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Duelo com a Sérvia escancara buraco na base brasileira
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Giancarlo Giampietro

Raduljica, sete anos depois, volta a enfrentar Brasil no mata-mata

Raduljica, sete anos depois, volta a enfrentar Brasil no mata-mata

Quando a bola subir na quarta-feira, pelas quartas de final da Copa do Mundo, não será a primeira vez que o armador Stefan Markovic e o pivô Miroslav Raduljica vão enfrentar o Brasil num mata-mata de torneio Fiba. Sete anos atrás, ainda adolescentes, no Mundial Sub-19 eles levaram a melhor contra em uma semifinal que acabou em vitória tranquila dos balcânicos, 89 a 74.

Para quem clicou imediatamente no link acima, já deu para ver os dois ficaram, respectivamente, 26 e 23 minutos, em quadra, contribuindo com 12 pontos, 7 assistências e 6 rebotes. Números regulares. Mas vale o destaque, mesmo, estatístico daquele jogo é a quantidade de brasileiros presentes na seleção nacional que derrubou a Argentina no domingo passado: 0. Isso mesmo: ze-ro.

José Neto está na seleção principal em 2014. Dos garotos, poucos chegaram perto

José Neto está na seleção principal em 2014. Dos garotos, poucos chegaram perto

Quer dizer, se formos considerar o assistente técnico José Neto, temos ao menos um – ele era o treinador daquele time. Daquela geração era de 1988-89, dos quais foram pinçados os 12 representantes para aquela campanha (?) histórica, hoje todos eles com 25 e 26 anos,  nenhum jogador conseguiu se desenvolver a ponto de entrar na lista final de Rubén Magnano para competir por uma medalha na Espanha.

Quem chegou mais perto disso foi o ala-pivô Rafael Mineiro, que disputou o Campeonato Sul-Americano deste ano, como peça integral da rotação, com médias de 6,2 pontos e 4,8 rebotes. Da seleção B, Raulzinho e Rafael Hettsheimeir foram chamados para compor o grupo principal.

Embora não tenha conseguido dar o grande salto, o talentoso Mineiro é um caro caso de atleta que conseguiu alguma continuidade em sua carreira internacional desde o Mundial Sub-19. Desde, então, ao menos conseguiu jogar três Sul-Americanos, mais que o grande nome daquela categoria: Paulão Prestes. O pivô participou só de um Sul-Americano – ironicamente, em 2006, anterior ao torneio de base. Os problemas físicos de Paulão estão bem documentados, guiando uma trajetória de altos e baixos. Foi muito bem cotado na Espanha, acabou draftado pelo Minnesota Timberwolves (algo muito difícil e não pode se perder de perspectiva), mas se lesionou demais e teve problemas com a balança. Chegou a ser pré-convocado por Magnano em duas ocasiões e hoje é a grande aposta do Mogi, ao lado de Shamell.

De resto, temos o ala Betinho em São José, com média de 13,6 pontos, 2,0 assistências e 32,5% nos três pontos em sua carreira no NBB, o ala-pivô Rodrigo César no Uberlândia e o pivô Romário no Macaé. Outro que chega ao NBB agora é o armador Carlos Cobos, de dupla nacionalidade (Espanha e Brasil), criado na base do Unicaja Málaga ao lado de Paulão, e que também não conseguiu se firmar na Liga ACB. Ele acabou de acertar com o Franca de Lula Ferreira, que ao menos vai fazendo esse trabalho de prospeção, tentando recuperar alguns dos garotos espalhados por aí.

Contando: foram citados, então, seis atletas daquele time sub-19, 50%. O restante, para termos uma ideia, é até difícil de rastrear. Luiz Gomes, que hoje é um dos motores por trás do Mondo Basquete – um site bem bacana para você visitar –, fez esse trabalho hercúleo no ano passado, já constando uma geração verdadeiramente perdida.

Thomas Melazzo, fora do basquete

Thomas Melazzo, fora do basquete

Cauê Freias, autor da cesta da vitória contra a Austrália de Patty Mills nas quartas de final, e Bruno Ferreira, o Biro, estão no Caxias do Sul e devem disputar a Liga Ouro, Segunda Divisão do NBB. Houve quem tenha parado e largado o esporte: o ala Thomas Melazzo, que tinha um potencial absurdo, hoje é personal trainer, aparentemente vivendo em Salt Lake City, terra do Utah Jazz. Se alguém souber do paradeiro dos demais, por favor, caixa de comentários aberta abaixo.

