio essa atuação fantástica para o Cavs roubar o mando de quadra do Hawks na primeira partida para dar razão a todos. Cheio de confiança, Smith fez chover bolas de três em Atlanta, com alguns arremessos num grau de dificuldade altíssimo. Depois, figura que só, diria aos jornalistas presentes: “Prefiro tentarsempre um arremesso contestado a um chute livre. É meio entediante quando você arremessa livre”. E não é que os números comprovam sua preferência? O ala converte 48% nos chutes marcados, comparando com os 40% quando está isolado.

É praticamente impossível que ele consiga repetir esse tipo de desempenho, e nada perto disso pode ser cobrado, mesmo. Mas o fato é que o cestinha se sente respaldado e tem liberdade para atacar, botando pressão na defesa adversária e abrindo a quadra para LeBron fazer das suas, assim como havia acontecido na campanha 2012-13 pelo Knicks, com um sistema aberto de Mike Woodson ao redor de Carmelo. Um grande contraste com o sistema de triângulos, um ataque que propicia liberdade nos movimentos (as jogadas não são rabiscadas), mas pede muito paciência para esperar boas oportunidades de finalização. Esse alto astral, essa lua de mel muito provavelmente não vá durar ad eternum, pois a volatilidade de Smith beira o incontrolável. De qualquer forma, pelos resultados apresentados até aqui, a aposta já valeu.

O chuta-chuta parece até meio desmedido em algumas situações? Sim, tem hora que o Cavs exagera como um tudo. Por outro lado, pensem nos pivôs do time: Timofey Mozgov, Kevin Love (antes) e, principalmente, Tristan Thompson. Os três têm uma presença intimidadora perto da tabela. O canadense devora a tábua ofensiva com voracidade – contra o Hawks, foram cinco; na temporada e nos playoffs, coleta 14% das sobras. No ranking de times, apenas o Dallas Mavericks coleta mais rebotes no ataque nestes playoffs. Faz mais sentido, então, ter um chutador como JR nessa configuração. Você quer que ele acerte tudo, claro. No caso de erro, contudo, há quem esteja lá para tentar compensar. As características de cada atleta se interligam. A partir daí se forma a química em quadra. No vestiário, lideranças como LeBron e Perk entram em cena.

Iguodala num gesto em prol da química da melhor campanha da liga

Iguodala num gesto em prol da química da melhor campanha da liga

Esse tipo de situação se repete em diversos times que ainda estão no páreo, em diferentes níveis. Pegue o Houston Rockets, por exemplo, e sua rotação no perímetro. Patrick Beverley faz uma falta danada, mesmo que não seja exatamente um armador de ponta. Não sei nem mesmo se dá para enquadrá-lo como um “armador”, “armaaaaador”, mesmo. E talvez nem precise. Afinal, James Harden é o condutor do ataque, quem controla a bola, enquanto Beverley oferece chute de três do lado contrário e muita pegada defensiva. Os dois se complementam. Não que um jogador como Goran Dragic ou Kyle Lowry (ex-jogadores do clube, especulados nos últimos meses como possíveis alvos de Daryl Morey) não possa dar certo, mas qualquer um deles exigiria um bom ajuste tático e técnico por parte do segundo colocado na eleição de MVP desta temporada. Beverley, diga-se, foi contratado antes mesmo de Harden, mas se tornou uma companhia perfeita. Agora vai virar agente livre. Em Houston, sua importância é amplificada. Sem um ala-armador como Sr. Barba ao seu lado, será que renderia com a mesma eficiência ou relevância?

Em Oakland, Andre Iguodala foi convencido por Steve Kerr a sair do banco de reservas. Não quer dizer que hoje seja um jogador inferior a Harrison Barnes. Entrando com a segunda unidade, porém, ao lado de Shaun Livingston, pode apertar a defesa e sufocar adversários, em teoria, inferiores, além de partilhar a bola e fazer o ataque fluir. Por outro lado, o envolvimento de Barnes com os titulares elevou sua produção. O jovem dá mais amostras de seu potencial. Agora, como seriam as coisas sem a companhia de chutadores como Curry e Klay ao seu lado? É mais fácil jogar como a terceira, quarta opção em quadra do que como a referência, o foco da segunda unidade, né? Como nos tempos de Mark Jackson.

O Atlanta Hawks como um todo talvez seja o maior exemplo disso, no qual o todo se tornou indiscutivelmente maior que a soma de suas partes – temos um supertime moldado de outra forma, sem superestrelas, mas com um nível acentuado de entrosamento e preparação. Essas são questões que qualquer torcedor deveria fazer antes de cobrar, comentar ou vibrar com qualquer contratação. Nem sempre o talento individual deve prevalecer. No caso de JR Smith, a verdade é que os recursos individuais nunca foram um problema. Difícil era enquadrá-lo. Ou melhor: encaixá-lo.


Nos playoffs, não são apenas os superastros que brilham
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Giancarlo Giampietro

Matthew Dellavedova, aprovado por LeBron

Matthew Dellavedova, aprovado por LeBron

LeBron James, Derrick Rose, Stephen Curry, Blake Griffin, Chris Paul, Anthony Davis, Paul Pierce… É natural que, chegando os playoffs, o noticiário se concentre mais e mais nas grandes figuras da liga, aqueles que tendem a resolver a parada por suas equipes, naqueles momentos mais complicados. Os caras dos números arrebatadores, das bolas no estouro do cronômetro.

Na vitória do Cleveland Cavaliers sobre o Chicago Bulls nesta terça, para o Cavs abrir 3 a 2 na série, um lance que chamou muito a atenção foi este belíssimo toco de LeBron para cima de Rose, quando o armador tentava empatar o placar e completar uma reação assustadora dos visitantes no quarto período. Não só é um lance bastante plástico, como envolve duas estrelas:

Nesses lances de transição defensiva que tanto adora, LBJ foi lá no alto e deu a raquetada. Em slow, fica ainda mais bacana. Com a arrancada do armador e voo do bloqueador, é muito fácil ignorar o trabalho sutil de Matthew Dellavedova na jogada. O australiano, duro na queda, não se intimidou em ver o camisa 1 partindo em sua direção, a 100 por hora. Pelo contrário. Guardou posição e, no último momento, ainda se deslocou milimetricamente para a direita para forçar um ângulo  mais complicado no arremesso.  Desta forma, também retardou o movimento de Rose, permitindo a chegada de seu companheiro para a cobertura. Pimba.

São os pequenos detalhes igualmente relevantes num confronto tão equilibrado como esse, que tem toda a cara de sete jogos – isso, claro, desde que, em meio a tantas lesões, os dois times consigam listar o mínimo de jogadores exigido pela liga. Dellavedova, aliás, fez uma bela partida, que faz justiça ao papel que desempenhou durante o campeonato. Ele não vai produzir estatísticas, fazer cestas mirabolantes, mas o torcedor do Cavs e, principalmente, David Blatt sabe que pode contar com o australiano para o que der e vier.

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Não, não dá para esperar que ele vá fazer tuuuudo. Aquele tiro de três de LeBron, espremido na zona morta, com o Jimmy Butler vindo em sua direção? Melhor esquecer. Dificilmente o “Delly” refugaria na situação. Mas uma coisa é ter força de vontade, outra é a capacidade atlética e técnica para executar a jogada. Por outro  lado, se precisar que ele marque, ou torre a paciência de alguém, vai estar lá. A briga por um rebote ofensivo aparentemente perdido? Conte com essa também, mesmo que ele mal alcance no aro e que não seja nem o sétimo atleta mais veloz em quadra. Simplesmente encara. Alguém disposto a movimentar a bola ou para ficar de canto, sem reclamar se está tendo oportunidades que seu agente esperava? Mas, claro!

