Vinte Um

Brasil ‘iguala’ Cuba em novo revés. Mais: Marquinhos, Ayón e Gutiérrez
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Giancarlo Giampietro

Ayón, um craque quase, digamos, Scolístico para o México

Ayón, um craque quase, digamos, Scolístico para o México

O Brasil sofreu sua segunda derrota em três jogos pela Copa América, nesta quarta-feira. Perdeu para o México, num ginásio pegando fogo. Vou quebrar um pouco o padrão aqui até para não ser muito repetitivo. O placar meio que já diz tudo: 66 a 58. Pela segunda vez, então, a equipe de Rubén Magnano não conseguiu passar da casa dos 60 pontos.

Isso até quer dizer que podem estar enfrentando defesas fortes, combativas num torneio em que, para o resto do continente, estão valendo duas vagas olímpicas. Natural que ofereçam resistência. Mas… Aí a gente dá uma conferida na tabela completa da competição e faz umas contas. Sabe qual a outra equipe que teve duas partidas com ataque tão anêmico no torneio até aqui?

Cuba.

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Sim, Cuba, que até apresentou alguns talentos interessantes nesta semana (depois de um loooongo inverno), mas é o único time amador em quadra. Literalmente.

Foi uma pesquisa simples de se fazer. Não pediu muito tempo para checar dados de arremesso da zona morta, da cabeça do garrafão, cesta assistidas, média de turnovers por troca de passe etc. Então não é querer me vangloriar, nem nada. Mas acho que, fora o visual, fora o que temos visto nos últimos dias, não vai ter dado mais preocupante que esse. Que, num filtro ofensivo, estejam os brasileiros ao lado dos cubanos. Não rola.

Mineiro, aqui e ali, mostra lampejos de seu talento. É um jogador muito interessante, com diversas qualidades raras para alguém de sua estatura e que podem ser mais exploradas. Mortari sabe

Mineiro, aqui e ali, mostra lampejos de seu talento. É um jogador muito interessante, com diversas qualidades raras para alguém de sua estatura e que podem ser mais exploradas. Mortari sabe

A preocupação maior aqui é que as questões sobre o sistema ofensivo brasileiro vêm de longe (*). Contra a Sérvia, ao ser eliminada nas quartas de final da Copa do Mundo, a seleção, não por acaso, também ficou abaixo dos 60 pontos, terminando em 56. Entender por que isso acontece vai muito além de frases como “a bola não roda'', “o chute não caiu'', “já estão classificados'', “não estão com força máxima'', embora todas elas possam fazer parte da explicação. Como a promessa era de não se estender muito aqui, vamos divagar a respeito desse tópico ao final do torneio. Contra os mexicanos, o Brasil fez mais um jogo amarrado, controlado. Partindo para o trabalho de meia quadra pouquíssimo sucesso: 35% nos arremessos de quadra, mais turnovers (14) do que assistências (12), falha nos tiros de fora 4-13 (o volume reduzido, pelo menos).

(*PS: atualizando, de acordo com a observação pertinente “Hugo X'' — só não entendo o anonimato obrigatório dos comentários, mas tudo bem. Vamos lá: vêm de longe os problemas, pensando na Copa América de 2013, a Copa do Mundo do ano passado. O Pan? Vai ser enquadrado na categoria de exceção, se a seleção se classificar para a próxima fase e mantiver o nível de jogo que temos visto aqui. E pode ser que eu simplesmente esteja errado quanto ao nível técnico da competição, que talvez este Brasil fosse muito superior àqueles rivais? Pode muito bem ser isso. Mas também começo a pensar se esse time não está simplesmente cansado. É um elenco mais jovem do que o principal, mas também não é um plantel sub-22. Alguns desses caras vararam a temporada, por assim dizer. Eles se reuniram no dia 14 de junho. Ao final do torneio, serão três meses de seleção. Um período muito mais longo que o normal de anos anteriores. Não há nunca uma só resposta para entender uma equipe de esporte, futebol, vôlei ou bocha. Como disse: vamos voltar a esses tópicos ao final do torneio. É preciso também conversar com os jogadores e treinadores para ver qual a opinião deles, uma vez que a cobertura brasileira na Cidade do México no momento é quase nula.)

Em termos pontuais, sem trocadilho, o que é necessário registrar é que Marquinhos dessa vez teve um volume de jogo bem menor. Partimos de um extremo em que ele estava usando quase 30% das posses de bola da equipe, segundo as contas sempre valiosas do MondoBasket, para outro: o ala flamenguista, que era o segundo cestinha da competição, arriscou apenas três arremessos em 26 minutos, marcou dois pontos e deu uma assistência. Resta saber se isso também foi algo programado, ou se o jogador estava muito preocupado em não parecer um fominha. A abordagem foi totalmente diferente, talvez por reflexo direto do que se passou nas duas primeiras rodadas. O jogo vinha sendo canalizado nele, mas não por uma tentativa de ato heroico da sua parte. Era simplesmente a consequência de um sistema que não funciona e que, por isso, apela ao seu atleta mais talentoso. Um jogador que tem visão de quadra, gosta de envolver seus companheiros e, num ataque mais fluido, pode render horrores.

Vitor Benite, por outro lado, conseguiu produzir, dessa vez conseguindo atacar a cesta, escapando dos bloqueios no perímetro, para marcar 23 pontos, tendo feito mais nos lances livres (10) do que em bolas de três (9). Outro dado chamativo, que quase tira o Everaldo do sério (imagine o Magnano, então…), diz respeito aos rebotes ofensivos. A proteção brasileira inexistiu, permitindo 17 coletas na tábua de ataque para os anfitriões. Comparando: foram 23 defensivos para os caras, enquanto a seleção nacional teve apenas 28 no total.

De resto, não há como não falar sobre o talento de Gustavo Ayón. Para quem acompanha o blog desde a encarnação passada, sabe que é um dos queridinhos desse espaço, ao lado de Andrés Nocioni e Andrei Kirilenko. De todo modo, pelo fato de não ter conseguido encontrar estabilidade na NBA, talvez ainda seja um cara desconhecido pelo público geral. Para os corajosos que se aventuraram na calada da noite para ver esta pelada, o cartão de visitas foi entregue. Pensando no mundo Fiba, o pivô mexicano talvez seja aquele que mais se aproxime de Luis Scola em termos de relevância para a sua seleção. Não estou comparando habilidades, que fique claro, até por serem dois caras que se complementariam muito bem. Foram 27 pontos e 13 rebotes para o cabrón, com impressionantes 12-19 nos arremessos de quadra (63%). Reparem em como ele se desloca dentro do perímetro, criando situações de cesta mesmo quando não está com a bola dominada. Isso é também um talento, e talvez mais difícil ainda de se ensinar, por estar diretamente ligado à visão de jogo. Craque, guiando o time às conquistas da Copa América e do CentroBasket.

Por fim, um destaque também para Jorge Gutiérrez, um jogador para o qual o selo NBA faz justiça. Fosse ele armador do Capitanes, do Peñarol ou do Trotamundos, e talvez não lhe dessem muito valor internacionalmente. Até por ser mexicano, um país que não tem tanta tradição assim na exportação de talentos de ponta. Gutiérrez é um belíssimo armador, grande em muitos sentidos. Alto, bem fundamentado e com explosão que pega as defesas desprevenidas. Há tipos que correm, correm e correm e não chegam a lugar nenhum. Para o apadrinhado de Jason Kidd, funciona de outro modo: com seu ritmo maneiro, deixa para explodir rumo ao garrafão só quando percebe a brecha à sua frente. Terminou com 14 pontos, 7 rebotes e 4 assistências em 28 minutos.


E o professor Scola deu uma aula na molecada canadense da NBA
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Giancarlo Giampietro

Mais uma exibição histórica de Scola pela Argentina

Mais uma exibição histórica de Scola pela Argentina

O professor Luis Alberto Scola, 35 anos, resolveu ensinar a molecada canadense que, no mundo Fiba, as coisas podem ser mais complicadas do que se espera. Nesta terça-feira, essa verdadeira lenda argentina marcou 35 pontos e pegou 13 rebotes, em 34 minutos, e liderou uma estrondosa vitória por 94 a 87 sobre a geração NBA de uma potência emergente.

>> Brasil vence a República Dominicana, com 8 minutos de ótimo basquete

Só no terceiro período, quando os jovens adversários começavam a se empolgar, foram 18 pontos, para deixá-los perturbados. Dá para dizer que, diante do volume de jogo impressionante do veterano, a seleção norte-americana se desestabilizou um pouco e teve de correr atrás do placar no quarto período.  Simplesmente não sabiam o que fazer contra o craque.

Foi um pouco de mais do mesmo do ponto de vista brasileiro, um tanto castigado por tantas surras que Scola nos aplicou. Um terror por toda a zona interior, atacando de frente e de costas para a cesta, com fintas para todos os lados, a munheca infalível e muita inteligência. É algo que sempre me maravilha e não consigo responder: o que é mais sensacional em seu jogo? A habilidade ou o instinto? São os fundamentos que permitem ele tomar decisões inesperadas pelos defensores, ou é a tomada de decisão que facilita a execução? Não importa. Os dois andam juntos e, com isso, temos uma figura legendária para acompanhar. Agora contratado pelo Raptors, é de se imaginar o quão calorosa será sua recepção em Toronto, né? ; )

Para os jovens canadenses, como Anthony Bennett, Kelly Olynyk, Andrew Nicholson e Dwight Powell, todos eles concorrentes na grande liga, era algo novo. Pelo Rockets, pelo Suns ou pelo Pacers, o argentino que eles conheciam era outro jogador, mais comedido. Daí que era até engraçado quando o veterano errava um arremesso e, segundos antes de a bola bater no bico, já estava de prontidão para coletar o rebote e encestar, num mesmo movimento, deixando atletas mais altos e/ou mais ágeis para trás, sem entenderem o que acontecia direito. E quando Scola puxava contra-ataque sem que ninguém se aproximasse deles, com os oponentes demorarem para persegui-lo, já apressados.

Correr, aliás, foi algo que o Canadá tentou fazer, para se aproveitar de sua condição atlética e tentar, quem sabe, cansar o pivô rival. Mesmo depois de cestas argentinas, o time de Jay Triano tentou acelerar em transição. Acontece que nossos vizinhos ao Sul estavam preparados para conter essa correria, por mais que os armadores Cory Joseph e Phil Scrubb rompessem, vez ou outra, a defesa para atacar o aro. Foram 12 pontos em contragolpes para eles.