Dia desses, no Twitter, o mesmo Luiz Gomes estava especulando a respeito, apontando algumas promessas  de então e hoje na elite. Muitos deles classificados para os mata-matas de uma Copa do Mundo, na elite. A Sérvia já escalou o ala-pivôs Marko Keselj e Milan Macvan na fase decisiva do Mundial de 2010, para se ter uma ideia. No time de hoje, tem Markovic e Raduljica e ainda conta com mais cinco jogadores que teriam idade para disputar aquele torneio, mas só ganhariam visibilidade mais tarde.

Já a França apresenta quatro nomes de seu time sub-19 que bateu o Brasil na disputa pelo bronze: o armador Antoine Diot, o ala Edwin Jackson, o pivô Kim Tillie e um certo Nicolas Batum. O pivô Alexis Ajinça certamente estaria na Copa do Mundo, não tivesse pedido dispensa. Até mesmo os Estados Unidos, com sua produção de talentos incomparável, tem um representante de 2007 aqui: Stephen Curry! Daquele elenco, destacam-se também nomes como DeAndre Jordan (Clippers), Patrick Beverley (Rockets) e Michael Beasley (Marte).

Entre os demais quadrifinalistas da Copa, para ser justo, é preciso dizer que a Espanha só tem um atleta daquela jornada: o ala Victor Claver. Lituânia e Turquia? Nenhum. A Eslovênia não havia se classificado.Mas também é preciso dizer uma coisa sobre os lituanos: sua atual seleção conta com cinco jogadores nascidos depois de 1988 (o ano-limite para inscrição naquele Mundial): Adas Juskevicius, Sarunas Vasiliauskas, Mindaugas Kuzminskas, Donatas Motiejunas e Jonas Valanciunas – os dois últimos simplesmente as maiores apostas dessa tradicional potência. Já os turcos têm três: o caçula Cedi Osman, de apenas 19, além de Furkan Aldemir (cujos direitos na NBA pertencem ao Sixers) e Baris Hersek.

Nessa categoria, de atletas de 26 anos ou mais jovens, também se enquadram os argentinos Facundo Campazzo, Nícolas Laprovíttola, Tayavek Gallizzi, Matías Bortolín e Marcos Delía. A Austrália contou com seis: Dante Exum (19), Brock Motum, Cameron Bairstow (23), Matthew Dellavedova, Ryan Broekhoff (24) e Chris Goulding (25, este convocado para aquele Mundial Sub-19). Já os Estados Unidos possuem apenas um jogador nascido antes de 88: Rudy Gay, e só.

No Brasil, com 22 anos, Raulzinho é a figura solitária. Rafael Luz acabou preterido no último corte, enquanto Augusto Lima dançou já no Sul-Americano. Uma decisão bastante sensata poupou Bruno Caboclo dessa. Já Lucas Bebê foi deixado na geladeira, depois da escapada do ano passado. Ao menos o filho do Raul vem sendo utilizado com regularidade por Rubén Magnano, contribuindo para valer hoje – e ao mesmo tempo ganhando uma experiência extremamente valiosa para o futuro. Agora, fora isso, a seleção que joga na Espanha, a mais velha do Mundial, é apenas para agora e agora.

Obviamente que a base do elenco de Magnano é fortíssima, não sobram vagas. Como acontece com a Espanha. Agora, na periferia do plantel, será que não dava para encaixar? Depois de uma vitória contra a Argentina, na iminência de um confronto com a Sérvia, pode ter gosto de chope aguado todas essas lembranças. Nesta semana, as preocupações dos envolvidos com o jogo ficam realmente direcionadas só para a quadra. Fora dela, porém, nos escritórios da CBB, o tema já deveria estar na mesa há tempos. Sem precisar que a figura até folclórica de Raduljica, nesta quarta-feira, servisse como recado.


A contribuição vibrante de Marquinhos para a seleção avançar
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Giancarlo Giampietro

Marquinhos, vibrante

Já falamos aqui de um Leandrinho que anda mais contido, e, ao mesmo tempo, mais eficiente como pontuador nesta Copa do Mundo. Não é a única mudança notada em alguns dos personagens que tentam reconduzir a seleção brasileira a um pódio neste nível de competição. Na vitória contra a Argentina neste domingo, tão comemorada,  o armador Raulzinho roubou a cena, enquanto os pivôs esmigalhavam os argentinos no garrafão. Agora, se você for reparar bem, houve outro jogador que deu contribuição importantíssima na batalha mais próxima da cesta: Marquinhos. Sim, o Marcus Vinícius Vieira de Souza, mesmo, jogador que sempre teve seu talento ressaltado por estas quadras, mas que dificilmente foi confundido por um cara vibrante.