Durante a primeira metade caótica que foi a temporada do Cavs, Dellavedova foi importante justamente por isso, por sua entrega constante, ainda que seu rendimento estatístico em geral tenha sido inferior ao de sua campanha de novato. Foi alguém em quem tanto o contestado Blatt como o arredio LeBron poderiam confiar. Mesmo nesses mata-matas, em que seu aproveitamento de três pontos caiu de 40,7% para 36,5%, você vai ver em diversas ocasiões o Rei de Akron acionar o australiano em transição para um disparo de fora.

Contra o Bulls, obviamente não foi sua semi-interceptação de Rose que ganhou atenção.

Mas, sim, esse enrola-enrola com Taj Gibson, que resultou na exclusão do ala-pivô. Não dá para elogiar sua atuação nesse lance específico: um jogador de basquete presumidamente não precisa dar uma chave de perna no adversário. Ainda mais quando a bola já caiu na cesta. Por outro lado, rapaziada, são os mata-matas, né? Ou melhor: os playoffs. Os caras já se enfrentaram cinco vezes em menos de duas semanas. Essas coisas vão acontecer cedo ou tarde. Falou ao trio de arbitragem a perspicácia para também dar uma técnica no armador reserva do Cavs, ao passo que, se num primeiro momento a reação de Gibson parece indicar a exclusão como a melhor decisão, podendo rever o lance em quadra poderiam muito bem ter levado em consideração o fator “reação”. Enfim. Em sua estreia na fase decisiva, Dellavedova foi mais malandro que um veterano. “Delly é provavelmente o cara mais durão de nosso time”, comentou LeBron.

Pensando nesse, veja bem, valentão operário valente, que tal fugirmos um pouco da regra e listarmos, então, outros personagens periféricos das semifinais de conferência? Um exercício que o leitor corajoso de longa data do blog sabe ser recorrente por aqui. Não dá para escapar dele:

Mike Dunleavy Jr., Chicago Bulls: sim, pois o Jimmy Butler não conta. O ala já virou uma estrela e vai ser muito bem pago ao final do campeonato. Minha única preocupação com esse faz-tudo é a sua saúde. Ver Noah e Gibson se arrastando contra o Cavs traz ecos de Luol Deng para a quadra, e resta saber apenas como Butler estará daqui a quatro anos, mesmo que Thibs seja dispensado. Talvez boa parte do estrago já esteja feito. De todo modo, voltemos a Dunleavy, o ala que entrou na liga em 2002, também conhecido como o Draft de Yao, Amar’e e Nenê. Foi a terceira escolha, vindo de Duke já como campeão universitário e muita expectativa. Foi mais uma ser comparado a Larry Bird – hoje isso não está tão em moda, mas há 10, 15 anos qualquer ala branco minimamente talentoso que despontava nos Estados Unidos ouvia essa comparação. Obviamente o cara não chegou nem perto disso. Muitos questionam uma suposta falta de ambição e esperavam mais, se não, hã, top 10 da história, mas pelo menos algo mais consistente com os números que teve por Indiana em 2007-08 (19,1 pontos, 5,2 rebotes e 3,5 assistências, 42,4% de três pontos).

Dunleavy, discreto, eficiente e importante

Dunleavy, discreto, eficiente e importante

Pode ter frustrado alguns, mas é inegável que tenha talento: basta desviar os olhos de Rose e das caretas de Noah por alguns instantes e observá-lo em ação, mesmo aos 34 anos. No ataque, ele chuta que é uma beleza, se movimenta de modo muito inteligente pela quadra, é um excelente passador. Falta o arranque para a cesta, coisa que nunca fez parte de seu repertório, nem mesmo no auge. Ele não vai ser um cara para carregar um ataque, mas seu pacote de habilidades ofensivas é extremamente importante, para espaçar a quadra para as infiltrações de Rose e Butler, ainda mais quando a dupla de pivôs é Noah e Gibson, sem chute nenhum. “É uma das razões para eu ter vindo para cá: apenas fazer parte de um grupo que vença muitos jogos. Não ligo para o resto. Gosto de me apresentar, fazer meu trabalho e ir para a casa”, afirma o ala. Thibs adora: “Ele é o profissional exemplar. Joga para o time. É simplesmente um jogador de basquete. Tem horas que você apenas precisa mexer a bola de um lado para o outro. Ele vai lá e faz. Não se reflete em assistências, mas ele te dá movimento.”

Otto Porter Jr., Washington Wizards. Nenê é um candidato eterno nessa categoria, enquanto sua carreira durar. Mas vamos virar o disco aqui, pegando alguém que ainda pode ser considerado um lançamento no mercado. Porter teve apenas 319 minutos de jogo em sua primeira temporada, o que não dá nem 7 jogos inteiros. Nos playoffs, então, foram apenas seis minutinhos. Espirrava em quadra e saía. Um ano depois, porém, as coisas estão mudando: em oito jogos pela fase decisiva, ele já recebeu 263 minutos de jogo (43 vezes mais). Não se trata de caridade do técnico Randy Wittman.  Ainda que possa dar aquela viajada em quadra, o ala aos poucos se integrou ao time, dando enfim provas do basquete que fez dele também uma terceira escolha de Draft (num recrutamento bem fraco, é verdade).  Quando o selecionou, o gerente geral Ernie Grunfeld não tinha em mente um futuro craque, mas um complemento para seus jovens destaques. Como se fosse um Tayshaun Prince para Chauncey Billups e Rip Hamilton. Demorou um pouco, mas está acontecendo.

“Sua presença no rebote, seu arremesso… Isso é o seu crescimento. Sabíamos do que ele era capaz quando o selecionamos. Ele cresce a cada vez que vai para a quadra agora”, afirma Beal. Num elenco abarrotado de veteranos, Porter oferece a mais companhia na hora de acelerar, abrindo para o tiro de três pontos, ou cortando com sua passada larga rumo ao aro. Perto da tabela sua influência cresce, devido aos braços compridos e sua energia. Características agora bem empregadas do outro lado da quadra, algo com que DeMar DeRozan certamente não contava. Além disso, seu crescimento permite que Paul Pierce jogue mais minutos como  um ala-pivô aberto e também poupa o veterano de correr atrás alas mais rápidos pelo perímetro.

Dennis Schröder, Atlanta Hawks. DeMarre Carroll ainda é bizarramente o cestinha da equipe nos playoffs. Então acaba tendo sua candidatura impugnada dessa vez, e também já passamos por sua trajetória singular aqui. Legal, pois aí sobra espaço para falar sobre um reserva que vai subindo com determinação a escadaria dos queridinhos do blog. Pode chamá-lo até de Schrödinho, que tudo bem. O armador foi vital em diversas vitórias do Hawks na temporada regular, e ainda assim tem gente que pode achar que é uma “surpresa” o que ele fez nos últimos dois jogos em Washington. É que os rapazes de Mike Budenholzer venceram tantas partidas, mesmo, no campeonato, que se corre o risco, sim, de que uma ou outra contribuição fique para trás. O sucesso fica diluído.

Sem John Wall, o Wizards perdeu não só o seu principal organizador como também uma presença física imponente na marcação. Ao lado de Jeff Teague, o alemão vai se esbaldando. Ramon Sessions e Will Bynum não conseguem acompanhá-lo. Seu perfil é diferente dos demais listados. Estamos falando de um cestinha agressivo. Quando consegue forçar a troca após o corta-luz, fica mais fácil ainda, dando voltas em torno de Marcin Gortat, Paul Pierce e mesmo de um pivô ágil como Nenê. “Fico dizendo para o Jeff: ‘Continue atacando’. E ele me diz a mesma coisa. Era uma motivação para nós. Vamos para a cesta, que eles não conseguem nos parar”, diz o armador que, vejam só, numa projeção por 36 minutos, aparece como o principal pontuador do time, com 20,1 por jogo, além das 7,8 assistências. Teague precisou esperar um tempinho até assumir o posto de titular em Atlanta. Para mim, é questão de tempo para Schrödinho ganhar o mesmo status. Mesmo que em outro clube.