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No geral, porém, a Argentina refreou como podia o arranque e o vigor físico deles, somando inclusive 14 pontos em sua transição e ainda vencendo a batalha dos rebotes por 45 a 39. Também soube cuidar da bola, limitando seu ataque a apenas nove turnovers. Mesmo com um conjunto também bastante renovado, a Argentina jogou com intensidade e maturidade.

Ajuda ter líderes como Scola e Andrés Nocioni (15 pontos e 5 rebotes) ao lado, obviamente. Os dois causam um impacto imenso, cuidando de pequenas coisas em quadra com atenção e esmero. Também é preciso dizer que o time de Sérgio Hernández não é só Scola+Chapu contra a rapa. A começar pelo técnico, que vai fazendo um trabalho bem mais interessante que o de Julio Lamas. Pode parecer bobagem, mas o “Ovelha'' foi influente até mesmo ao saber esfriar os canadenses com pedidos de tempo providenciais quando as enterradas e bolas de três sucediam. O mais importante, porém, é seu trabalho para captação de talentos e saber como usá-los. Contra os canadenses, o treinador armou um ataque todo espaçado para dar centímetros e segundos preciosos para seu grande jogador atacar.

O camisa 4 usou todo o seu repertório, mas não viu, surpreendentemente, muitas dobras defensivas, pois havia ameaça no tiro exterior — a despeito do aproveitamento de 5-29, 26%. Além disso, temos na Cidade do México uma equipe em que cada um conhece seu papel e vai executando suas obrigações de modo competente. O universitário Patricio Garino se encaixou perfeitamente ao lado dos campeões olímpicos com sua aplicação tática. Ótimo marcador, atacante oportunista e que não tenta fazer o que está além de suas capacidades. Depois de campanhas muito ruins, Leo Mainoldi acertou a munheca. Tayavek Gallizzi soube peitar os canadenses para dar alguns minutos de descanso aos veteranos.

A maior ajuda, mesmo, veio dos armadores. Nícolas Laprovíttola teve uma atuação que já deixa o torcedor flamenguista saudosista — e os dirigentes do Lietuvos Rytas, para onde está indo, bastante animados. Foram 20 pontos, 4 assistências e 4 rebotes em 21 minutos para o barbudo, que foi realmente dominante quando esteve em quadra. Já Facundo Campazzo, que pouco jogou pelo Real Madrid durante a temporada, anotou 10 pontos, seis assistências em 18 minutos. Juntos, eles acertaram 12 de 17 arremessos de quadra, agredindo e sem forçar a barra. Talvez os canadenses pudessem ter tentado uma pressão maior para cima dos armadores. Mas talvez isso não fizesse a menor diferença. Foi uma grande exibição da dupla.

O espevitado Brady Heslip, que, guardadas as devidas proporções, seria um jovem Juan Carlos Navarro canadense, bem que tentou fazer frente a eles do outro lado da quadra. Com uma mentalidade agressiva e sua mecânica perigosíssima, não deixou a coisa desandar para valer e conseguiu tirar seu time do sufoco em situações de meia quadra. Ele que é justamente um dos três atletas do grupo de Jay Triano que hoje não têm contrato com a NBA.

Andrew Wiggins teve seus lampejos, com direito a uma enterrada para cima de Nocioni, com direito a uma audaciosa encarada na sequência. Imagino o desespero de Flip Saunders ao ver a provocação de seu jogador, que é muito jovem e talvez não soubesse exatamente com quem estava mexendo. O rapaz tinha apenas 9 anos de idade quando Chapu estava recebendo sua medalha olímpica. Wiggins também ainda não é um ala que possa criar situações por conta própria e carregar uma equipe nesse tipo de jogo.

Dos mais experientes da equipe, Kelly Olynyk foi engolido por Scola na defesa — neste ponto, o técnico Jay Triano de um caldeirão de sopa para o azar ao confiar no ala-pivô para segurar a lenda argentina no mano a mano. No ataque, voltando de lesão, o cabeleira do Celtics se não teve a melhor leitura de jogo, chutando quando tinha espaço para atacar e cortando para a cesta quando o garrafão estava congestionado. Brigou lá embaixo, é verdade, terminando com 11 pontos, 10 rebotes e mais 4 assistências para os companheiros. Mas errou 0 de seus 13 arremessos, em 23 minutos, falhando em todas as suas quatro tentativas do perímetro.

O Canadá não fez uma partida ruim, para assustar. Mas acabou acusando o golpe desferido por Scola e seus amigos baixinhos. Agora vai ter se recuperar rapidamente. Eles ainda têm Porto Rico, Venezuela e Cuba pela frente, após uma derrota que não é nenhum absurdo, mas não estava nos planos de uma seleção considerada a grande favorita ao título e a uma das vagas olímpicas. Por sorte, o próximo jogo é contra os cubanos, o que tende a ser um treino. Esse, sim, o tipo de jogo que não tende a passar nenhuma lição.


Brasil vence. Foram nove minutos de ótimo basquete, antes da complacência
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Giancarlo Giampietro

Foram 17 pontos para Marquinhos. Mas o time dessa vez procurou diversificar seu ataque por um tempo

Foram 17 pontos para Marquinhos. Mas o time dessa vez procurou diversificar seu ataque por um tempo

Voltando do trabalho (o outro), cheguei atrasado para o jogo, admito. No caminho, apressado depois de tantas baldeações no lamentável metrô paulistano, restava recorrer ao Twitter e às estatísticas oficiais, já que o sinal de celular não permitia o acesso regular à Fiba TV. Por um bom tempo, achei que, para ajudar, o “tempo real'' estava com pau. Afinal, passavam-se as estações, e o Brasil não saía do cinco. Atualizei por conta o link, e nada. Até me dar conta de que estava tudo correndo normalmente. Era só a dificuldade (de sempre?) para se fazer cestas, mesmo. Entre uma bola de três de Marquinhos e um lance livre de Rafael Luz, correram mais de quatro minutos de partida sem nenhum pontinho. Dali até o final sairiam mais dez, diga-se.

Ao menos isso: consegui escapar do período de draga total desta terça-feira, em vitória por 71 a 65. Quando o sofá já se mostrava acolhedor o bastante, a seleção brasileira estava mais solta em quadra, se aproveitando da pouca resistência que a República Dominicana oferecia para construir vantagem no placar. Quando restavam 4min20s para o fim do primeiro tempo, vencia por 31 a 26. A 5min37s do final do terceiro quarto, a parcial já apontava 54-34. Ou seja, em nove minutos, abriu-se 15 pontos.

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E aí há os dois lados, como sempre: os dominicanos parecem desmembrados neste torneio, para alívio geral de argentinos, mexicanos, porto-riquenhos e, opa!, dos canadenses. Tiveram uma postura muito mais frouxa que a dos uruguaios na véspera. Certo. Os brasileiros, de qualquer maneira, souberam se aproveitar desses lapsos de um modo apropriado. Foi uma bela sequência, mesmo. O ataque voltou a ficar, digamos, elástico, no ritmo do Pan, com todos participando. A bola rodou muito mais, indo para o garrafão, voltando para o perímetro, cruzando de um lado para o outro. Fugiram daquele sistema básico de toca-para-o-Marquinhos-que-tudo-bem – o ala flamenguista foi o cestinha novamente, com 17 pontos. Ricardo Fischer marcou todos os seus 10 pontos, João Paulista fez a festa no garrafão (10 pontos e 9 rebotes em 24 minutos), Augusto cravou e até o jovem Leo Meindl, que andava bem travado, esteve agressivo e relativamente produtivo (5 pontos, 3 rebotes, 3 assistências em 18 minutos).

(Parêntese para a revelação francana: o ala apareceu bem, em cortes pelo lado contrário que ele faz tão bem e que deveria usar muito mais, diversificando seu arsenal. E se faz imperativo também que o reforço bauruense trabalhe sua c ondição atlética. Nem todo mundo precisa ser Kobe Bryant nessa vida, mas Leo pode muito bem perder alguns quilos e ganhar em arranque e agilidade, sem perder a força que lhe ajuda em suas ainda raras incursões no garrafão. Ele tem muito talento para ser explorado, e o tempo ainda está o seu favor. Duro é se acomodar em quadras nacionais. Não pode.)

>> E o professor Scola deu uma aula para a molecada canadense da NBA

O jogo meio que se decidiu, então, de modo precoce, e aí voltou a complacência. É meio injusto destacar isso, pois o placar não estava saindo do zero, mas vamos lá: os caribenhos venceram os últimos 15 minutos de jogo por 14 pontos, com direito a um 20-13 no quarto final. Período em que, durante um pedido de tempo, Magnano perguntou aos atletas: “Por que vocês não estão respeitando o que estou falando?'', com ar de perplexidade, depois de tantos arremessos de três pontos forçados. É, pois é. Nada como o áudio liberado no banco de reservas, um reflexo de uma condução mais light do argentino nesta temporada ajuda.

Todo treinador é responsável por sua equipe. Desde a convocação à condução dos treinos, à preparação para os jogos e ao comando na partida. Por mais supercontrolador que seja, porém, todo profissional nesse cargo tem um limite de ação — e, cá entre nós entre marmanjos não me agrada muito o estilo autoritário. Chega uma hora que o desenvolvimento da equipe vai depender da execução dos atletas. Por que os jogadores não estavam cumprindo o recomendado, então, se torna uma boa pergunta. Voltamos aqui ao relaxamento, a um descompromisso com a competição? Os maus hábitos liberados (por quem?) devido ao placar largo? Vai saber.

Por isso, nessa acompanho o Wlamir: não dá para comemorar tanto o resultado, porque não é que o Brasil tenha jogado muito bem, ou melhor: consistentemente bem. E foi contra um adversário que parece destinado à eliminação bem antes da disputa das medalhas. Nesta quarta-feira, é a vez de enfrentar o México, com jogadores  melhores, ginásio bombando e a perspectiva de um embate bem mais complicado.