O ala da seleção brasileira apanhou oito rebotes no triunfo pelas oitavas de final, algo bastante incomum em sua carreira. Basta olhar os números proporcionados pela Fiba para perceber isso:

Marquinhos, números do Mundial, 2014, seleção

O senhor Tuto Marchand que nos perdoe, mas recomenda-se nem dar bola para as linhas estatísticas de 2007 e 2011 do torneio que carrega seu nome. A Fiba pode assumi-lo como algo oficial, mas sua conotação é muito mais de amistoso, um quadrangular preparatório para a Copa América, do que um troféu internacional que os times participantes estejam doidos para conquistar. Em suma: o nível de competitividade diminui. Não conta. Posto isso, Marquinhos então chega às quartas do Mundial com sua maior média de rebotes em jogos internacionais: 4,8.

Para alguém de 2,07 m de altura, não é exatamente uma façanha, é verdade, mas representa um avanço sensível se comparado com suas outras campanhas. Ainda mais que sua quantidade de minutos no Mundial não anda tão elevada assim (apenas 21 por jogo). Numa projeção por 30 minutos  por partida, seu rendimento subiria para 6,8.

Marquinhos, atacando também lá dentro – ainda que a preferência da casa ainda seja os tiros de fora, mesmo: são 4 por jogo em apenas 21 minutos, mas fundamentais para espaçar a quadra e dar um pouco de liberdade para os pivôs

Marquinhos, atacando também lá dentro – ainda que a preferência da casa ainda seja os tiros de fora, mesmo: são 4 por jogo em apenas 21 minutos, mas fundamentais para espaçar a quadra e dar um pouco de liberdade para os pivôs

No NBB, a média de sua carreira é de 4,3 rebotes por jogo, mas em praticamente 33 minutos de ação. Em seu melhor ano no fundamento, apanhou 5,5 por rodada vestindo a camisa do Pinheiros em 2008-09, mas em 38 minutos – no atual ritmo pela seleção, se tivesse esse tempo de quadra, sua média subiria para 8,6 rebotes, algo impressionante.

Até porque cabe uma diferença: Marquinhos tem altura e agilidade, mas fica muito menos próximo da cesta do que um Varejão ou um Nenê, por exemplo. Em atividade pelo Flamengo, diga-se, está quase sempre com a bola nas mãos, criando no perímetro, tentando uma avalanche de arremessos de três pontos (5,1 e 5,7 nos últimos dois campeonatos). Esse posicionamento se repete na seleção, com o ala bastante aberto. – de modo que os rebotes ofensivos são praticamente impossíveis de acontecer. O que não o impede de dar apoio aos pivôs na defesa.

Contra uma Argentina que puxava seus pivôs (ou falsos pivôs, digamos) para a cabeça do garrafão e a linha de três pontos, era imperativo que Marquinhos fizesse um bom trabalho de cobertura e na briga pelas rebarbas na tabela brasileira, ainda mais brigando com gente como Andrés Nocioni e Marcos Mata, que são ferozes e oportunistas ao atacar a tábua ofensiva. O ala brasileiro segurou o tranco, com 8 rebotes em 32 minutos, assim como havia feito na estreia contra uma França igualmente desafiadora, com Batum e Gelabale, assegurando 6 rebotes em 27 minutos.

Marquinhos x Marcos Mata

Marquinhos x Marcos Mata

Ter Marquinhos – e os alas em geral – mais próximos dos pivôs é uma carência constatada há tempos na seleção. Ironicamente, foi algo que um argentino, mesmo, apontou antes do clássico deste domingo. O ex-armador argentino Pepe Sánchez, hoje comentarista, via um ruído na comunicação entre a turma de fora e os pivôs. “Em todos estes anos, o time não tem mostrado entre  o jogo interior e o perímetro. Ou é perimetral, ou é interior. Talvez agora Marquinhos esteja fazendo um pouco isso”, afirmou. Bem-vindo seja o apetite.