Tony Allen, Memphis Grizzlies. Hã… Quer dizer… Periférico?! Por dois jogos esse sujeito tirou os Splash Brothers da linha, desarmando o ala do Golden State Warriors. Estrelou vines e clipes do YouTube sem parar ao invadir uma roda de dança das criancinhas em Oakland, desarmar Klay Thompson na maior, dizer que Curry é bonitinho, e tal, mas que não é nada que não tenha visto antes e lançado sua campanha fervorosa para o “Primeiro Time de Defesa” do Conselho de Segurança e…  Precisa de mais?

Já foi, Klay

Já foi, Klay #1stTeamAllDefense

Mas, sim, periférico. Nas vitórias do Grizzlies, Mike Conley foi o protagonista, e pudera. O sujeito mal abre o olho esquerdo direito. Acabou de passar por uma cirurgia facial, por conta de múltiplas fraturas, e ainda está disposto a encarar um Andrew Bogut e um Draymond Green lá embaixo. Eu, hein? No ataque, Gasol e Z-Bo também carregam a pecha de dupla que joga na contramão da liga, lá embaixo, com se fossem os anos 80, 90. O armador e os homens de garrafão, além do mais, jogam dos dois lados da quadra. Allen causa um impacto enorme na defesa – e sua ausência no Jogo 4, com surra do Warriors, evidenciou isso –, mas suas deficiências ofensivas foram novamente expostas por Steve Kerr no Jogo 4 contra o Warriors. Seguindo tática empregada por Gregg Popovich no ataque, o técnico ordenou que seus atletas não se incomodassem que o ala ficasse livre no perímetro. Livre, mesmo, para arremessar enquanto bem entendesse. Se consultarmos o aproveitamento de arremessos em sua carreira, faz sentido. Nos playoffs, tem acertado apenas 33,3% dos arremessos de média distância e 10% de fora.


Cavs desfalcado pede ajuda aos amigos de LeBron
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Giancarlo Giampietro

Visão de dirigente de LeBron vai ser testada

Visão de dirigente de LeBron vai ser testada

LeBron James tinha um plano, desde o início. Se era virar as costas para um Dwyane Wade em frangalhos, para os arremessos de Chris Bosh e uma liderança como Pat Riley, que fosse para um clube em que pudesse dar as cartas – se não todas elas, mas grande parte do baralho. Se pudesse ser em casa, quanto melhor.

Quando o Rei decide retomar suas raízes, nem toda a ingenuidade de Cleveland vai poder confiar que fosse por mero sentimentalismo e apego a crenças locais. Isso pode até ter influenciado em todo o processo, mas um cara tão inteligente e ambicioso como LeBron não vai seguir um rumo porque o coração mandou. Assim como faz em quadra, sua versão homem de negócios avalia tudo o que está ao seu redor nos mínimos detalhes antes de tomar qualquer, na falta de melhor termo, decisão.

A maior prova disso é sua própria carta publicada na Sports Illustrated, comunicando ao povo de South Beach que estava retornando com os seus talentos para Ohio. Lá, deixou claro que Andrew Wiggins e Anthony Bennett não faziam parte de seus planos, abrindo caminho para a negociação por Kevin Love. O ala exigia um sacrifício do futuro por parte da franquia para instaurar seu reinado imediato. Sabemos o que aconteceu.

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Pois agora Kevin Love está fora de ação. Oficialmente, no caso – uma vez que não possamos dizer que o ala-pivô estava 100% presente de corpo e alma durante uma temporada cheia de pequenos incidentes que, quando agrupados, pintavam um cenário no qual sua saída de Cleveland, como agente livre, era realmente possível. Ninguém sabe ao certo mais depois da cirurgia no ombro esquerdo que vai tirá-lo das quadras por até seis meses.

O que sabemos é que, sem Love, LeBron e todos os seus chapinhas vão ter de realmente jogar muito para combater o Chicago Bulls nas semifinais do Leste. Talvez seja injusto com David Griffin, o gerente geral que merece o prêmio de Executivo do Ano pelo simples fato de ter tornado possível a volta do superastro e ainda realizou duas excelentes trocas em meio a um momento de crise. Mas é notório que algumas contratações do Cavs foram, digamos, sugeridas por James.

Espera-se alguma coisa, qualquer coisa da dupla acima

Espera-se alguma coisa, qualquer coisa da dupla acima. Ambos com 34 anos

Sim, estamos falando de Mike Miller e James Jones, além de, em menor escala, Shawn Marion – que não é dos amigos íntimos, nem nada disso, mas foi recrutado pessoalmente pelo craque. Ainda mais com JR Smith suspenso das duas primeiras partidas em Cleveland, esses veteranos precisam dar alguma contribuição para o Cavs. Mesmo que David Blatt opte por usar Timofey Mozgov e Tristan Thompson ao mesmo tempo e por longos minutos. Mesmo com minutos elevados para LeBron e Irving, que já tiveram, respectivamente, 43,0 e 40,5 minutos contra o Boston Celtics. Love e Smith acumularam mais de 53 minutos em média, que precisam ser absorvidos por alguém.

“A margem de erro contra o Celtics era tamanha que eles poderiam jogar num nível C, que tudo bem. Mas agora essa margem diminuiu consideravelmente. Contra o Bulls, não vai dar nem mais o B”, afirmou o jornalista Brian Windhorst, do ESPN.com, em podcast com Bill Simmons, editor-chefe do Grantland. Windhorst não está mais 100% dedicado ao dia a dia do Cavs, mas é um dos repórteres mais bem conectados dentro da franquia – e também com o círculo mais íntimo de LeBron. Acompanha o ala desde sua adolescência.

Windhorst depois mencionou a necessidade de pelo menos um integrante desse trio parada dura jogar bem em jogos isolados. Tipo: se Jones for bem na primeira partida, Marion, na segunda e Miller, na terceira. Para darem mais opções a David Blatt. Do contrário, as coisas podem se complicar. O técnico também adiciona Kendrick Perkins a essa lista. “Caras que estão no banco e não estavam jogando muito, com Shawn, Mike e Perk, precisam obviamente estar prontos para jogar mais minutos, e sei que eles vão fazer isso por serem profissionais e terem experiência e por terem estado em situações vitoriosas antes”, afirmou.

De fato, são todos trintões com muita bagagem e histórias para contar e que já foram campeões em diferentes momentos de suas carreiras. Estão habituados a momentos de pressão. Blatt (e LeBron) têm de se apegar a esse conceito, mesmo, para contar com os veteranos. Já que, em termos de atividade em quadra, a produção foi praticamente nula durante a temporada.

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Mesmo no caso de uma projeção estatística por 36 minutos, as coisas não melhoram muito. Na maior parte do tempo, os quatro jogaram mais como aposentados do que como peças importantes num time de playoff. Para não falar das dificuldades de Jones e Miller na defesa e as trapalhadas de Perk no ataque, cometendo turnovers sem parar (32,1% das posses de bola na qual foi envolvido). Contra o Celtics, Miller não teve um minuto sequer de ação, enquanto Marion e Perk somaram sete. Jones foi o único que jogou regularmente, com 46 minutos em quatro partidas, acertando apenas 2 de 11 arremessos de três (a especialidade de sua carreira).

Não que seus contratos tenham sido completamente equivocados. Faz bem uma presença reconfortante no vestiário, ainda mais no caso do Cavs, que seria o time mais visado/badalado/atacado/pressionado do campeonato. Não é por acaso que, ao checar o plantel do hegemônico Chicago Bulls de Phil Jackson (e Jerry Krause…), vamos encontrar verdadeiros anciões como James Edwards em 1996, aos 40, acompanhado por John Salley e Jack Haley, e Robert Parish em 97, aos 43. Mas nenhum desses pivôs velhacos teria um papel relevante em quadra. Bem diferente do que se espera em Cleveland agora.