Fim de novela! Huertas acerta simplesmente com o Lakers. Mas que Lakers?
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Giancarlo Giampietro

Kobe e Huertas, agora lado a lado

Kobe e Huertas, agora lado a lado

E foi uma novela, mesmo, cheias de tramas e reviravoltas, que minha nossa. O final foi grandioso, porém: o Los Angeles Lakers!

Lá atrás, em abril deste ano, já havia começado o zum-zum-zum de que Marcelinho Huertas, aos 32, estava decidido, mesmo, em fazer a transição para a NBA, se despedindo do Barcelona e do basquete europeu, onde fez grandes campanhas e se tornou uma referência internacional na posição. A troca de agentes lá fora aconteceu justamente por isso. Segundo ouvi de um dirigente da Divisão Sudoeste, o movimento de se cruzar o Atlântico já havia sido ensaiado em anos anteriores, mas sem sucesso. A Octagon, por meio do norte-americano Alex Saratsis, que já trabalhou com Bruno Caboclo e hoje representa Georginho e Lucas Dias, foi a empresa escolhida para tentar se fechar um acordo. Houve, inclusive, uma promessa de que isso aconteceria.

O negócio não foi tão simples assim, mas se concretizou, enfim, nesta segunda-feira, anunciado enquanto a seleção brasileira penava contra o Uruguai pela primeira rodada da Copa América.

Para se ter uma ideia, cerca de uma hora antes do superfurão Adrian Wojnarowski 'oficializar' a contratação, duas fontes de dois clubes diferentes da Conferência Oeste haviam me dito que o armador estava endereçado ao Utah Jazz, onde faria uma dupla inusitada com Raulzinho.  Disseram que a franquia de Salt Lake City, mesmo já tendo um brasileiro na posição (além de Trey Burke e Bryce Cottom), tentou, mas não levou. Há um forte rumor também de que, em julho, Huertas chegou a se apalavrar com o Dallas Mavericks, mas que o acerto acabou indo para o buraco após DeAndre Jordan deixar Mark Cuban e Dirk Nowitzki em cima do altar. O clube texano teve de seguir outros rumos, e, de maneira inesperada, surgiu a oportunidade de trazer Deron Williams.

Huertas, solto como nos tempos de Bilbao, fazendo o que sabe

Visão de quadra agora será testada contra outro tipo de competição

Esse desencontro, aliás, foi muito custoso para os planos dos agentes. Pois, uma vez que os principais nomes do mercado se decidiram, as pedras  do dominó foram caindo rapidamente, e as vagas se fechando. No finalzinho de agosto, então, estava praticamente tudo ocupado já. Por isso, como garantia, na Europa foi encaminhada uma negociação com o Galatasaray, uma vez que o Barcelona, com Carlos Arroyo, já estava no passado. Dirigentes turcos chegaram a citar Huertas como atleta do clube publicamente.

Jazz e Lakers, não por coincidência, eram dos poucos times americanos com postos de trabalho em aberto. O Utah ainda está abaixo do teto salarial, podendo oferecer mais dinheiro. O clube californiano, ainda sem computar o salário do brasileiro, está bem em cima da marca de US$ 70 milhões, mas com espaço em seu plantel ainda para oferecer salários mínimos. E foi nessa brecha que entrou o titular de Rubén Magnano, sendo o segundo brasileiro a assinar com a histórica franquia californiana (para constar: o ala Jefferson Sobral chegou a participar do training camp de Phil Jackson, ao lado de Shaq e Kobe, em 2002, jogou duas partidas pela pré-temporada, mas não disputou partidas oficiais, até ser dispensado).

Resta saber apenas se o vínculo é garantido na íntegra, ou não — para quem não está muito familiarizado com os trâmites da NBA, isso quer dizer basicamente se Huertas está com as costas quentes, tranquilo para mostrar serviço, ou se pode ser cortado por Byron Scott a qualquer momento. Segundo indica Wojnarowski, trata-se do primeiro caso.

O garotão Russell: pupilo, concorrente, ou o quê?

O garotão Russell: pupilo, concorrente, ou o quê?

No momento, de acordo com levantamento de Eric Pincus, do Basketball Insiders e do Los Angeles Times, e ainda sem contar Huertas, Jim Buss e Mitch Kupchak distribuíram 12 contratos totalmente seguros e outros quatro que dependem de sua boa vontade para serem validados. Estão nessa condição o pivô Tariq Black, que muito provavelmente será mantido, os alas Jabari Brown e Michael Frazier e o ala-pivô Jonathan Holmes. Lembrando que uma franquia só pode levar para a temporada regular um total de 15 atletas. Com Huertas efetivado, restariam duas vagas para esses quatro disputarem.

Posto isso, o que esperar do brasileiro por lá?
Antes de qualquer declaração por parte dos dirigentes e treinadores do clube, o que podemos fazer é deduzir, com base nas peças que eles já têm. Hoje, na hora de falar em Lakers, tudo gira em torno de Kobe Bryant D'Angelo Russell. Claro que Kobe ainda é prioridade no coração do torcedor angelino, mas não se pode esperar muito de um jogador de 37 anos, indo para a 20a. temporada, tendo jogado apenas 25% das últimas duas com as mais diversas e graves lesões. O processo de reconstrução da equipe passa pelo desenvolvimento do calouro número dois do Draft. O ala-armador Jordan Clarkson também entra nessa equação.

Outro ponto a ser considerado é a própria ambição do clube para esta temporada. A despeito da aparente melhora do elenco, eles não têm time para competir pelos playoffs do Oeste. Precisaria dar muita coisa certo — lesões sem parar na concorrência, Hibbert redescobrir a forma de All-Star, que Byron Scott consiga forjar uma defesa minimamente decente ao seu redor, os mais jovens progredirem horrores, Kobe jogar relativamente bem etc. Aí vem a questão do próximo Draft para deixar tudo mais complexo: o Lakers só vai manter sua escolha em 2016 se ela ficar entre as três primeiras. E não há como garantir isso, nem mesmo, se o time tiver a pior campanha. O incentivo seria, então, para tentar os melhores resultados possíveis. Se fossem perder a escolha, que ela pelo menos não fosse das mais altas (e dolorosas).

É com esses chapas que Hibbert vai ter de se virar agora

É com esses chapas que Hibbert vai ter de se virar agora

Daí, há duas situações envolvendo Huertas, imagino:

1) Buss, Kupchak e Scott podem entender que é preciso soltar Russell, de apenas 19 anos anos, aos poucos, bem devagarinho, depois de ele ter sofrido na liga de verão de Las Vegas, para não ferir sua confiança. E aí faria muito sentido a contratação de um armador experiente como Huertas, para absorver minutos consideráveis, especialmente nos primeiros meses, confiando que ele vá conduzir as coisas com segurança e rumo a vitórias, de preferência.

2) Os chefões, por outro lado, podem acreditar que Russell é capaz de segurar as pontas de cara — e de que talvez não pegue tão bem assim com a torcida a redução de seu tempo de quadra, dadas as enormes expectativas ao seu redor. Ou: dependendo dos resultados do início, se a coisa estiver feia, que jogue a molecada, mesmo, e se aumente matematicamente as chances de manter a próxima escolha, independentemente da força do produto oferecido em quadra. E aí os minutos de Huertas poderiam cair, mas sua presença no elenco ainda faria bem, como um mentor para Russell e Clarkson, ao lado de Steve Nash.

De qualquer forma, também precisamos entender por que demorou para o armador encontrar uma vaga que lhe coubesse. O brasileiro, sabemos, é um mestre em jogadas pick-and-roll, enxergando passes nem sempre óbvios, com habilidade no drible e um bom chute em flutuação. Na NBA, estará servindo jogadores muito mais explosivos que Ante Tomic e Tibor Pleiss, mas também será contestado pelos mesmos caras. No ataque, o arremesso de fora não cai com a frequência esperada.

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Mas é na marcação que moram as maiores questões. Mesmo na Europa, Huertas é considerado como um alvo a ser protegido. Na próxima temporada, ele será atacado por gente como Russell Westbrook, John Wall, Eric Bledsoe, Stephen Curry e tantas outras ameaças. É uma pressão enorme, e não há basicamente ninguém ao seu lado que possa protegê-lo, blindá-lo. Pelo contrário. Nos últimos dois campeonatos, o Lakers esteve entre as três piores defesas. Agora Hibbert está chegando, mas sozinho, sem as ideias de Frank Vogel, a pressão de George Hill e Paul George no perímetro, e tal. Em vez disso, tem um técnico que prega defesa, mas que, desde os tempos de Cleveland, não tem aplicado nada em quadra que surta efeito. Pior: em vez dos 'Georges', vai precisar dar cobertura para Lou Williams (US$ 21 milhões por três anos, não vai jogar? Ao mesmo tempo, é impossível imaginá-lo dividindo a quadra com o brasileiro…), Nick Young, o envelhecido Kobe, um novato cujo forte não é o combate, o segundanista Clarkson e o lento-toda-a-vida Ryan Kelly. Faz como? É o que leva um scout dizer ao VinteUm: “Bem, pelo menos no Lakers ninguém vai pedir para que ele jogue na defesa''.

Se o time não for parar ninguém diante de sua cesta, talvez a melhor solução, mesmo, seja jogar para a torcida e ver no que dá, ainda que, nesse ritmo, poderiam muito bem ter segurado um cara como Mike D'Antoni, cuja genialidade ofensiva é inquestionável e com quem Huertas muito provavelmente se daria muito bem.

Por outro lado, não estamos mais discutindo aqui o Barcelona, o Fuenlabrada, a Liga ACB ou a Euroliga. Mas, sim, o Lakers e os OKCs da vida. A NBA, à qual o armador chega depois de anos e anos em que as principais perguntas das redes sociais basqueteiras brasileirass era se ele iria jogar lá e sobre como se sairia? Agora parece não ter volta. A partir de outubro, teremos as respostas.


Brasil faz péssima apresentação e perde para o Uruguai pela estreia
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Giancarlo Giampietro

magnano-brasil-uruguai

É, a seleção brasileira tem sempre a chance de reagir. Restam mais três partidas pela primeira fase da Copa América. Mais três oportunidades para o time apagar a péssima impressão deixada por sua estreia desta segunda-feira contra o Uruguai. Três chances também para tentar resgatar a fagulha que vimos durante o Pan. Numa derrota por 71 a 57, com uma péssima apresentação, muito pouco, ou quase nada deu certo. Foi uma derrota de certa forma acachapante.