A tendência do majoritária do torcedor brasileiro é valorizar o ataque e do “esporte-arte”, não importando a modalidade. No basquete, isso quer dizer que os holofotes geralmente estão dedicados aos cestinhas. A enterradas de levantar a torcida, bandejas acrobáticas e, claro, arrremessos de três pontos salvadores. São lances muito bonitos, claro. Natural, então, que o jogador brasileiro em geral esteja muito mais propenso a abraçar essa causa. Jogar pelo show.

Não dá para ser chato e condenar todo e qualquer lance que se enquadre nessa linha. Nem todo mundo precisa ser Ucrânia nessa vida. Atenção também, por favor, aos termos “majoritária” e “em geral”. Obviamente há diversas exceções para serem destacadas, como um Varejão, que sempre teve tino para lutar por rebotes, perseguir armadores na defesa e trazer o caos para a quadra. Alex Garcia sempre foi um exemplo. O cavalar Marcus Toledo, do Pinheiros, o Mineiro, do Paulistano, Daniel Alemão, do Mogi, e mais, e mais, e mais. Mas, bem, sabemos que a vocação de nossa base é direcionada para o aspecto ofensivo. E, ok, vence quem acerta mais bolas numa cesta, mesmo. Só não dá para achar o esporte é feito disso, como a atual guinada vivida pela seleção na Copa do Mundo nos evidencia.

É uma equipe combativa, que vai limitando seus adversários a apenas 68 pontos por jogo. Vencendo muito mais por seu comprometimento defensivo do que por iluminação ofensiva. Para sustentar uma boa retaguarda, obviamente é importante ter princípios, coordenação, comunicação, boa análise dos adversários e muitos outros fatores. Dentre eles, porém, nada supera o empenho. Não adianta o técnico cantar tudo em treinos e ao lado da quadra durante os jogos, se os atletas não estiverem dispostos a lutar pela bola. De modo intenso, como vem sendo o gratificante caso de Marquinhos.


Raulzinho bagunça com Argentina e faz aposta de Magnano valer
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Giancarlo Giampietro

Raulzinho, celebrado pelos veteranos, com justiça

Raulzinho, celebrado pelos veteranos, com justiça

Caçulinha quem? Vamos cortar quem?

Uma das principais figuras na já memorável vitória contra a Argentina foi o atleta mais jovem de uma seleção que já está na reta final de um ciclo, Raulzinho. Lembremos que a equipe convocada por Rubén Magnano a tem a média de idade mais velha do torneio: 31 anos. Abaixo dos 30, são apenas três atletas, com Tiago Splitter (29) e Rafael Hetsheimeir (28) chegando lá. O intervalo do segundo mais jovem para o caçula do time, de 22,  é de mais de meia década, uma eternidade no basquete. Neste domingo, porém, o armador reserva jogou como gente grande, como gente formada, justificando o grande voto de confiança que recebeu de seu treinador há algumas semanas.

Raulzinho primeiro ajudou a estabilizar a defesa, tanto na contenção das infiltrações de Facundo Campazzo, como na flutuação para tirar o espaço dos arremessadores argentinos. Depois, no segundo tempo, se aproveitando das diversas posses de bola extra proporcionadas por seus pivôs, se esbaldou no ataque para chegar a incríveis 21 pontos em apenas 24min20s.

“É muita felicidade pela vitória, mas acho que nosso objetivo é maior. A gente não veio para ganhar da Argentina. Vamos chegar ao mais alto possível e tem muito campeonato pela frente”, disse o jogador. “Hoje é curtir e amanhã já pensar na Sérvia.”

Foi uma grata surpresa. Mas nem isso faz jus ao que o jogador executou em quadra, dada a tensão envolvida no confronto. Vejamos:

1) jogo de mata-mata? Sim.

2) numa Copa do Mundo? A-hã.

3) contra a Argentina, eterno capataz? Confere.

4) saindo do banco com seu time já em preocupante desvantagem? Até isso.

E o armador deu de ombros, com calma e assertividade impressionantes e determinantes para a virada brasileira. Foram dois passes para cesta apenas, mas o jogo pediu outro tipo de atuação do rapaz – a bola vindo de dentro para fora, a partir das dobras que os pivôs forçavam (Nenê, Varejão e Splitter somaram 11 das 16 assistências do time), e restava a ele matá-la. A Argentina abriu espaços, como sempre gosta de fazer com os “baixinhos” brasileiros. Dessa vez pagaram caro.  Com o filho do Raul em quadra, o Brasil venceu seu arquirrival por 25 pontos de diferença.