Bicampeão com Miami e um dos melhores amigos de LBJ, James Jones está confiante. Ou mais ou menos confiante: “Uma parte essencial de nosso time foi subtraída, mas acho que temos o suficiente e nós sabemos que temos o suficiente. Então vamos jogar, competir. No final do dia, é questão de dar nosso melhor e esperar que esse melhor seja o bastante”, diz o ala

Essa incerteza gera um suspense tático para lá de intrigante – e deve até mesmo dificultar a vida dos técnicos de Chicago em um primeiro momento. Na hora de preparar o scout da série, eles vão precisar se ater com cuidado aos reduzidos minutos em que Kevin Love – e Smith – estavam no banco e tentar tirar conclusões a partir daí.

Mike Miller teve algumas grandes partidas pelo Miami e pelo Memphis nos playoffs. Conseguirá replicá-las?

Mike Miller teve algumas grandes partidas pelo Miami e pelo Memphis nos playoffs. Conseguirá replicá-las?

(Um parêntese: a contraposição dos talentos gera duelos individuais extremamente interessantes. São todas variáveis que corre-se o risco de ficar muito confuso. Tanto aqui no texto como nas pranchetinhas mágicas. Kyrie Irving x Derrick Rose: quem vai pontuar mais e permitir mais/menos pontos também? Iman Shumpert x Jimmy Butler: foi o ala com o qual LeBron comparou Shump no momento da troca, mas o emergente astro do Bulls é muito mais completo – e forte. Mozgov x Gasol: o russo vai tentar brecar o espanhol, mas tomando o máximo de cuidado com faltas. Thompson x Gibson: o canadense saltitante, cheio de energia contra um combalido e valente ala-pivô. Miller/Jones x Dunleavy Jr.: a corrida dos veteranos. Por aí vamos.)

O que pega é que Chicago também tem seus problemas. Joakim Noah está se arrastando pela quadra, e não é que Taj Gibson esteja correndo muito mais. Nikola Mirotic também se contundiu contra o Milwaukee Bucks, para não falar de todo o drama em torno de qualquer queda de Derrick Rose. A despeito da lavada que sofreu no Jogo 6, o Milwaukee Bucks deu muito trabalho.

Como Zach Lowe destaca em sua análise sempre minuciosa, Jason Kidd não teve problema Noah com jogadores menores, uma vez que o pivô não representava nenhuma ameaça. Marion, mesmo dois ou três passos mais lento que os tempos de Matrix, não teria problema com ele e ainda poderia atrapalhar Butler. Será que Jones e Miller também dariam conta? Talvez não seja necessário usar Thompson e Mozgov, uma dupla atleticamente opressora, ma que pode atrapalhar o ataque, em termos de espaçamento. A não ser que Mozgov acerte seus chutes de dois de longe com muita eficiência. Ainda assim, a quadra estará mais apertada para as infiltrações de LeBron e Irving. “Vamos ter de manter nosso ataque espaçado porque é dessa forma que jogamos”, diz Blatt. “Claro que sem os dois na escalação, algumas mudanças precisarão ser feitas. Mas tivemos muito sucesso neste campeonato e não queremos nos afastar tanto das coisas que deram certo.”

Se Miller e Jones ao menos estiverem acertando seus arremessos, a solução mais prática e recomendável talvez seja colocar LeBron como o ala-pivô efetivo do time, algo que ele fez com maestria em Miami, e apostar no small ball. Usar a flexibilidade que uma aberração atlética como o camisa 23 proporciona. O problema é que, dentre as muitas razões para seu retorno a Cleveland, ter Kevin Love ao seu lado no quinteto inicial era muito atraente justamente para afastá-lo da cesta. “LeBron odeia defender no garrafão, ter de batalhar ali. Para ele, é OK jogar ali no ataque de vez em quando, mas odeia marcar na posição 4”, diz Windhorst.

Por essas e outras que a mera cogitação de LeBron para o prêmio de MVP não parece nem um pouco justa com os outros candidatos. Afinal, estamos falando de um jogador que deliberadamente se esquivou de algumas responsabilidades. O mesmo cara que tirou duas semanas de folga durante a temporada para aliviar o estresse sobre a mente e o corpo. Que falou abertamente sobre como, em algumas partidas, estava no modo “relaxa e goza”.

Contra Chicago, ele sabe que não vai poder se comportar assim – vai precisar se desdobrar, alternando entre Gibson, Noah, Mirotic e, provavelmente, Butler, no caso de o ala estiver massacrando Shumpert ou Smith (quando este retornar). Haja fôlego e resistência.

Mesmo que o Bulls também esteja avariado fisicamente, é um time muito mais forte e calejado que o Boston Celtics. Com um número maior de opções que as da final de conferência de 2011 que o Miami derrubou, mas com um mesmo núcleo sedento por seu primeiro título. Thibs, Noah, Gibson e, principalmente, Rose vão brigar enquanto puderem.

Aí que LeBron vai ter de se expor de acordo com o que sua equipe precisar e o adversário pedir. Se houve um motivo para ele curtir a primeira metade do campeonato, era para poder se desdobrar nos playoffs, algo que a primeira rodada. “Obviamente, Kevin traz muito para o nosso time. É uma grande perda para nós. Ninguém vai conseguir assumir sua função – ele é especial por um motivo. Mas alguns dos nossos caras vão ter de se levantar e fazer mais. Precisamos disso, ainda mais com o JR fora”, afirmou James. Que, dessa vez, não vai ser testado apenas como craque, mas também como dirigente. E amigo.


Plantão médico: lista de enfermos é ameaça séria nos playoffs da NBA
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Giancarlo Giampietro

Varejão foi uma das primeiras baixas bastante relevantes da temporada

Varejão foi uma das primeiras baixas bastante relevantes da temporada

Quer uma tradição impregnada nos Playoffs da NBA? Daquelas mais desagradáveis e, ao mesmo tempo, mais importantes para a definição de um título? Que pode ter tanta influência no resultado final de um campeonato como toda a preparação, todo o refinamento tático obtido em uma looooonga temporada? A contagem de feridos. As lesões, mesmo.

E aí que você pode falar também de sorte ou azar, ainda que o trabalho de um técnico e seu estafe médico possam ajudar na prevenção delas…

Mas pegue por exemplo o caso de Tiago Splitter. O pivô foi para as finais da liga por dois anos seguidos. Pode ter dito não a Rubén Magnano em 2013, mas aceitou nova convocação no ano passado, para a Copa do Mundo. Não dá para saber o quanto a carga extra de treinos e jogos, num mês que seria de férias, deixa o atleta em uma situação mais propícia para sentir algo. O que dá para dizer, imagino, é que ajudar, não ajuda, e que o catarinense não conseguiu fazer a pré-temporada ideal, perdeu quase 20 jogos no início da campanha e demorou um tempo para entrar em forma, lidando com problemas musculares na panturrilha (uma área sempre complicada). Sem pressa, com um elenco vasto, o clube texano teve toda a precaução do mundo com ele, como de praxe. Sabemos como Gregg Popovich é extremamente consciente no uso de seus atletas. Mesmo assim, Splitter teve o azar de, a duas semanas dos mata-matas, voltar a sentir dores bem incômodas.

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(Um parêntese importante: não estou dizendo que ele não deveria ter jogado o Mundial. O pivô muito provavelmente ficaria bem irritado só com a mera insinuação, por ser daqueles que só abriu mão da seleção uma única vez, e num torneio que, convenhamos, sua presença era totalmente desnecessária. Só faço a lembrança aqui para percebermos como esse tipo de questão é muito mais complexa do que ser patriota ou fugir da raia – e de como diversos fatores interferem na caminhada de um time de NBA. Do ponto de vista do torcedor brasileiro, tudo ótimo. Agora vá perguntar para os admiradores do Spurs o que eles pensam a respeito.)