Nos amistosos e na Copa Tuto Marchand, você dá um desconto. Pode-se bater o pé e dizer que, quando uma seleção vai para a quadra, não existe essa de teste e de observação. Mas, nas últimas temporadas de Fiba Américas, vimos que os jogos preparatórios não serviram de bom parâmetro para o que aconteceria no torneio para valer. E aí chegamos a um ponto: para os uruguaios, o torneio na Cidade do México vale muito. Para o Brasil já classificado, nem tanto. Mas, agora, com jogos oficiais, não há desculpa para apatia ou para uma apresentação como a que acabamos de ver.

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Não que tudo o que aconteça numa quadra de basquete possa se explicar por esforço, obviamente. Isso não justifica os sete lances livres a mais que os uruguaios bateram (e converteram) e até mesmo o fato raro de que tenham conseguido equilibrar a disputa de rebotes com os brasileiros (perdendo por 39 a 37). Mas ajuda a entender o fato de o Brasil ter cometido 20 desperdícios de posse de bola e acertado apenas 35% dos arremessos de quadra.

uruguai-brasil-copa-americaQuando você se depara com números calamitosos como esses, tem de ponderar o quanto o mérito está do outro lado, ou o problema está no seu próprio colo. O nível de competição é bem superior ao do Pan, individualmente, mas, no caso dessa estreia, por mais estruturado que esteja, não podemos dizer que o Uruguai sem Esteban Batista, Jayson Granger e Leandro Garcia Morales seja uma potência continental. As derrapadas vêm da combinação dos dois fatores, queda no rendimento e oposição mais dura. Fato é que o Brasil jogou de modo emperrado novamente, mantendo o padrão das últimas partidas. No ataque, os atletas até se movimentam de lá para cá em jogadas ensaiadas, mas a bola estaciona.

O retorno de Rafael Luz, que está se recuperando de uma lesão que sofreu em treinamento na Argentina, era uma esperança por maior lucidez no ataque, mas talvez seja injusto pedir muito do novo armador do Flamengo, que vai ter de recuperar o ritmo de jogo em plena competição. Contra os uruguaios, Rafael cometeu cinco turnovers e deu quatro assistências. Marquinhos, o cestinha com 21 pontos, também perdeu a posse de bola em cinco ocasiões. O ala centralizou muito o ataque brasileiro, e aí também fica a questão se isso tem mais a ver com a evidente confiança de Magnano em suas habilidades — isto é, se isso está designado –, ou se é mero produto de um time que saiu dos trilhos e acaba dependendo de iniciativas individuais lutando não só contra uma defesa adversária, mas também contra o cronômetro.

Coletivamente, a seleção se mostra incapaz de buscar cestas fáceis em transição ou próximo ao aro. Por ironia, até mesmo quando os pivôs escaparam e se colocaram em boa para finalização, acabaram falhando em conclusões individuais. O que também podemos notar é um desequilíbrio no modo como dois pivôs tão contrastantes como Augusto e João Paulo foram utilizados em determinados momentos. JP foi acionado diversas vezes em pick-and-rolls, enquanto para Lima a bola foi pingada em post-ups, de costas para a cesta — quando os dois são notoriamente mais produtivos justamente em situações inversas. Trocaram as bolas na hora de jogar com eles, o que é difícil de entender depois de tantas semanas de treino.

>> Canadá: Olynyk, Rick Fox e assistente do Raptors falam sobre a invasão

Magnano também não conseguiu encontrar uma rotação que ganhe coesão ofensiva e defensiva com Marquinhos e Giovannoni, por exemplo. Os dois mais experientes, por exemplo, estavam fechando este primeiro jogo ao lado de João Paulo na linha de frente e de Rafael, voltando de lesão, e Benite no perímetro. Ok, estava difícil fazer cestas. Beeeem difícil, que era uma tristeza. Mas esse quarteto não inspira confiança nenhuma na retaguarda, por outro lado. Não seria o caso de usar Augusto com os dois alas-pivôs abertos? Coisas desse tipo vêm acontecendo em meio às diversas trocas à procura do time ideal.

Como acontece isso? Como o time pode ter rendido tão bem no Pan e agora esteja capengando? O fator motivacional não deveria, mas influencia, embora, queiramos crer, de novo, que não diz tudo. A próxima dedução apontaria para o desequilíbrio troca por Hettsheimeir e Larry por Giovannoni e Marquinhos. São atletas  de perfil muito diferentes, tanto do ponto de vista técnico como do físico, aliás. sem contar que os dois alas-pivôs estavam vindo de férias e sendo encaixados num time que estava pronto. Não quer dizer que os dois que saíram sejam superiores aos dois que chegaram. Acontece que, entre uma habilidade perdida e outra somada, a rotação entrou em desequilíbrio, fato. Sem Larry, a tendência era de que o Brasil diminuiria os minutos com dois armadores em conjunto — daí que o corte de Danilo Siqueira machuca um pouco mais, de uma outra forma que vai além da simples oportunidade desperdiçada de se dar rodagem a um jovem talento.

Para compensar, Magnano estende os minutos de Benite, que ficou em quadra por 33 minutos. Isso implica em naus desgaste para o agora jogador do Murcia, que já está cercado de enorme responsabilidade no ataque, como a segunda opção de desafogo, logo depois de Marquinhos. Benite não cria muitas situações por conta própria e precisa da ajuda dos corta-luzes e de movimentação de bola mais inteligente e precisa para receber em movimento e agredir. Não vem acontecendo, exigindo um tromba-tromba incessante para ele. Pois, depois de sua ótima exibição em Toronto, as defesas simplesmente vão fazer de tudo para tirá-lo de uma zona de conforto. Benite está sendo contestado sem parar (3-15 nos arremessos, 0-6 nos três pontos). Mas não só ele. O perímetro em geral está supercongestionado, como prioridade de qualquer adversário brasileiro. E o time de Magnano não está conseguindo buscar outras alternativas, deixando no ar já uma série de questões que podem ser respondidas durante a semana. A ver.


A invasão canadense está em marcha, já como ameaça no Rio 2016
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Giancarlo Giampietro

A geração NBA canadense

A geração NBA canadense é vasta

Quando Kelly Olynyk fez sua estreia pela seleção do Canadá, no Mundial de 2010, chamou a atenção. Tinha 19 anos apenas e era um ala-pivô já bastante dinâmico, com 2,11m de altura e flutuando pelo perímetro de modo bastante fluente. Ele foi talvez o único ponto positivo de uma equipe que perdeu todos os seus cinco jogos pela primeira fase, inclusive para o Líbano na estreia. Naquele plantel com predominância de veteranos, Joel Anthony, reserva do Miami Heat, era o único representante da NBA convocado, enquanto o técnico Leo Rautins sonhava com uma possível reapresentação de Steve Nash. Não aconteceria, e o país enfrentava um período em que mesmo a mediocridade em competições Fiba parecia inalcançável.

Para o então atleta da Universidade de Gonzaga, a experiência foi incrível. “Teve uma importância enorme para mim. Foi meu primeiro verão com a seleção adulta, e eu realmente era o mais jovem ou o segundo mais jovem do torneio (PS: era o segundo, mesmo, perdendo para um armador chamado Raul Neto, que tinha 18 anos. Conhecem?). O nível de talento que fui ver ali pela primeira vez foi de abrir os olhos. Era um Mundial. Embora não tenhamos ido bem como coletivo, foi uma competição muito legal e que me ajudou a ganhar confiança para ver que podia enfrentar atletas de ponta, ver que tinha talento para estar ali.''

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Como as coisas mudaram em cinco anos, hein? Na Copa América que se inicia nesta segunda-feira, na Cidade do México, uma coisa está clara: o Canadá é o time a ser batido, como o grande favorito a uma das duas vagas olímpicas que estão em jogo. O próprio Olynyk admite isso. Depois de um longo período de vacas magras,  a presença de Nash, agora gerente do time, nem se faz mais necessária em quadra. Dos 12 atletas que o país inscreveu na competição, nove estão sob contrato com franquias da NBA. Poderiam ser 12, na verdade, não fosse uma lesão sofrida pelo armador Tyler Ennis, do Milwaukee Bucks, a arrastada negociação do pivô Tristan Thompson com o Cleveland Cavaliers, e o fato de o ala Trey Lyles ter acabado de chegar ao Utah Jazz.

“Somos canadenses e agora estamos nos encontrando a todo momento na liga, o que ajuda a reforçar essa conexão. É legal pensar, conversar a respeito, pois é o momento em que poderemos nos unir para representar nosso país, vestir a camisa. É algo que tem de ser encarado de modo especial'', disse o hoje ala-pivô do Boston Celtics, em entrevista ao VinteUm gravada em fevereiro, em Nova York, durante a cobertura do NBA All-Star Weekend.

Em 2010, Olynyk estreava pela seleção ao lado de Sacre (ao fundo)

Em 2010, Olynyk estreava pela seleção ao lado de Sacre (ao fundo)

As origens
No corre-corre de um fim de semana das estrelas da liga norte-americana, o jornalista precisa ficar atento e aproveitar qualquer brecha. Especialmente um forasteiro do Brasil, que não tem tantas oportunidades assim para entrar em contato com os grandes protagonistas de lá, os jogadores. Fui a convite do canal Space, tendo a oportunidade de ficar no mesmo hotel que toda a imensa equipe da Turner, que tem um verdadeiro time dos sonhos em seu elenco de transmissão. Dentre os ex-jogadores, o nome de Rick Fox definitivamente não é dos mais chamativos, se comparado com Barkley, Shaq, Grant Hill, Isiah… Por outro lado, em termos de desenvoltura em frente às câmeras, até por ter sido um ator (de verdade), talvez o ex-ala que dividiu seu tempo simplesmente entre Boston Celtics e  Los Angeles Lakers seja imbatível. Até por isso, naquele domingo, 15 de fevereiro, estava escalado para ser algo como o mestre de cerimônias do Jogo das Estrelas, em pleno Madison Square Garden, diante dos milhares de malas nova-iorquinos presentes e de milhões de espectadores do outro lado da câmera.