Raulzinho bagunçou com seus defensores, acertando de todos os cantos. Veja seu gráfico de arremessos (que a Fiba, aliás, poderia caprichar um pouco mais, né? Que tal cores diferentes?):

Dentro e fora: o caçula da seleção teve paciência para ler o que a defesa argentina oferecia e se esbaldou

Dentro e fora: o caçula da seleção caprichou na batalha naval

Se você fizer as contas entre “bolinhas” e “tracinhos” acima, temos 9 em 10 arremessos convertidos (na conta, entrariam ainda mais dois lances livres). O brasileiro teve paciência para ler o que a defesa argentina lhe oferecia e se esbaldou a partir daí. Reparem que foram cestas de curta, média e longa distância. E mais: mesmo sendo agressivo buscando a cesta, ele não cometeu sequer um desperdício de posse de bola em seus 24 minutos. Diante de uma produção dessas, não havia como Marcelinho Huertas voltar para quadra, mesmo (15 minutos para o titular, nenhum ponto e nenhuma assistência).

Ao olhar as estatísticas de seu atleta mais jovem e o gráfico de arremessos acima, Magnano deve sorrir confortavelmente, e com orgulho também. “Raul estava preparado. Eu sabia que poderia contar com ele”, afirmou o técnico. “Senti muita confiança no arremesso. Tive oportunidades, e fui capaz de aproveitá-las”, respondeu o jogador.

Há questão de semanas, quando definiu o grupo para a Copa do Mundo, o argentino foi bastante contestado por optar pelo corte de Rafael Luz. Considerava as críticas cabíveis, considerando o quão bem o outro jovem armador de sua pré-convocação se apresentou nos primeiros amistosos do time e também no Sul-Americano. Hoje, é normal que o sentimento seja de dar mão à palmatória. Obviamente que Rafael está justificando a decisão. A questão, para mim, é que a presença de um não teria de significar a exclusão do outro – ainda mais por Rafael ser bastante atlético e forte. Basta ver os minutos distribuídos pelo treinador até aqui, para se constatar. Mas essa é outra história.

Raulzinho lá dentro

Raulzinho lá dentro

As dúvidas em torno de Raul aumentaram justamente devido ao seu desempenho no torneio continental, na Venezuela. Ao lado de Luz, Hettsheimeir e Augusto Lima, era um dos atletas de que se esperava mais naquele torneio, e ele não foi muito bem. Marcou 10,2 pontos por jogo, acertou 50% dos tiros de dois pontos – a parte boa. Mas acertou apenas três em 19 arremessos de três pontos (15,8%), com mais turnovers do que assistências (12 x 11). Alguns de seus desperdícios de posse de bola aconteceram em momentos cruciais de jogos parelhos contra Argentina (final da fase de grupos) e Venezuela (semifinal). Duas derrotas. Na ocasião, o armador realmente se atrapalhou em investidas individuais, diante de oposição muito inferior ao que está habituado a enfrentar na sua precoce carreira.

Raulzinho jogou na elite brasileira, pelo Minas Tênis, de 2008 a 2011, como um adolescente. Em 2010, com 18 anos, foi convocado de modo surpreendente por Magnano para disputar seu primeiro Mundial (ficou atrás de Huertas e Nezinho na rotação). Depois, se transferiu para o fortíssimo espanhol, jogando sempre na Liga ACB, primeira divisão do país, e liga nacional mais competitiva da Europa, sendo uma figura importante do Gipuzkoa Basket, mas ainda não um protagonista do certame (médias de 7,9 pontos e 2,7 assistências na carreira).

De todo modo, são bons números para alguém tão jovem. O suficiente para reforçar sua imagem no radar da NBA e ser convidado para o Nike Hoop Summit, o adidas Eurocamp e outros eventos que reúnem a nata das revelações internacionais. Nesse processo, jogou com personalidade e conseguiu se destacar a ponto de ser draftado pelo Utah Jazz em 2013, como o 47º no geral. A franquia o tem em alta conta, mas preferiu apostar primeiro no badalado universitário Trey Burke, deixando o brasileiro com seu desenvolvimento na Europa, mesmo. Ele agora se transferiu para o Murcia, que tem bom retrospecto no trabalho com jovens, como Augusto Lima pode comprovar.