Splitter não chega inteiro para o mata-mata contra Jordan

Splitter não chega inteiro para o mata-mata contra Jordan

Por mais formidável que seja o plantel de Pop e RC Buford, talvez o mais vasto da liga, que Aron Baynes tenha comprovado suas virtudes em sua melhor temporada nos Estados Unidos (joga duro demais, bom finalizador, mas um tanto robótico, nada criativo) e que Boris Diaw tenha redescoberto em março a alegria de se jogar basquete, já deu para reparar a importância do pivô na equipe, não? Com Splitter em quadra, a defesa fica bem mais sólida, aumentando a densidade demográfica no garrafão. Algo importante para enfrentar Blake Griffin e DeAndre Jordan, por exemplo. O ataque também funciona com ele, mas sua efetividade vai depender do sistema do adversário. De qualquer forma, pergunte ao seu técnico sobre sua importância. “Gostaríamos jogar com ele o máximo que pudéssemos”, disse antes de a série contra o Clippers começar. “Mas vamos ver.”

Neste domingo, no plantão corujão, pudemos ver, então, o brasileiro em ação, pela primeira vez desde o dia 3 de abril, numa vitória arrasadora contra o Denver Nuggets, quando o Spurs dava indícios de que havia novamente potencializado toda a sua fantástica química em quadra. Com uma escalação decidida apenas no domingo mais cedo, Tiago teve seu tempo controlado: jogou por exatos 9min57s de jogo, terminando com 4 pontos, 3 rebotes e 3 faltas, além de uma assistência e um roubo de bola. Foi máximo que Popovich pôde usá-lo. Afinal, ele só havia feito um treino, e com participação limitada, em 16 dias.

Baynes atuou por 20 minutos. Diaw, por 28. Tim Duncan ficou com sua tradicional meia hora de partida. Quando o veterano foi para o banco, a equipe sentiu. Ali poderia estar Splitter tentando ao menos incomodar uma figura assustadora como DeAndre Jordan – só Andre Drummond tem hoje essa combinação de altura, envergadura, impulsão e ombros largos. Jordan descansou por menos de dez minutos. Blake, por menos de seis. Estavam quase sempre em quadra, sendo muito agressivos, combinando para 35 pontos, 26 rebotes, 7 tocos e 7 assistências. Clippers 1 a 0, com 15 pontos de vantagem.

O torcedor do Spurs, porém, não é o único a se lamentar. Longe disso. Basta pegar o celular e trocar mensagens com a galera do Trail Blazers para sentir o drama. O departamento de infográfico de qualquer emissora de TV precisa estar muito atento nos jogos entre Portland e Memphis. A lista de enfermos é gigante, sempre com o risco de se adicionar mais um – ou de ter atualizar o status deles. Na série Rockets x Mavericks, teve atleta que precisou até mesmo calçar um tênis de numeração maior que a sua para devido a um inchaço no dedão.

E aí? Não há como negar que a temporada de 82 jogos causa um desgaste absurdo. Por mais que os atletas viagem em voos fretados, com acentos personalizados. Por mais que possam pagar um estafe médico e de preparação física por conta própria. Há um limite que o corpo pode aguentar. Dia desses, Rafael Uehara, que já deu sua contribuição valiosa aqui no VinteUm, destacou no Twitter uma passagem interessante no livro Soccernomics, sobre como o excesso de jogos do futebol inglês impede que a seleção do país faça boas campanhas em seus torneios. É uma declaração de Daniele Tognaccini, chefe do departamento atlético do Milan Lab, explicando o que acontece quando um jogador de futebol tem de disputar 60 partidas em um ano: ‘O nível de performance não é otimizado. O risco de lesão é muito alto. Podemos dizer que o risco de lesão em um jogo, depois de uma semana de treino, é de 10%. Se você joga a cada dois dias, o risco cresce para 30 a 40%. Se você joga quatro ou cinco partidas seguidas sem a recuperação certa, o risco de lesão é incrível. A probabilidade de você ter uma performance abaixo de sua capacidade é muito alta”.

Um gráfico que The OC Register preparou na temporada passada para mostrar todas as lesões que Kobe havia sofrido em sua carreira até então

Um gráfico que The OC Register preparou na temporada passada para mostrar todas as lesões que Kobe havia sofrido em sua carreira até então

Agora tente traduzir essa declaração para o mundo da NBA. O jogo de futebol pode ter maior duração (90 minutos x 48), mas vá falar para um ala do basquete ficar encostado na ponta direita da quadra, na sombra, esperando que seus quatro companheiros protejam a cesta do outro lado… Quer dizer: é difícil de dimensionar quais os cálculos que Tognaccini faria. O comissário Adam Silver sabe disso. Tanto que, em sua coletiva após a última reunião com os proprietários de clubes, afirmou que há uma preocupação (enfim!) séria em reduzir os famigerados back-to-back (dois jogos em duas noites consecutivas) e as semanas de quatro partidas em cinco dias.

Pensando nisso, segue a relação dos lesionados. Ou, pelo menos: dos atletas oficialmente lesionados. Aqueles que os clubes se sentem obrigados a informar. Inúmeras ocorrências não vêm a público, como Serge Ibaka nos explicaem uma entrevista bem bacana ao HoopsHype: “Veja, há muitas pessoas, torcedores e aqueles não estão dentro do time, que não sabem o que se passa. Você ouve gente falando que tal cara não está jogando bem. Mas eles não sabem o que está acontecendo. Posso dizer a você o que aconteceu comigo, por exemplo. Meu tornozelo estava doendo a temporada inteira. As costas também. Não é que eu tenha me lesionado apenas no final, que é o que todo mundo sabe. Eu machuquei meu tornozelo jogando com a seleção (espanhola, na Copa do Mundo…) durante o verão, e ele ficou ruim o tempo todo. Tive de tomar pílulas para poder jogar sem dor. Não sou só eu. Muitos dos meus companheiros passaram pelo mesmo problema”.

Também juntei aqui um ou outro caso de atletas que acusaram problemas em quadra ou em entrevistas, ainda que não tenham sido afastados. Sim, a temporada é desgastante demais, e suas consequências podem ser graves:

Atlanta Hawks
Thabo Sefolosha: o ala suíço está fora da temporada devido a uma fratura na perna causada por ação de policiais em uma casa noturna nova-iorquina – sim, essa não teve nada a ver com a quadra. A diretora executiva do sindicato dos jogadores, Michele Roberts, está em cima do caso, cheia de suspeitas. Sem o suíço, Kent Bazemore vai receber minutos importantes numa equipe de playoff pela primeira vez, com a missão de sustentar uma forte defesa no perímetro quando DeMarre Carroll for para o banco. Sefolosha era o nome ideal para a função.

Al Horford e um dedinho

Al Horford e um dedinho

Paul Millsap: jogando com uma camisa que faz compressão, além de uma proteção no ombro direito, depois de sofrer uma torção em jogo contra o Brooklyn Nets, na reta final da temporada. Mike Budenholzer ao menos respirou aliviado, por não ser algo mais grave. De qualquer modo, para um ala-pivô, não é nada legal jogar com o ombro dolorido. Pense nos movimentos que ele precisa executar em quadra.

Mike Scott: o ala perdeu 11 jogos em março devido a uma bipartição e uma torção aguda no osso sesamóide do pé direito. Não, não foi uma fratura. Voltou em abril e sentiu uma contusão nas costas, perdendo treinamentos e mais uma partida.

Al Horford: essa aconteceu na primeira partida da série contra o Nets, mesmo. Coisa de jogo, com o dedinho da mão direita virando para o lado contrário. Não houve fratura, só um deslocamento.

Boston Celtics
– A rotação vasta de Brad Stevens parece render benefícios: seus atletas simplesmente não constam no prontuário médico recente da liga.

Brooklyn Nets
Bem… Deron Williams e Joe Johnson parecem jogar machucados o tempo todo, não?

Mirza Teletovic: considerando a gravidade de sua questão médica, ao ser afastado por conta de uma embolia pulmonar, ter o bósnio de volta aos treinos é uma excelente notícia, na verdade. Mas ele ainda não está liberado para jogar. Já o ala Sergey Karasev está fora de vez, com uma lesão no joelho.