Não era o melhor dia para abordar Fox, ainda que fosse pela manhã. Mas foi o instante em que este blogueiro aqui não estava desesperado para sair do hotel e chegar a algum evento a tempo, encarando o frio lá fora e um joelho machucado (a pior combinação possível, veja só). E o cara estava só de roupa esportiva, como se estivesse preparado para um treino leve em quadra — em vez do terno e do casacão que usaria à noite e que, juntos, deveriam valer pelo menos o quíntuplo de toda a minha bagagem. Então você se aproxima do cara e pergunta se dava para falar uns minutinhos.

A seleção do Mundial de 94 tinha Nash (terceiro da esquerda para direita entre os sentados) e Fox (terceiro da direita para a esquerda)

A seleção do Mundial de 94 tinha Nash (terceiro da esquerda para direita entre os sentados) e Fox (terceiro da direita para a esquerda)

Foi coisa bem rápida, mesmo, e o tema era essa invasão recente promovida por seus conterrâneos. Por muito tempo, ele foi O Canadense do pedaço, antes de Steve Nash se soltar pelo Dallas Mavericks e virar um embaixador do outro jogo bonito pelo Suns ou de um pivô limitado e trombador como Jamaal Magloire ser agraciado com uma seleção para o All-Star de 2004. Quando Fox chegou ao Celtics em 1992, apenas dois compatriotas estavam empregados na liga. Não à toa, ambos faziam o perfil de lenhador e, curiosamente, também integraram dois times históricos: Bill Wennington, reserva de Luke Longley no tricampeonato do Bulls de 1996-98, e Mike Smrek, coadjuvante do coadjuvante no showtime bicampeão Do Lakers em 1987 e 88, tendo jogado gloriosos 67 minutos nos playoffs.

Embora, no Lakers de Shaq, Kobe e Mestre Zen, tenha tido papel muito mais relevante que o desses conterrâneos, Fox nunca foi um cestinha explosivo, nem mesmo em seu auge atlético, tendo chegado aos 15,4 pontos por jogo pelo Celtics na temporada 1996-97, aqueles anos depressivos pós-Larry Bird. Com seu jogo de arroz com feijão e habilidades defensivas, o ala não aparecia no SportsCenter, nem nos clipes semanais do NBA Action. Por isso, sorri ao dizer que “bem que gostaria de ter alguma importância'' no boom basqueteiro que vive sua cidade, Toronto, e seu país. “Mas não posso assumir nenhum crédito nisso'', afirma.

“Para mim, um cara como Vince Carter foi muito mais importante nesse surgimento sem precedentes de talentos de ponta. Ele era o cara das enterradas, dos grandes momentos que acabam inspirando um monte de crianças a pegar a bola e ir para o parque, ou o quintal de casa. Aquele período do Raptors com ele foi fundamental para isso'', afirma o hoje repórter-apresentador-faz-tudo da TNT. “E aí veio o Steve, com dois prêmios seguidos de MVP, para, talvez, reforçar uma espécie de orgulho nacional na cabeça desses garotos.''

Raptors, de Damon Stoudamire, e Grizzlies, com Blue Edwards e Greg Anthony, no ano de estreia das franquias. Vince Carter chegaria depois, fazendo muito sucesso

Raptors, de Damon Stoudamire, e Grizzlies, com Blue Edwards e Greg Anthony, no ano de estreia das franquias. Vince Carter chegaria depois, fazendo muito sucesso

Jama Mahlalela, assistente técnico do Toronto Raptors que trabalha diariamente com Bruno Caboclo, concorda em partes com seu compatriota. Para ele, mais que indivíduos, foi a criação de dois clubes da NBA no país em 1995 (mesmo quer a vida do Vancouver Grizzlies tenha sido curta, de seis anos) foi determinante. “Acho que ter essas equipes lá foram a fundação que permitiram que esse surgimento de jogadores fosse possível'', diz. Faz sentido. Se realizadas em Oakland, sede do Golden State Warriors, time que originalmente o selecionou no Draft, as acrobacias de Carter talvez não tivessem impacto algum na metrópole canadense.

Fato, hoje, é que, de acordo com o Basketball Reference, 26 jogadores nascidos em solo canadense já atuaram na NBA. Ironicamente, “Steve'' — o Nash, no caso — não consta nessa lista, por ter vindo à luz na África do Sul, assim como Robert Sacre, que vem de Baton Rouge, na Luisiana. Samuel Dalembert, haitiano naturalizado, seria outra menção relevante, mas acho que nem a federação do Canadá faz questão de contá-lo, depois de sua desastrosa passagem pela seleção nacional em 2007 e 2008, arrumando encrenca com todos até ser banido do time em pleno Pré-Olímpico mundial de Atenas pelo técnico Leo Rautins, este, sim, considerado uma espécie de pioneiro do país ao draftado na 17a. posição em 1983, pelo Philadelphia 76ers, mas sem ter conseguido levar sua carreira profissional adiante, se desligando da liga já em 1985.

Na temporada passada, estiveram em quadra 13 atletas: Nash e Sacre (Lakers), Olynyk, Andrew Wiggins e Anthony Bennett (pelo Wolves), Nik Stauskas e Sim Bhullar (Kings), Andrew Nicholson (Magic), Cory Joseph (Spurs), Dwight Powell (Celtics e Mavs), Thompson (Cavs), Ennis (Suns e Bucks) e Anthony (Celtics e Pistons), algo bem diferente da liga que Fox encontrou no início dos anos 90. Para o próximo campeonato, essa quantia pode ser mantida, com a saída do gigantão Sim Bhullar, dispensado pelo Kings, e a aposentadoria de Nash, mas com a chegada do ala-pivô Trey Lyles, do Utah Jazz, enquanto o ala Melvin Ejim, convocado para a Copa América, tem um contrato sem garantias com o Orlando Magic, precisando se provar no training camp.

A sensação Andrew Wiggins, em sua estreia pela seleção adulta

A sensação Andrew Wiggins, em sua estreia pela seleção adulta

Chumbo grosso
O selo NBA, goste-se ou não, causa alvoroço. Nem sempre significa qualidade indiscutível, como Sacre e o atlético Ejim podem dizer. Mas a quantidade de atletas na grande liga impressiona, de todo modo, e praticamente garante ao país um time decente ano após ano, mesmo que aconteça uma evasão em massa. Só a família Joseph, com Cory, agora do Raptors, o ala Kris (ex-Celtics) e DeVoe (cortado do grupo final para o Pan) tem três selecionáveis, caceta.

E muito mais virá por aí, com uma horda espalhada pelo basquete universitário dos Estados Unidos. O armador Jamal Murray é o destaque, já prometendo para fazer um grande campeonato por John Calipari em Kentucky. No geral, as seleções de base do país também vêm obtendo bons resultados internacionais. Segundo reportagem da Forbes, o basquete já é mais popular que o hóquei entre os jovens de lá. Segura.

A despeito da quase garantia de novos nomes no futuro, a atual base é jovem o bastante para se entrosar e crescer harmoniosamente de olho em futuras Copas do Mundo e Olimpíadas. Além do mais, com os bastidores sempre turbulentos do mundo Fiba e a crescente tensão de dirigentes da NBA em relação à liberação de seus atletas, melhor aproveitar a chance de reunir um time tão talentoso desde já. Quanto questionado se o técnico Jay Triano, assistente do Portland Trail Blazers, havia usado os encontros com os compatriotas durante a temporada regular como oportunidades de recrutamento, Olynyk disse que isso não era necessário. “Jay é um cara muito legal, está em contato conosco, mas não sei se ele precisa nos recrutar. Afinal, é a seleção nacional. É algo de que supostamente você quer participar. Espero que os caras venham para jogar, que estejamos prontos''.

Cory Joseph está de volta à seleção. Embora jovem, é o líder do time

Cory Joseph está de volta à seleção. Embora jovem, é o líder do time

Mesmo que num nível técnico abaixo, quando estreou pela seleção principal, o atleta do Celtics estava escoltado por veteranos que o ajudaram em sua transição para a seleção nacional e que ainda estão em atividade em sólidos clubes da Europa. “Vários caras foram importantes para nós, ou pelo menos para mim no início, como Joel Anthony, Jermaine Anderson, Denham Brown, Jesse Young, Carl English. São caras que te adotam e mostram o que deve ser feito, ainda mais em competições internacionais e quando você está começando.''

No geral, o grupo canadense  é jovem, com média de 23,8 anos e nenhum trintão. English, que já foi a principal referência ofensiva da seleção por muito tempo, foi cortado precocemente do grupo da Copa América, depois de fazer um Pan-Americano bem apagado, aos 34 anos. Anderson e Anthony dessa vez não foram chamados. Desta forma, ao lado do ala Aaron Doornekamp, de 29 anos,  Olynyk, 24, aparece como uma espécie de veterano da seleção, devido à experiência acumulada em 2010 e à igualmente malsucedida Copa América de 2011. Mesmo em recuperação de uma torção de tornozelo sofrida durante a Copa Tuto Marchand, segue no grupo com uma voz de liderança, ao lado de Joseph.

A inexperiência e os ajustes às regras Fiba talvez sejam os pontos aos quais a concorrência possa mais se apegar na esperança de derrubar um badalado time que, segundo Olynyk, “jogará com um alvo nas costas''.  No torneio amistoso disputado em San Juan, Porto Rico, eles venceram jogos parelhos contra os donos da casa e os dominicanos e atropelaram o Brasil. O jogo contra a seleção brasileira em especial apresentou muitos indícios do potencial de uma equipe extremamente atlética e versátil. Foram amistosos, ok, mas eles passaram invictos. É só o começo de uma geração que pode ter mais e mais representantes em futuros All-Star Games da NBA, em quadra, entrevistados por Fox. Agora, no México, Rubén Magnano vai poder acompanhar de perto quão concreta é essa ameaça para já, pensando no Rio 2016.