Embora não jogue a Euroliga, no Murcia ele ao menos pode continuar aproveitando um calendário reduzido de jogos para afinar suas habilidades e alargar um repertório que já pode surpreender grandes adversários.  Na temporada passada, sua maior contagem de pontos foi de 17, que marcou na penúltima rodada contra o poderoso Real Madrid. Na campanha 2012-13, conseguiu seu recorde pessoal justamente contra o outro peso pesado espanhol, o Barcelona, com 25 pontos.

Quer dizer, em jogos chamativos, ele entregou seu melhor.

Agora, fazer isso contra a Argentina? Não estava no script de muitos, não. Talvez nem do Magnano.

Mas quem vai contrariá-lo agora?

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O jogo contra o Egito parece ter dado um empurrãozinho na confiança de Raul. Contra o time mais fraco do Mundial, o armador havia acertado todos a suas sete tentativas de cesta, incluindo uma enterrada. Se considerarmos que ele errou apenas um em 10 chutes contra os argentinos, temos a seguinte marca: nos últimos dois embates, seu aproveitamento de quadra foi de 16/17 (94%).

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A melhor marca de pontos de Raulzinho pela seleção principal era de 15 pontos, contra a Venezuela, na semifinal do Sul-Americano.

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A exibição do armador foi notada pela audiência internacional:

Este é o ex-treinador e hoje analista da ESPN americana fazendo uma pegadinha com os torcedores do Utah Jazz. Dante Exum disse adeus ao Mundial com a Austrália, enquanto Raulzinho segue em frente. Hoje, o brasileiro é um jogador superior, mas não é justo comparar também: o australiano está apenas iniciando sua curva de aprendizado em basquete de alto nível. Meses atrás, estava batendo bola no colegial em seu país. Num futuro breve, devem ser companheiros de time.


O 8º dia da Copa: Grupo do Brasil 100% e milagre turco
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Giancarlo Giampietro

Os turcos vibram com virada no finzinho

Os turcos vibram com virada no finzinho

Era difícil julgar a chave de Grupo da Morte. Afinal, esse jargão implica que algum time favorito vá ficar pelo caminho, de modo precipitado, já na primeira fase de um torneio. No Grupo A da Copa do Mundo de basquete, tínhamos a superfavorita Espanha acompanhada por Brasil, França e Sérvia. Grandes times, sem dúvida. Mas aqueles que o complementavam eram o Irã, que não inspira medo, e o Egito, pior time da competição. Num cenário em que os quatro primeiros se classificavam, não havia risco, mesmo que os iranianos tenham dado trabalho aos franceses. Mesmo que não possa ser considerado mortal, as oitavas de final trataram de comprovar a força de seus candidatos. Com a classificação de Brasil e Sérvia neste domingo, os quatro classificados para o mata-matas seguem vivos nas quartas de final.

O jogo do dia: Turquia 65 x 64 Austrália
O que há de se lamentar nesta jornada foi a impossibilidade de assistir aos instantes finais deste jogo. Acontece que a partida em Barcelona atrasou bastante devido a um problema de cronômetro no ginásio. Fora minutos preciosos que acabaram levando o desfecho dramático confronto a coincidir com o primeiro quarto de Brasil x Argentina. E aqui já registro minha admiração pelos comentaristas de futebol que falam com a maior naturalidade sobre como estão com duas ou três TVs ligadas em casa, monitorando múltiplas partidas. Com basquete, não consigo.

O que a gente levanta, então, pelos relatos é que o ala multifuncional Emir Preldzic, um dos atletas mais singulares do basquete europeu, acertou uma bola de três a cinco segundos do fim, para definir uma vitória dramática e de virada. Do jeito que os mais malucos dos torcedores turcos mais gostam.  Vejam:

Os Boomers ainda tentaram um último ataque, mas Joe Ingles foi desarmado. A equipe da Oceania controlou o placar durante 30 minutos. Entrou no quarto período com quatro pontos de liderança, mas chegou a abrir 12 no primeiro tempo, fazendo bom uso de seus pivôs fortes, que conseguiram se impor mesmo contra um garrafão de respeito como turco. Mas tomaram essa adaga no final. O que não deixa de ser carma, lembrando que eles foram acusados de terem entregado um jogo para Angola, na tentativa de evitar um confronto com os Estados Unidos nas quartas. Caíram nas oitavas, mesmo, e a Turquia vai enfrentar a Lituânia.