Mirza Teletovic: recuperado de embolia pulmonar

Mirza Teletovic: recuperado de embolia pulmonar

Alan Anderson: o ala-armador reserva perdeu sete partidas em abril devido a uma torção de tornozelo.

Chicago Bulls
Derrick Rose, vocês lembram, passou por mais uma cirurgia no joelho, dessa vez por causa de uma ruptura no menisco, e perdeu 20 partidas entre março e abril. Na primeira partida da série contra o Bucks, jogou demais, e era como se a torcida de Chicago vivesse um sonho. Rose pode ser uma influência para lá de positiva para a equipe. Só é preciso evitar a armadilha de pôr muita responsabilidade nas costas de um atleta que sofreu tanto nas últimas temporadas.

Kirk Hinrich sofreu uma hiperextensão no seu joelho esquerdo na última semana do calendário regular. Há quem despreze tanto o veterano (um cara ainda muito útil na defesa), que essa ausência pode ser até comemorada.

Taj Gibson sofreu um estiramento no joelho direito no primeiro duelo com o Bucks. Por sorte, Nikola Mirotic está pronto para receber mais e mais minutos, no caso de o excepcional defensor estiver abalado.

Joakim Noah, para variar, joga com uma tendinite no joelho esquerdo.

Chicago: adoração e apreensão pela dupla

Chicago: adoração e apreensão pela dupla

Cleveland Cavaliers
– Anderson Varejão
só poderá torcer por seus companheiros, em recuperação de uma cirurgia para reparar o tendão de Aquiles.

Kevin Love (principalmente) e LeBron James foram poupados de treinos e jogos durante todo o campeonato devido a dores nas costas.

Dallas Mavericks
– Chandler Parsons está com uma joelheira direita mais larga que a coxa de Karl Malone. Vem enfrentando inchaço e dores daquelas. Na primeira partida, precisou sair de quadra e ir para o vestiário para receber tratamento. O Mavs precisa de suas habilidades ofensivas, especialmente o arremesso de longa distância, para abrir a quadra para infiltrações de Rondo e Ellis.

Parsons explica a Mark Cuban como está difícil jogar contra o ex-time em Houston

Parsons explica a Mark Cuban como está difícil jogar contra o ex-time em Houston

Devin Harris: o inchaço é no dedão do pé esquerdo. Está tão inchado que o armador reserva enfrentou o Rockets no sábado usando um tênis maior na canhota, para tentar aliviar o desconforto. Sim, é verdade.

Golden State Warriors
David Lee: fora do início da série contra o Pelicans devido a um estiramento muscular nas costas. E ninguém parece nem reparar, tamanho o crescimento de Draymond Green.

Houston Rockets
– Uma ruptura nos ligamentos do pulso esquerdo tirou o armador e excelente defensor Patrick Beverley da temporada. Quem também não joga mais pela equipe nesta jornada é o ala-pivô lituano Donatas Motiejunas, devido a uma lesão nas costas. Duas peças que ganhariam bons minutos. Beverley é um dos melhores marcadores em sua posição, jogando com uma energia descomunal, enquanto Motijeunas ofereceria uma referência no jogo interior mais segura que Josh Smith e Terrence Jones, para os momentos em que Howard for para o banco.

Terrence Jones levou uma joelhada de Kenneth Faried nas costelas em duelo com o Denver Nuggets em março e teve uma perfuração no pulmão. É o mesmo ala-pivô que mal jogou em novembro e dezembro por conta de um problema nevrálgico nas pernas.

Dwight Howard parou por cerca de dois meses para tratar de uma lesão no joelho direito, embora não houvesse nenhuma lesão estrutural. Ainda não está 100%, e seus minutos são vigiados até hoje por Kevin McHale.

– O ala novato KJ McDaniels tem uma lesão no cotovelo, mas dificilmente iria jogar, mesmo.

Los Angeles Clippers
Também está no grupo dos times menos abalados no momento. Jamal Crawford, com uma lesão na panturrilha, era quem mais preocupava, mas parece devidamente recuperado. Blake Griffin também não dá sinais de que sinta algo no cotovelo

Memphis Grizzlies
– Mike Conley Jr.:
ultimamente, só se fala de sua fascite plantar no pé esquerdo, com inflamação e dores, que quase não se comenta o fato de ele também estar jogando com dores no pulso esquerdo durante quase todo o campeonato. “Não acho que vou estar nem perto de 100%, mas nunca pensei que perderia um jogo de playoffs”, afirmou, antes da estreia contra o Blazers. Beno Udrih fez uma bela temporada, mas a equipe precisa demais de seu armador titular, pela defesa e a liderança.

Tony Allen: o pitbull da equipe ficou fora das últimas dez partidas da temporada regular por conta de uma lesão na coxa. Retornou contra Portland e jogou por 25 minutos, ao menos. Está aqui o caso de um atleta que precisa estar bem fisicamente para render (pressionando os adversários de um modo sufocante, não importando a altura e o currículo deles), uma vez que sua habilidade com a bola deixa a desejar.

Marc Gasol sofreu uma torção de tornozelo na penúltima partida da temporada, mas não parece nada grave.

Milwaukee Bucks
Considerado um sério candidato ao prêmio de novato do ano, o ala Jabari Parker teve sua primeira temporada abreviada em dezembro por uma ruptura no ligamento colateral do joelho esquerdo. Khris Middleton aproveitou essa brecha, mas, para o futuro da franquia, é uma pena o atraso no desenvolvimento do número dois do Draft.

A proteção no dedinho esquerdo do Monocelha: nada muito grave, mas incomoda

A proteção no dedinho esquerdo do Monocelha: nada muito grave, mas incomoda

New Orleans Pelicans
Tyreke Evans, um cara que depende muito de seu arranque para a cesta, sofreu uma pancada no joelho esquerdo no primeiro jogo contra o Warriors e foi para o segundo duelo no sacrifício. Talvez tivesse minutos controlados, mas Jrue Holiday não retornou bem de uma reação por estresse na perna direita que o afastou por metade do campeonato.

Anthony Davis está jogando com o dedinho da mão esquerda protegido, depois de tê-lo deslocado. Aparentemente algo simples? Bem, no primeiro jogo ele estava segurando a mão sem parar, claramente desconfortável.

Portland Trail Blazers
Wesley Matthews ficou fora de combate, após uma ruptura no tendão de Aquiles. Recuperado de cirurgia, tenta dar apoio moral aos parceiros no banco de reservas. Arron Afflalo, aquele que seria seu substituto, sofreu um estiramento no ombro em jogo contra o Warriors, no dia 9 de abril. Está fazendo treinos leves e pode retornar no segundo ou no terceiro jogo da série.

LaMarcus Aldridge está jogando desde janeiro com um tendão da mão esquerda rompido. Precisa de cirurgia.

Dorell Wright sofreu uma fratura na mão esquerda no início de abril também, em derrota para o Clippers. Só poderá jogar em maio, se o time estiver em atividade até lá.

Arron Afflalo mal chegou e também se contundiu

Arron Afflalo mal chegou e também se contundiu

– Como se não bastasse, Nicolas Batum (numa temporada para se esquecer) e CJ McCollum (o jovem ala-armador que estava começando a engrenar), se contundiram em jogo contra OKC no dia 13. O problema do francês foi no joelho direito, enquanto McCollum torceu o tornozelo esquerdo.

– Sim, tem mais um: Chris Kaman, limitado por contusão nas costas. E uma temporada que se desenhava muito promissora… ficou complicada demais.

San Antonio Spurs
Tony Parker sofreu uma torção de tornozelo no primeiro jogo contra o Clippers. Teve uma campanha bem fraca para os seus padrões ao lidar com lesão e dores na coxa.

– Sobre Splitter, já falamos o bastante.