Brasil se recupera e vence a Argentina. Notas sobre o jogo
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Giancarlo Giampietro

Benite marcou 12 pontos, mesmo chutando 3-12. Compensou com cinco lances livres

Benite marcou 12 pontos, mesmo chutando 3-12. Compensou com cinco lances livres

Com um bom atraso, alguns comentários sobre a vitória do Brasil sobre a Argentina, por 80 a 71, na noite desta terça-feira. Nem o link oficial, nem os “alternativos'' estavam funcionando aqui no QG, então ficou para o VT pela manhã. Foi o terceiro amistoso entre os rivais nesta preparação para a Copa América, de modo que os times já se conheciam bem. O interessante desta série é que diversos novos protagonistas estão sendo introduzidos à maior rivalidade basqueteira sul-americana, de ambos os lados. Como o Marcus, por exemplo…

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Antes de falar sobre o jogo em si, vocês vão me desculpar se nos atermos a um pequeno ingrediente para lá de saboroso em quadra: a batalha entre Marcus Toledo e Andrés Nocioni. Em linhas gerais, numa partida de basquete, um duelo individual costuma ser só uma de diversas peças de um grande embate no plano geral. As chispas entre Marcus e Chapu, porém, tiveram significado especial. Primeiro porque pudemos ver o ala do Basquete Cearense cumprir em quadra aquilo que muita gente imaginava que ele pudesse fazer há anos. Anos, e não apenas desde o NBB6 e seu ótimo campeonato nacional por Mogi. Marcus é um ala-pivô combativo desde sempre, ganhando cancha nas divisões menores da Espanha e também na Liga ACB, até aprender a canalizar toda sua inesgotável energia de um modo mais eficiente na defesa. Foi o que fez contra um craque como Nocioni — e levou a melhor. O veterano argentino, aliás, experimentou de seu próprio veneno.

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Geralmente cabe ao campeão olímpico a posição de intimidador/agressor. Dessa vez, ele foi a vítima, ficando evidentemente surpreso e incomodado pelos seguidos desarmes de Marcus, a ponto de, no último deles, já no terceiro quarto, reclamar horrores com a arbitragem e ser excluído com cinco faltas e duas técnicas. Por essas e outras, Marcus precisa ser considerado a cada convocação. Você nunca chama apenas 12 atletas. Vai reunir um grupo, fazer cortes e, diante do que vê em treino, define seu grupo. Nem todo mundo que for para o banco vai ter um grande papel, volume de jogo e muitas oportunidades de arremesso. Para encontrar um equilíbrio, existem os operários. Está aqui um que pode ser muito valioso, a ponto de tirar, literalmente, um Nocioni do jogo. Sua importância foi muito além dos seis pontos (todos no primeiro quarto) e dois rebotes.

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Marcus entendeu rapidamente — e apreciou, naturalmente — qual era a natureza desse (coff, coff!) amistoso. Brasil e Argentina, para variar, fizeram um jogo muito físico. Ao todo, foram batidos  44 lances livres, com 24 para os hermanos. Esse combate vigoroso partiu muito muito mais da seleção de Rubén Magnano, talvez frustrada por ter sido oprimida na véspera pelo Canadá, e também por vir de duas derrotas. A pegada defensiva esteve até mesmo num nível acima do Pan, forçando 14 turnovers por parte dos argentinos, compensando a derrota nos rebotes (35 a 29).

Ricardo Fischer era outro exemplo claro essa atitude, mordendo a barra dos calções de Laprovíttola e Richotti, de um modo que deu gosto de ver. O armador do Bauru era mais baixo e menos veloz que os dois oponentes, mas isso não o impediu de fazer excelente papel defensivo, e não só por uma questão de agressividade. Ele se movimentou muito bem lateralmente, com um jogo de pés ágil e impressionante, algo que ele já usa tão bem no ataque. Se formos pensar, Fischer não é um jogador explosivo. Mas, pela inteligência e fundamentos, ele consegue levar seu time adiante no NBB, chegando aonde quer em quadra. Aos poucos, com a extensa bagagem que vai carregando nesta Copa Tuto Marchand, percebe-se que está se ajustando ao nível de competição em seleções e vai produzindo.

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Contra a Argentina, Fischer atacou muito mais a partir da linha de três, mantendo a bola viva com seu drible bem controlado e matando tiros em flutuação, mesmo sem ter por muito tempo a companhia de Augusto Lima, o tipo de pivô que facilita a vida do armador com seus cortes para a cesta, atraindo a defesa. O jogador do Murcia ficou limitado por faltas, cometendo quatro em 16 minutos. Na defesa, quem apareceu para cobrir Augusto foi Rafael Mineiro, um jogador que, sinto, não recebe o devido valor por estas bandas. Você não encontra todo dia um jogador com sua altura e mobilidade. Essa mobilidade pode não ser muito explorada no ataque da seleção (às vezes até mesmo por hesitação do próprio atleta, uma vez que me parece que Magnano tem confiança na sua habilidade para atacar vindo do perímetro). Na defesa, porém, ele vem sendo extremamente útil na defesa, para fechar espaços e acertar a cobertura.

Outros jogadores que não vinham tendo sucesso nesta semana em Porto Rico e renderam bem mais ao mudar a abordagem ofensiva contra a Argentina: Leo Meindl, muito bem nos oito minutos que recebeu no primeiro tempo, forçando inclusive um pedido de tempo de um Sergio Hernández pasmo com suas infiltrações pelo centro da defesa, e Guilherme Giovannoni, que primeiro atacou perto da cesta, correndo para valer em transição, para depois usar o chute de fora (fundamento que mais uma vez deixou a desejar do ponto de vista coletivo, com 33% de acerto, em 5-15).

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Não dá para negar que, entre os três primeiros adversários em San Juan, a Argentina é a que tem a capacidade atlética mais reduzida, de modo que o Brasil conseguiu se impor nessa esfera. De qualquer forma, observando essa atual formação de Hernández, percebe-se aqui e ali alguns jogadores que elevam o padrão habitual da seleção dos últimos anos. Nícolas Richotti já faz sucesso com suas arrancadas pela Liga ACB, então não é uma surpresa. O destaque aqui fica para os jovens alas Patrício Garino, da Universidade de George Washington, um excelente defensor, e Gabriel Deck, sensação nas competições de base da Fiba como um ala-pivô técnico, mas baixo e lento, e que reinventou seu jogo no adulto. São dois caras que vamos ver por anos e anos nas competições continentais.

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Magnano deu uma enxugada em sua rotação nesta terça, mesmo sendo o terceiro jogo em três noites. Sinal do que vem por aí? Danilo Fuzaro não foi para o jogo, assim como Olivinha. Meindl recebeu oito minutos e Marcus ficou com 16. Deryk, muito tímido com a bola, ganhou apenas cinco. Rafael Luz mais uma vez não se fardou. Esperemos que ele esteja bem para a Copa América, e que não seja nada além de medida cautelar da comissão técnica. Mesmo sem jogar, Olivinha dava sua contribuição em termos de animação no banco de reservas. Quando Marcus forçou a quarta falta de Nocioni, após um desarme, o ala-pivô do Flamenguista quase invadiu a quadra para cumprimentar o companheiro. Mesmo que, em teoria, eles sejam concorrentes.

O bacana foi ver novamente a pontuação distribuída, com quatro jogadores em duplos dígitos, liderados por um João Paulo Batista sempre eficiente (15 pontos, 56% de quadra e 5-5 nos lances livres). Da turma que foi para quadra, só Deryk ficou zerado, errando seus dois únicos arremessos, ambos de três.

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Todo paz e a mor com as câmeras de TV, o que é algo chocante, Magnano, pela primeira vez, censurou uma transmissão de TV contra a Argentina. Num determinado momento do quarto período, os adversários ensaiavam uma reação, e ele chamou tempo. Na hora de rabiscar uma jogada na prancheta, percebeu o que estava fazendo e, discretamente, se deslocou na rodinha para colocar seu traseiro de frente para as câmeras. Não era um gesto de ostentação, fiquem tranquilos. Ele só não queria que a concorrência tivesse acesso àquela jogada específica. A preocupação com esse trâmite era tanta que a instrução foi para que os atletas nem mesmo chamassem a jogada em quadra, para não dar bandeira. Jogos secretos, a gente se vê por aí.

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Por fim, reproduzo uma observação do narrador Álvaro Martín, da Fiba e da ESPN, sobre Magnano, que é algo que estamos realmente testemunhando mais vezes neste giro: o argentino tem por vezes deixado os pedidos de tempo na mão de José Neto e/ou Gustavo de Conti. De um modo geral, o treinador tem adotado postura mais leve também (sem deixar de espernear com seus atletas quando achar necessário, diga-se). Estaria o argentino preparando a transição para um mundo pós-Rio 2016? Martín falou sobre o treinador começar a se dedicar às categorias de base brasileiras, mas aí não ficou claro se era apenas especulação de sua parte ou resultado de conversas durante a semana. Magnano tem vocação para lidar com garotos e fez isso constantemente quando técnico da geração dourada de nossos vizinhos. Lembro muito bem de um Sul-Americano Sub-19 em Ancud, no Chile, em 2004, para o qual ele chegou durante a competição e, na hora da disputa por medalhas (e vaga na Copa América), rendeu um de seus assistentes para assumir o comando do time. Estava sempre perto das canteras, tal como faz Óscar Tabárez no futebol uruguaio. A ver.


Canadá vence Brasil com autoridade. Notas sobre o amistoso
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Giancarlo Giampietro

Andrew Nicholson, um dos nove jogadores de NBA nesta seleção candense

Andrew Nicholson, um dos nove jogadores de NBA nesta seleção candense

A lógica de ontem ainda se aplica: é apenas um amistoso. Dessa vez Rafael Luz nem foi relacionado. O Brasil novamente jogou sem energia. Mas são partidas que, ainda assim, nos apontam dicas, caminhos. E, com o perdão do tom apocalíptico, os indícios que a vitória tranquila do Canadá, por 80 a 64, nesta segunda-feira nos deu são do chumbo grosso que vem por aí em futuros duelos com os americanos do extremo norte do continente.

Fica até difícil de avaliar. A seleção brasileira mais uma vez não conseguiu igualar a intensidade ou a movimentação de semanas atrás. Por outro lado, essa impressão de morosidade talvez seja mero consequência da capacidade atlética impressionante que o time de Jay Triano tem em quadra e como ela se traduziu especialmente para a defesa, complicando as linhas de passe e contestando os tiros exteriores brasileiros. Em diversos momentos, sinceramente, a impressão era de que os rapazes de Magnano pareciam um conjunto master.

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Além disso, a questão aqui também pode ser outra: a qualidade dos adversários aumentou consideravelmente em relação a Toronto, e é natural que as coisas fiquem bem mais difíceis para os campeões pan-americanos. De toda maneira, é fato de que eles ainda não estão jogando com aquela mesma alegria. Que seja algo programado e natural, por serem apenas jogos preparatórios. Quando a Copa América se iniciar, além de vagas olímpicas para a concorrência, o que estará valendo é um título. Vale a pena brigar por ele.