A surpresa: Sérvia 90 x 72 Grécia
A maior prova como a chave de cima dos mata-matas da Copa do Mundo ficou muito desequilibrada. O quarto colocado do Grupo A derruba o 1º do B. Fora isso, a Grécia continua sendo um grande time e que provavelmente passaria com tranquilidade pelas oitavas se fosse pegar México (4º do D) ou Nova Zelândia (4º do C, ainda que eles tenham engrossado as coisas com a Lituânia hoje).

Bogdan-Bogdan encara defesa grega

Bogdan-Bogdan encara defesa grega

O placar acima é exagerado pelo que foi a partida. Os sérvios abriram uma senhora diferença a partir do início do quarto período, quando os helênicos passaram a jogar com aquela nuvenzinha escura sobre a cabeça. Passou a dar tudo errado para os líderes do Grupo B. Umas duas dúzias de bandejas foram perdidas, enquanto o adversário exalava confiança. Bogdan Bogdanovic (21 pontos) se soltou em quadra. Milos Teodosic (13 pontos, 5 assistências e incrível liderança positiva) está sempre solto em quadra. Mas o time todo esteve bem, com destaque também para o ala Nikola Kalinic, que nem chegou a enfrentar o Brasil durante a semana. O sérvio estrelou dois dos highlights da competição (veja mais abaixo).

O técnico Sacha Djordjevic encontrou um equilíbrio perfeito entre o jogo interior e o de perímetro, em vez de pingar insistentemente a bola no bisnagão chamado Miroslav Raduljica. O pivô está fazendo bom Mundial e anotou 16 pontos em 24 minutos hoje. Mas é muito lento e desengonçado. Se for a única via de escape do ataque, acaba travando todo o time. Mas a Sérvia soube dosar as pancadas do seu grandalhão com a habilidade dos homens de fora e fez uma das exibições mais bonitas e eficientes desta competição. Etão está nas quartas.

O que é ótimo sinal para a seleção brasileira, de alguma forma. Seu Grupo por enquanto tem 100% nos duelos de oitavas de final, com os balcânicos se juntando a Espanha e França. Desses, dois já foram derrotados pelo Brasil. A Sérvia espancou a Grécia, que havia derrotado a Argentina na última rodada da fase de grupos com certa tranquilidade.

Um causo
Vocês se lembram que, na primeira fase, o técnico Jonas Kazlauskas reclamou da virulência australiana na defesa, né? Falou em “basquete-rúgbi” até. Pois bem. A pressão que os Boomers fizeram foi só um aperitivo para o que a Lituânia enfrentaria neste domingo contra a Nova Zelândia. Os Tall Blacks não têm tantos jogadores habilidosos assim, mas em termos de intensidade e sede pela bola, poucos os igualaram nesta Copa. Depois de venceremo primeiro quarto por 23 a 9, os lituanos se comportaram com certa complacência em Barcelona, talvez acreditando que tivessem vencido a partida em 10 minutos. Nada disso.

Os neozelandeses brigaram bastante, foram tirando a diferença quarto a quarto até assumir a liderança do placar a menos de sete minutos para o fim. Ênfase em briga: não houve nenhum jogo desleal, mas o fato é que eles desceram a marreta na defesa, cometendo 28 faltas. Em uma delas, o armador Taj Webster fez um corta-luz tão duro que aparentemente causou uma fratura de costela do ala Simas Jasaitis. O lituano saiu de quadra andando, mas com muitas dores e dificuldade para respirar. Dessa vez Kazkauskas achou tudo normal. “A Nova Zelândia fez um jogo excelente”, afirmou. “Foram muito duros na defesa, mas nós vencemos o jogo”, completou. Então é isso.

O Haka – e a intensidade – de sempre dos neozelandeses

O Haka – e a intensidade – de sempre dos neozelandeses

Alguns números
48 – com os 27 pontos de Bojan no sábado e os 21 de Bogdan neste domingo, temos 48 pontos para o sobrenome Bogdanovic nas oitavas de final da Copa. Os dois alas brilharam em Madri. A diferença é que o sérvio se classificou para as quartas. Uma curiosidade: na próxima temporada, Bogdan-Bogdan vai substituir o Bojan-Bogdan no Fenerbahçe, da Turquia.