Toronto Raptors
– Kyle Lowry mal consegue parar em pé esses dias sem colocar a mão nas costas. É sempre um problema quando o jogador acusa dores ali. Inicialmente, os médicos na metrópole canadense não se mostravam preocupados. Três semanas depois, Dwane Casey já estava dizendo que ele não teria condição de jogar nem se já tivessem chegado aos playoffs. Foi afastado por nove partidas e, quando retornou, definitivamente não era mais o mesmo, acertando apenas 34,4% de seus arremessos nas últimas quatro rodadas, embora a pontaria de três pontos tenha sido elevada em relação a sua média.

Washington Wizards
Para fechar, outro time que está abaixo da média em termos de uso de medicamento. Até mesmo Nenê parece estar bem, na medida do possível.


Os playoffs começaram! Panorama da Conferência Leste
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Giancarlo Giampietro

Por algumas semanas ou meses, a Conferência Leste prometia mais. Toronto e Washington estavam lá em cima na classificação geral, enquanto o Cleveland enfrentava dificuldades. A ideia era a de que o Cavs se recuperaria, o que eventualmente aconteceu. Mas os dois clubes que despontavam caíram: desde o All-Star Game, estão com aproveitamento abaixo de 50%, inferior ao do Boston Celtics e a do Brooklyn Nets. Seus técnicos procuraram mexer nas rotações, sem conseguir arrumar a casa. Curiosamente, se enfrentam agora para ver quem tem a fase menos pior. E aí que ficamos com os LeBrons em franca ascensão, preparados para derrubar o Atlanta Hawks, soberano no topo da conferência desde janeiro. O Chicago Bulls, irregular, sem conseguir desenvolver a melhor química devido a lesões, corre por fora.

Não deixa de ser irônico que LeBron volte aos playoffs pelo Cleveland justamente contra o Boston Celtics, o time que os eliminou em 2010: um revés de impacto, que levou o astro a repensar os rumos da carreira, "levando seus talentos para South Beach". Agora volta mais maduro e consagrado. Mas a pressão na cidade é a mesma

Não deixa de ser irônico que LeBron volte aos playoffs pelo Cleveland justamente contra o Boston Celtics, o time que os eliminou em 2010: um revés de impacto, que levou o astro a repensar os rumos da carreira, “levando seus talentos para South Beach”. Agora volta mais maduro e consagrado. Mas a pressão na cidade é a mesma

Palpites, que é o que vocês mais gostam
Atlanta em 4 – especialmente se Jarret Jack estiver jogando mais que Deron Williams. Jeff Teague e Dennis Schröder podem dar volta nos veteranos.
Cleveland em 5 – Stevens promete dar trabalho a Blatt num playoff, mas o desnível de talento é muito acentuado.
Chicago em 6 – Milwaukee defende bem e vai tentar cortar a linha de passe para Gasol. Mirotic pode ser importante aqui para espaçar a quadra.
Washington em 7 (juro, antes do 1º jogo) – Pierce jura estar em ótima forma, e John Wall precisa de sua ajuda. Toronto precisa de Lowry a 80%, no mínimo.

Números
77, 3% –
O aproveitamento do Cleveland Cavaliers desde o dia 13 de janeiro, quando LeBron James retornou de suas duas semanas de férias. Foram 34 vitórias e 10 derrotas, a melhor campanha do Leste, com saldo de pontos de 8,5 – também o melhor da conferência. O rendimento de três pontos também foi elevado, o melhor, com 38,2%. Nesse mesmo período, tiveram o ataque mais eficiente e a décima melhor defesa. Sim, você pode dividir a temporada do Cavs em antes e depois das férias (e das trocas também, claro, realizadas nesta mesma época).

Horford foi para o All-Star com mais três companheiros. Quando voltaram, o time não funcionou da mesma forma

Horford foi para o All-Star com mais três companheiros. Quando voltaram, o time não funcionou da mesma forma

60,7% – O aproveitamento do Atlanta Hawks depois do All-Star, abaixo até do Boston Celtics (64,5%). Na temporada, o rendimento foi de 73,2%, o segundo melhor no geral. Mero relaxamento, ou produção de fato mais baixa?

46 – Juntos, Bruno Caboclo e Lucas Bebê somaram apenas 46 minutos em sua primeira campanha de NBA. Foram 23 minutos para cada.

22 – O total de jogadores escalados por Brad Stevens durante a temporada do Boston Celtics. Dá mais de quatro times completos. Fruto das constantes negociações do irrequieto Danny Ainge. De outubro a fevereiro, o dirigente fechou oito trocas diferentes. Houve gente que chegou no meio do campeonato e já foi repassada, como Brandan Wright, Austin Rivers e Jameer Nelson.

12 – Jason Kidd quebrou os padrões de rotação da NBA. Oito, nove homens recebendo tempo de quadra regular? Nada: em Milwaukee,  12 jogadores ativos no elenco do Bucks chegaram ao fim da temporada com mais de 10 minutos em média. Se formos arredondar, pode aumentar esse número para 13, já que Miles Plumlee teve 9,9 minutos desde que foi trocado pelo Phoenix Suns. Giannis Antetokounmpo é quem mais joga, com 31,4, seguido por Michael Carter-Williams (30,3) e Khris Middleton (30,1).

1,6 – É o saldo de Derrick Rose se  pegarmos o número de arremessos de três pontos que ele tentou em média na temporada (5,3) e subtrairmos os lances livres (3,7). Pela primeira vez em sua carreira, o armador do Bulls tentou mais chutes de longa distância do que na linha – excluindo, claro, as dez partidas que disputou na campanha 2013-14. Um claro sinal de como seu jogo se alterou devido ao excesso de cirurgias. O problema é que seu aproveitamento nesses arremessos vem sendo apenas de 28%. O armador obviamente pode ajudar Chicago em seu retorno aos playoffs pela primeira vez em três anos, mas Thibs obviamente enfrenta um dilema aqui: até que ponto precisa envolver o astro no ataque, sem atrapalhar o que Pau Gasol e Jimmy Butler vêm fazendo?

A lesão contra Philly em 2012, que suscitou uma série de cirurgias para Rose; armador volta aos mata-matas, ainda como a grande esperança da torcida de Chicago. Mas o time tem talento o suficiente para não depender exclusivamente de atuações milagrosas do seu xodó

A lesão contra Philly em 2012, que suscitou uma série de cirurgias para Rose; armador volta aos mata-matas, ainda como a grande esperança da torcida de Chicago. Mas o time tem talento o suficiente para não depender exclusivamente de atuações milagrosas do seu xodó

Panorama brasileiro
Nenê é fundamental no plano de jogo do Washingon, especialmente por sua capacidade para marcar. A questão é saber como ele estará fisicamente, depois de ter perdido cinco dos últimos sete jogos do Wizards pela temporada regular, sendo os dois últimos por uma contusão no tornozelo. (PS: a julgar pelo primeiro jogo está muito bem, obrigado). Para os talentosos garotos de Toronto, a expectativa é que ver de perto a atmosfera de um jogo de playoff os motive a treinar duro, duro e duuuuro nas férias para entrar na rotação na próxima temporada. Por ora, o mata-mata serve apenas para tirar os ternos estilosos do armário. Em Cleveland, Anderson Varejão pode quebrar um galho como assistente. Em Murcia, na Espanha, Faverani vai tocando sua reabilitação após uma cirurgia no joelho. Um retorno ao Celtics ainda é possível, em julho.

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Alguns duelos promissores
Kyrie Irving x Isaiah Thomas: Thomas é, de certa forma, uma versão em miniatura de Irving, sendo muito veloz, sempre um perigo com a bola, ainda que um tanto fominha. Mesmo que Kyrie tenha se mostrado mais atento durante essa campanha, por vezes sendo realmente agressivo na pressão, ainda não pode ser considerado um defensor capaz. Vai ter de se esforçar muito para frear o rival. Então é de se imaginar um tiroteio aqui, já que, do outro lado, não há como o tampinha contestar o belíssimo chute da jovem estrela.