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Voltando a essa coisa de chumbo grosso canadense. Antes de mais nada, estou ciente de que, além de a partida não ser oficial, o Brasil poderia contar com um outro reforço em sua escalação, pensando nos Jogos Olímpicos. De qualquer forma, não é que os veteranos sobre os quais estamos falando terão vida muito longa na equipe. A base hoje em atividade deve compor o núcleo do próximo ciclo olímpico. E o mesmo vale para o Canadá, que tem apenas Carl English como um atleta que tem linha curta em sua trajetória pela equipe nacional.

Mais: além de jovens, o que o Canadá tem é quantidade, já prenunciada pela invasão que protagoniza neste momento em todos os níveis do basquete dos Estados Unidos. Colegiais, universitários e profissionais: eles estão chegando aos montes, e aí nem mesmo o mais rabugento poderá rosnar contra a grife NBA que a equipe carrega. Os cinco titulares em San Juan, por sinal, vêm de lá: Cory Joseph, Nik Stauskas, Andrew Wiggins, Andrew Nicholson e Anthony Bennett. Outros dois vieram do banco: Robert Sacre e Melvin Ejim (*este com o asterisco de contrato de training camp). Kelly Olynyk, que contundiu o joelho contra a Argentina, nem se fardou. Dois ou três desses caras podem não parecer nada demais. Mas a safra do país é vasta. Eles têm volume para compensar qualquer dúvida, e a produção da base dá a entender que não se trata de acaso.

A vitória contra o Brasil sublinha a invasão. Dwight Powell — que se mostra produtivo praticamente toda santa vez que recebe minutos, aliás — dominou o primeiro quarto. No terceiro, Anthony Bennett exibiu seu arsenal ofensivo bastante versificado, que ajuda a explicar sua seleção como número um de Draft. Depois, no quarto, com a vitória já selada, e Magnano experimentando uma zona contra a rapaziada, foi a vez de o chutador Brady Heslip queimar o barbante. Powell, um pivô muito atlético e físico, terminou com 18 pontos e 8 rebotes em 17min52s, batendo um total de 13 lances livres. Bennett anotou 16 pontos em menos de 15 minutos, sendo 11 deles na volta do intervalo, matando praticamente tudo: as duas tentativas de três, chutes em flutuação e ganchos no garrafão. Heslip guardou 15 pontos.

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Tenho uma entrevista com Kelly Olynyk para desovar aqui, nesta semana, quando poderemos refletir mais sobre o assunto. Pensando na Copa América de logo mais no México, talvez a grande esperança de Argentina, República Dominicana, Porto Rico e até mesmo dos anfitriões seja que a equipe canadense sinta a pressão. Eles são jovens, bem jovens, e realmente inexperientes nesse tipo de situação. Como a geração Nenê, mesmo, pode nos dizer, o jogo de seleções é outra realidade (até mesmo com outras regras, dãr), principalmente no caso daqueles que se importam, que entram em quadra com o coração batendo de um jeito diferente.

Se esses caras mantiverem a compostura, vai ser muito difícil de derrubá-los, até pela versatilidade de seu elenco. Num jogo mais pesado, Sacre e Powell não vão afinar. Bennett está cheio de confiança e será um problema para qualquer defesa. Nicholson abre para chutar. Artilharia de três não falta, por sinal, com Heslip, Stauskas, o armador reserva Phil Scrubb e até mesmo Joseph (31,4% em sua carreira na NBA, mas 36,4% na temporada passada, e numa distância maior). Joseph também exerce visível influência sobre os companheiros. É o líder emocional da equipe. E ainda nem falamos do garoto Wiggins, que ainda está aprendendo o jogo e vai sofrer um pouco em termos de macetes da arbitragem Fiba, mas é uma maravilha atlética, capaz de lances surpreendentes e de incomodar muito na defesa individual e nas linhas de passe.

Atleticamente, eles foram dominantes contra os brasileiros, e não há o que discutir. Nos rebotes, tiveram vantagem de 43 a  24. Um espanco, já diria o Mauricio Bonato. Assim como fez Porto Rico na véspera, não permitiram que a transição brasileira funcionasse. Sabe quantos pontos de contragolpe tomaram? Nenhum. Para fechar, limitaram o oponente a apenas 39% nos arremessos e 4-17 nos chutes de longa distância. A seleção de arremessos brasileira não foi equivocada. Não teve forçada de barra. Eles simplesmente não encontraram uma zona de conforto em quadra.

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Nos petardos de fora, faz falta o fator tático que é Hettsheimeir, sem dúvida. Mas não é só isso. Nesses amistosos, a seleção vai se dando conta de que não pode depender tanto do volume exterior para pontuar. Está muito claro que Triano e Pitino estudaram bem o time de Magnano depois do Pan e armaram suas defesas de modo que o arremesso exterior fosse varrido do mapa. Vitor Benite (0-5) é o principal alvo, logicamente, sendo sufocado em sua movimentação fora da bola.O ex-flamenguista tem recursos para criar a partir do drible, mas sua eficiência tende a diminuir nessas situações. Ainda assim, o armador foi o único a conseguir criar jogadas por conta própria contra a fortíssima retaguarda canadense ao por a bola em quadra. (13 pontos em 28 minutos, com 6-15 nos arremessos, mais 3 assistências e nenhum turnover). Marquinhos, Meindl e os armadores precisam agredir um pouco mais e, a partir do drible, fazer a bola rodar em busca de bons arremessos.

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Em termos atléticos, Augusto foi o único que pareceu não se incomodar com o que via do outro lado (17 pontos, 6 rebotes, 2 tocos e 8 lances livres batidos em 24 minutos). Dá realmente gosto de ver sua desenvoltura em quadra e o quanto cresceu nos últimos anos. O próximo passo é refinar o chute de média distância e desenvolver um movimento mais seguro quando perto da cesta, de costas.


Boi na linha: as novas espanadas de Magnano após pedidos de dispensa
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Giancarlo Giampietro

Ruben Magnano, Brasil, CBB, técnico, seleção

Deu boi na linha, gente. Como sempre.

Depois da conquista do Pan e de um breve momento para respiro — e alívio — pela vaga olímpica, a seleção brasileira reuniria a turma campeã para encarar uma Copa América muito interessante, pelo simples fato de esse time poder ser testado contra adversários muito mais fortes, jogando sem pressão alguma.

O grupo não será o mesmo, todavia, devido ao pedido de dispensa de Larry Taylor e Rafael Hettsheimeir. Sinceramente, não via problema algum em relação a esses desfalques. Afinal, Rubén Magnano já deve saber, nos mínimos detalhes, o que o armador do Mogi e o pivô do Bauru podem oferecer, ou não, à seleção. Já foram testados, avaliados nos mais diversos níveis. Além disso, era a chance de ver em ação Deryk, Danilo e talvez mais algum jovem pivô, quiçá Lucas Mariano — o que não aconteceu, com a convocação um tanto deslocada de Giovannoni.

Acontece que, para o treinador, a saída dos atletas não pegou nada bem. Em entrevista ao repórter André Sender, da Gazeta Esportiva, o argentino voltou a espanar ao lidar com um tópico recorrente na hora de se montar a equipe nacional. Não bastava ele se dizer “surpreso'' uma vez, por exemplo. Não, em suas palavras, ele ficou “muito, muuuuuuito surpreso'' com o que aconteceu. Não é a primeira vez que ouvimos essa história, e nem mesmo a segunda. Está mais para quinta, sexta vez em que atletas e clubes dão uma versão e o treinador e a seleção, outra.

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Nessa história toda, ao conflitar todos os discursos, o que fica claro em meio à confusão é que falham todos.

Os clubes não ajudam, de fato. Se há o interesse de segurar um jogador, recém-contratado ou não, jovem ou veterano, qual o problema de expressar isso à confederação, ao treinador ou ao seu torcedor? Como no caso de Mogi e Larry. O armador tinha uma contusão para ser tratada, e o clube alega que queria supervisionar o processo, embora a comissão técnica da CBB diga que não fosse nada grave — ele já está jogando normalmente pelo Campeonato Paulista, aliás. Por que esperar o fogo cruzado de críticas públicas do treinador da seleção e a matéria do companheiro Fábio Aleixo, aqui do UOL Esporte, para, aí, emitir nota oficial tentando explicar o que estava acontecendo? A apuração de Aleixo também indica que o clube também estava um tanto ansioso para colocar o norte-americano, uma grande contratação, em quadra. Numa temporada muito longa de seleções, com Pan e Copa América, não deixa de ser compreensível esse anseio. É a mesma discussão que, no futebol, acontece mensalmente a cada convocação de Dunga, gente.

Sabemos bem que o ato de se pedir dispensa da seleção brasileira é um tema ainda bizarramente espinhoso no basquete nacional. Nesse contexto, se o clube tinha alguma preocupação em preservar a imagem de seu jogador, deveria ter se antecipado e assumido essa bronca. Não fizeram, e, depois da ofensiva de Magnano, Larry se sentiu impelido a esclarecer que não foi sua a decisão pelo desligamento e que estava “triste'' por isso. “O clube pediu para eu me tratar lá. Fiquei triste, pois era uma coisa que não queria ter feito. É um direito do clube. Por mim eu teria continuado lá. Mas acabou se criando esta situação. Conversei com o Magnano e com a comissão técnica e disse que queriam que eu voltasse para Mogi'', afirmou.

Larry Taylor, Mogi, reforço, NBB

Da parte dos jogadores, de todo modo, também falta transparência e firmeza, convenhamos. Larry, mesmo, poderia ter aberto o jogo antes, embora estivesse numa situação delicada em relação ao clube, sendo o elo mais fraco da história. No caso de Rafael, apenas uma nota oficial, sem maiores detalhes, foi emitida pelo atleta quando ele optou por abrir mão da convocação. Soube, depois, que o pivô tinha uma questão particular, de saúde particular, para ser resolvida, que realmente demandava sua seleção para além dos treinos com a seleção ou um eventual teste para um clube da NBA de que fala Magnano, forçando sua estadia em Bauru.