O Cleveland tem de tirar o baixinho Thomas do garrafão

O Cleveland tem de tirar o baixinho Thomas do garrafão

John Wall x Kyle Lowry: Wall é pura velocidade, um dos integrantes da impressionante geração de armadores superatléticos a conquistar a liga. Com o tempo, aprendeu a usar suas habilidades fenomenais do modo correto, sendo dominante em transição, mas sabendo ditar o ritmo de jogo e explodir na hora certa em situações de meia quadra. Enxerga seus companheiros como poucos. Já Lowry é um tratorzinho com a bola, usando sua força e uma ou outra artimanha com a bola para ganhar espaço, olhando mais para a cesta. O problema é que ele sofreu bastante nas últimas semanas com dores fortes nas costas. Estilos bem diferentes.

Al Horford x Brook Lopez: por falar em contrastes… Horford é dos pivôs mais ágeis e versáteis que se tem por aí, pontuando com eficiência por todo o perímetro interno, desde a faixa de média distância ao semicírculo. Excelente passador e driblador também, ágil, faz um pouco de tudo em quadra, dando ao Hawks flexibilidade tanto na defesa como no ataque. Um cara especial e subestimado demais. Do outro lado, Lopez recuperou sua boa forma na reta final da temporada. Também estamos falando um cara que pode flutuar por todo o ataque, ainda que seja bem mais eficiente próximo ao garrafão. A diferença: é lento toda a vida e pouco passa a bola, mesmo que não se complique diante de marcação dupla. Na defesa, é muito vulnerável quando  deslocado para longe da zona pintada.

Jimmy Butler x Khris Middleton: Jimmy Butler deu um salto impressionante nessa temporada. Poucos imaginavam que ele poderia funcionar como arma primária no ataque, e em vários jogos do Bulls isso aconteceu, com sucesso. O maior volume de jogo no ataque resultou em queda na defesa – algo que o adversário do Bucks já faz muito bem. Ambos têm uma trajetória parecida como profissionais. Eram destaques universitários que entraram na liga com projeções modestas, mas, quietinhos, foram construindo uma reputação sólida. Mais jovem, Middleton pode usar uma boa atuação nos playoffs para inflar ainda mais sua cotação, sendo já considerado uma opção interessante no mercado de agentes livres que se aproxima.

Ranking de torcidas
1 – Toronto. A torcida mais radical da NBA, que perturba cada jornalista que coloque um mero senão na hora de falar sobre o clube. Lotam a praça Maple Leaf, do lado de fora do ginásio, com hordas e hordas de “nortistas” para assistirem ao jogo num telão. Não existia isso no mundo da liga americana. Os caras já estavam exaltados, e aí veio o gerente geral Masai Ujiri novamente com um clamor incendiário. Um ano depois de mandar Brooklyn se f*#@, subiu ao tablado neste sábado para dizer que não dá a mínima para Paul Pierce, de uma forma menos amorosa, claro. (Mais abaixo.)

2 A – Chicago. Na semana passada, gravamos eu e o chapa Marcelo do Ó, no Sports+, uma série de transmissões com jogos clássicos da liga. E como fazia barulho a galera dessa metrópole blue collar. Há que se entender uma coisa: por maior que seja a cidade, sempre se colocaram numa situação de inferioridade em relação a Nova York, por exemplo. O clima do povo de lá, em geral, ainda é de cidade pequena, tentando mostrar seu valor. Nesse contexto, adotam as franquias locais de um modo especial. Se Rose aprontar, o ginásio explode. Afinal, é o garoto da casa. Teve a maior média de público na temporada.

#OsLoucosDoNorte

#OsLoucosDoNorte

2 B – Boston. Se é para falar em tradição… Bem, esses caras aqui já comemoraram 17 vezes. Imagino a festa que farão neste retorno aos mata-matas após um ano sabático. Só ficam um degrau abaixo, ou meio degrau abaixo pelo  fato de que a equipe não ter lá muita chance. O estilo de jogo é divertido, há jovens valores para se adotar, mas ainda estamos muito distantes dos tempos de Pierce, Garnett e Rondo, caras venerados.

4 – Cleveland. Um público agraciado pelo retorno de LeBron, ainda vivendo uma segunda lua de mel, com a segunda maior média do campeonato. Fora dos playoffs desde 2010, vão muito provavelmente botar para quebrar. Só não vão ter as trombadas de Anderson Varejão para aplaudir. Outros pontos a favor: a belíssima apresentação de seus atletas com projeção 3D na quadra e um DJ dos mais antenados.

5 – Washington. Um grupo um tanto traumatizado por seguidos fracassos na construção de times promissores que acabam não chegando a lugar algum. Agora, têm um legítimo jovem astro por quem torcer, John Wall, e outra aposta em Bradley Beal, além de uma série de veteranos.

6 – Milwaukee. É a segunda pior média do campeonato, mesmo com um time jovem, cheio de potencial, e já fazendo boa campanha. Mas há um fator importante para se ponderar aqui: a ameaça de que a equipe deixe a cidade, devido ao lenga-lenga na aprovação/construção de uma nova arena. Os proprietários pressionam, divulgando na semana passada como seria o projeto. Só não há muito entusiasmo na população local para o investimento de dinheiro público na empreitada. Tendo isso em vista, talvez queiram ao menos conferir os garotos nos playoffs, com a sensação de que “foi bom enquanto durou”. De qualquer forma, a Squad 6 sozinha para superar as duas abaixo.

A possível nova arena de Milwaukee ficaria assim

A possível nova arena de Milwaukee ficaria assim

7 – Atlanta. A despeito da temporada maravilhosa que a equipe fez, sua torcida foi apenas a 17ª torcida no ranking de público.  O tipo de ginásio que precisa da intervenção do DJ para emular o barulho de torcida, na hora de se pedir coisa básica: como “defesa”. Por essas e outras, também a despeito da tradição da franquia, se fosse para escolher arbitrariamente um time para ser realocado para Seattle, apontaria na direção do Hawks. A pasmaceira já vem de longa data.

(…)

15 – Brooklyn. Mas não tem público mais desanimado e desconectado que esse. O que é um contrasenso, se a gente for pensar da relevância do bairro nova-iorquino para a história do jogo. A marca ainda não colou por lá, e esse tipo de coisa demora, mesmo. Não havia Jay-Z que pudesse acelerar o processo.

Meu malvado favorito: Paul Pierce. O ala do Wizards não está mais nem aí. A cada entrevista, solta um comentário cada vez mais raro de se escutar num mundo excessivamente controlado pelas relações públicas. Em bate-papo recente e imperdível com a veterana repórter Jackie MacMullan, falou algumas verdades sobre Deron Williams e Joe Johnson, questionou a paparicação em torno das jovens estrelas da liga. Também disse que não botava fé no Raptors, seu adversário. Depois, disse que não era bem assim. Como se realmente se importasse com a repercussão – deve estar se divertindo com o papel de antagonista a seita #WeTheNorth. Amir Johnson mordeu a isca e retrucou: “É um cara velho, sabe? Ele precisa de algo para se motivar, e acho que é para isso que esses comentários servem. É como quando você usa viagra, para dar uma animada”. A torcida também prestou suas homenagens.

Para não deixar passar batido
Gerente geral do Nets, Billy King vai ter de se concentrar muito no que se passa em quadra agora. Se for pensar no futuro, vai doer a cabeça. Afinal, ao mesmo tempo em que seu time deve se esforçar para não tomar quatro surras do Hawks, sabe que a escolha de Draft deste ano vai ser endereçada ao adversário, mesmo que o time de Mike Budenholzer tenha sido o melhor da conferência. Ainda é um reflexo da famigerada troca por Joe Johnson, na qual o mais correto fosse que Atlanta pagasse a Brooklyn algumas considerações de Draft, já que o time nova-iorquino estaria fazendo um favor ao assimilar o salário mastodôntico do ala, que ainda mata uma ou outra bola decisiva, mas está longe de justificar o salário de mais de US$ 20 milhões. Ao menos, com a classificação aos playoffs, o Nets evitou a cessão de uma escolha de loteria. Imagine o Hawks saltando para as três primeiras posições nesse cenário? Desastre.