O que não impediu que o treinador da seleção desse sua alfinetada. “Ainda estou esperando uma resposta, uma ligação, sobre a situação. Ele disse que faria um teste na NBA, mas ainda não deu respostas porque perguntei ‘quando é essa prova? Onde é essa prova?’ para tentar coordenar a possibilidade de ele voltar e jogar a Copa América”, relatou o técnico. Ao que o pivô respondeu: “Já conversei com o técnico e expliquei minha situação. A dispensa foi por motivos pessoais e já acertei isso com ele'', disse o pivô, via comunicado, à Gazeta.

Uma fonte próxima dessa situação assegura que o argentino tinha total ciência sobre os motivos para Hettsheimeir dizer que não poderia jogar o torneio continental e que, com suas declarações, estaria “jogando para a torcida''. Ele não estaria necessariamente mentindo, mas omitindo algumas informações em seu discurso para mandar seu recado aos atletas e à nação — e até para manter uma certa coerência com a chiadeira de verões passados. São os ecos de 2013, quando o argentino cuspiu marimbondos depois de campanha vexatória pela Copa América. Na ocasião, generalizou em seu desabafo e acabou atingindo muita gente.

Se Magnano se sentia obrigado a reforçar a mensagem de comprometimento com a seleção, especialmente a um ano das Olimpíadas em casa, talvez houvesse outro meio de fazê-lo. E aí chegamos à CBB, que, supõe-se, deve estar a par do desgosto de seu treinador pelas dispensas e de sua necessidade de se posicionar a respeito. Nesse caso, a entidade não poderia ter assumido o controle do processo e externado essa preocupação e lamentação, mas por outros canais, de preferência mais diplomáticos?

Hã… Sim, claro. Mas esta é a CBB, mesmo. A confederação desacreditada e endividada que não sabe o que é assumir uma posição firme há tempos. Além do mais, internamente, não há quem possa peitar Magnano por lá. E aí o argentino volta a roubar a cena, mas não do modo como o basquete brasileiro espera.


Porto Rico vence Brasil: notas sobre o amistoso
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Giancarlo Giampietro

Balkman, sempre dando trabalho à defesa brasileira

Balkman, sempre dando trabalho à defesa brasileira

A Copa Tuto Marchand é um evento meio estranho. Tem estatísticas da Fiba, nome de torneio, banca de oficial, mas não passa de um conjunto de amistosos que serve para seus participantes dar uma espiada nos adversários às vésperas de uma Copa América, embora todos saibam que nem tudo está sendo mostrado. Só uma coisa ou outra. Pegue a partida entre Brasil e Porto Rico pela primeira rodada desta edição 2015, neste domingo. Em um pedido de tempo no quarto período, com o jogo praticamente descarrilado já, Rubén Magnano abriu espaço para Gustavo de Conti passar uma jogada. Planejaram uma conexão direta em ponte aérea. O tipo de jogada para buscar uma cesta decisiva ao final da partida. Não deu certo, mas era uma cartada ali.

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Esse é um exemplo de situação que mostra como essas partidas em San Juan não devem ser levadas muito a sério, e não só pelo fato de a seleção ter sido derrotada pelo time da casa por 79 a 66. De qualquer forma, os jogos apresentam alguns indícios. Sem TV para registrar os acontecimentos, o canal oficial para se acompanhar o torneio é a LiveBasketball.TV, pagando por assinatura. Com base no que pudemos ver contra os porto-riquenhos, seguem algumas notas.

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Foi uma partida beeeem diferente em relação ao que aconteceu no Pan-Americano. Porto Rico jogou com muito mais pegada e estrutura, já devidamente influenciado por Rick Pitino. Imagino o célebre técnico da Universidade de Louisville tenha usado a surra histórica que a equipe tomou em Toronto a seu favor para pilhar seus atletas — e também para amainar um pouco o orgulho ferido. Os brasileiros conseguiram fazer apenas três pontos de contra-ataque, diante de uma defesa em transição muito atenta. Foi claramente uma prioridade para o treinador que é um mestre nesse tipo de lance.

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É preciso dizer que, a despeito do desfalque de José Juan Barea, John Holland e Maurice Harkless — supostamente o trio titular no perímetro –, esta já era uma seleção porto-riquenha também distinta daquela de semanas atrás, especialmente pela presença sempre energética de Renaldo Balkman no quinteto titular. O cabeleira é uma figura muito influente quando o basquete Fiba está em quadra.

Balkman deu muito trabalho a qualquer defensor que estivesse à sua frente. Com agilidade e vigor, passou facilmente por Giovannoni e Olivinha, para acumular 16 pontos, 4 rebotes, 3 assistências, 2 roubos de bola e 2 tocos em 26 minutos, batendo seis lances livres. Ele basicamente fez o que quis em quadra, iludindo os brasileiros com fintas para um chute suspeito do perímetro. Botava a bola no chão, e aí era um abraço, com ataques rápidos em direção à cesta. Fora da rotação, Marcus Toledo não teve a chance de bater de frente com o veterano. Seria um duelo muito interessante.

Esse aspecto de rapidez e velocidade chamou a atenção: mesmo quando o ala-pivô ex-Knicks e Nuggets estava no banco, os caribenhos em geral tiveram o time mais leve em ação, com Devon Collier e Ramon Clemente também prevalecendo em seus movimentos. Concentrando-se em propósitos defensivos, é provável que Rafael Mineiro tenha de ficar mais tempo em quadra durante a Copa América, ao lado de Augusto.

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Augusto Lima, do outro lado da quadra, fez das suas. Sem Daniel Santiago e Peter John Ramos, Porto Rico tem alas-pivôs móveis, mas pode enfrentar dificuldade na hora de proteger a cesta na busca por uma vaga olímpica, pelo menos a julgar por esta partida. Tanto o pivô do Murcia, extremamente atlético e voluntarioso, como JP Batista, mais lento, mas inteligente em seus cortes e com excelente munheca, se deslocaram muito bem pela área pintada e pontuaram com eficiência perto da tabela, enfrentando pouca resistência na cobertura. Foram 14 pontos e 4 rebotes ofensivos para Augusto, em 17 minutos (6-11 de FG) e 18 pontos em 20 minutos para João Paulo (com 8-12). Foram os dois jogadores mais lúcidos do Brasil.

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Os dois pivôs brasileiros tiveram atuação eficiente e arriscaram juntos 35% dos arremessos da seleção e tiveram boa assessoria da turma de fora.  No geral, porém, o time não movimentou bem a bola. Foi um nível bem abaixo de rapidez em relação ao que vimos em Toronto, isso é certo. E aqui não estamos falando só de contra-ataque, de transição. Mas de ritmo de jogo, mesmo, de movimentação de bola. É nesses detalhes — e, não, nos números — que vocês devem notar a diferença que um armador com a cancha e vocação de passe de Rafael Luz pode fazer, gente.

Parte disso se justifica pela postura mais combativa dos caribenhos, claro. Outra parte da resposta vem do fato de Magnano ter promovido uma rotação claramente alternativa, na qual Rafael jogou apenas oito minutos, Benite ficou com 17, enquanto os caçulas Deryk Ramos e Danilo Siqueira jogaram, respectivamente, 15 e 16 minutos. Mas por vezes os atletas parecem muito acomodados e confiantes em dar a bola para Marquinhos e deixar o veterano ala resolver as coisas em jogadas individuais. Isso já havia acontecido bastante nos amistosos em Brasília e não é saudável.

Não que o ala flamenguista não tenha bola para isso. É difícil encontrar um marcador no mundo Fiba que consiga freá-lo quando ataca a cesta. De toda forma, quando servido em movimento, em progressão em direção ao aro, ele fica ainda mais perigoso. Essa é uma opção para finais de jogada, lances mais apertados, claro. Talvez a preocupação aqui seja dar mais ritmo a Marquinhos, que está voltando de férias. Não à toa, foi o brasileiro que mais jogou, com 27 minutos (sete a mais que JP). Quando o torneio para valer começar, espera-se que o ala esteja mais entrosado e afiado. Com seu pacote de mobilidade, altura, visão de quadra e habilidade, é uma peça mais que bem-vinda, que cai como uma luva, caso a equipe repita o padrão de jogo que a levou à conquista do ouro na metrópole canadense.

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Outro ponto a ser considerado no ataque: , Giovannoni, Olivinha e Marquinhos vão precisar acertar seus disparos ou ao menos representar alguma ameaça nesse sentido. Do contrário, o espaçamento de quadra vai para o buraco, e os ângulos de infiltração serão tapados. De modo que as defesas poderão se dedicar muito mais à fiscalização de Benite, deslocando adversários para cobrir sua trilha longe da bola. Goste-se ou não de ver Rafael Hettsheimeir chutando de três pontos, o fato é que um pivô com chute hoje faz parte integral do plano tático de Magnano.

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Entre os mais jovens, Danilo teve seus momentos. Sua primeira passada é algo que pode ser explorado mais em movimentações fora da bola, ou em ataques após as tradicionais parábolas pelo fundo da quadra. Pode render bem como reserva de Benite, mostrando visão de jogo para distribuir a bola. Deryk foi um pouco mais comedido. Melhorou bem no segundo tempo, procurou buscar a bola em rebotes longos para tentar dar um pouco mais de velocidade à transição ofensiva, mas não conseguiu quebrar a primeira linha defensiva de Porto Rico, terminando com quatro assistências e quatro turnovers. Merece mais chances, de qualquer forma, contra Canadá e Argentina.

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No primeiro jogo da noite, a jovem seleção canadense, cercada de imensa expectativa, venceu os argentinos por por 85 a 80. Foi também um duelo de altos e baixos. Facundo Campazzo  ficou fora de um lado e Corey Joseph do outro. Sem o tampinha, a equipe de Sergio Hernández perde em velocidade e criatividade, dependendo ainda mais dos veteranos e infalíveis Scola e Nocioni. Os campeões olímpicos marcaram 23 pontos cada, em 57 minutos. Nicolás Laprovíttola anotou 16 pontos e deu 4 assistências, em 31 minutos. O caminho para os hermanos é ter o barbudo ex-Fla, agora no Lietuvos Rytas, ao lado de Campazzo. Do lado do Canadá, a linha de frente titular teve Anthony Bennett, que fez ótimo Pan, ao lado de Kelly Olynyk, o jogador de NBA deles mais experiente em competições Fiba. Andrew Wiggins marcou 18 pontos em 26 minutos.