26 – pontos marcou Corey Webster na derrota da Nova Zelândia. Obviamente este não é o padrão do armador. Sua média no Mundial foi de 13,7 por jogo. Na estreia contra a Turquia, ele havia feito 22 pontos. Então dá para se ter uma ideia de que é um jogador explosivo, pronto para produzir aqui e ali. Cria bastante a partir do drible, é agressivo e forte, embora um pouco cabeça-dura na hora de soltar a bola. A despeito de seus defeitos, é de se imaginar como ele ainda não saiu do basquete neozelandês. Chegou a ficar um ano como universitário nos Estados Unidos, jogando pelos  Eagles de Lambuth (oi?), mas voltou para ser profissional em casa, aos 20. Seu irmão mais novo, Taj, joga por uma equipe mais tradicional da NCAA, Nebraska. O pai, Tony, também foi jogador.

6 – Jonas Valanciunas dominou o garrafão para a Lituânia no embate com os  Tall Blacks, que são aguerridos, mas nem tão altos assim. Foram 22 pontos e 13 rebotes (5 ofensivos, muitos deles cruciais no quarto final!) para o ainda jovem pivô lituano. Sem contar seus 35 pontos de eficiência. Mas prefiro destacar aqui as seis conversões em seis tentativas de lances livres do lituano: 100% para o grandalhão, que agora chega a 70% no campeonato. Valanciunas vai jogar com Lucas Bebê e Bruno Caboclo na próxima temporada da NBA, mas como titular absoluto do Toronto Raptors.

2 – são os países convidados (que, na verdade, pagaram um milhão de euros para participar da festa) pela Fiba que estão entre os oito melhores: Brasil e Turquia. Grécia e Finlândia foram os outros dois.

O que o Giannis Antetokounmpo fez hoje?
Num jogo de extrema pressão como esse contra os sérvios, o prodígio grego recebeu a confiança de Fotis Katsikaris, ganhando 14 minutos, e alternou bons (7 pontos, 100% de quadra) e maus momentos (4 turnovers, 4 faltas), de acordo com a idade. Ao mesmo que ainda comete bobeiras no ataque (andada ao receber a bola em movimento em direção ao aro, falta de ataque em jogada individual ao utilizar demais os braços), pode fazer um lance destes aqui:

Então, ânimo garoto! Muita coisa pela frente ainda:

Giannis chateou.

Giannis chateou.

Tuitando:

 O ala Nikola Kalinic estrela uma das de melhores jogadas do torneio na certa. De 22 anos, ele nem foi aproveitado na partida contra o Brasil pela fase de grupos. Nas oitavas, somou 12 vitórias, 4 rebotes e 2 assistências. E ainda faria isto aqui:

Mais uma falta e cesta/enterrada de Kalinic para cima dos gregos, e aí o ala abusou, subindo no aro com tudo. Lembrando a turma de:

A legenda do basquete de playground: Woody Harrelson! Digo: Billy Hoyle, craque de Homens Brancos Não Sabem Enterrar.

O armador Mantas Kalnietis, afastado do Mundial devido a um deslocamento na clavícula, assiste angustiado ao confronto entre sua Lituânia e a Nova Zelândia.


Mas o Twitter inteiro estava esperando, mesmo, por outro jogo, como demonstra o armador Rafael Luz, que poderia muito bem estar nesta Copa.


Brasil supera traumas, anula e Scola e mete 20 pontos na Argentina
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Giancarlo Giampietro

Nenê e seus comparsas dessa vez dominaram Scola, abrindo caminho para sacolada

Nenê e seus comparsas dessa vez dominaram Scola, abrindo caminho para sacolada

O começo de jogo não poderia ser mais preocupante. Luis Scola terminou o primeiro quarto com apenas dois pontos, e a Argentina estava na frente por 21 a 13, bombardeando da linha de três pontos. Então ficava aquela impressão: você tira o cabeleira do jogo e abre o perímetro. Se for brecar os tiros de fora, vai deixar o cara jogar? Como se as coisas fossem excludentes.

Hoje, Scola joga muito mais flutuando do que próximo da cesta. Segurar o velho carrasco na cabeça do garrafão e fiscalizar os arremessos eram tarefas que poderiam ser enquadradas no mesmo plano, e, quando isso passou a acontecer, o Brasil deslanchou em quadra, caminhando para uma vitória há muito tempo aguardada sobre os rivais sul-americanos em um mata-mata de respeito: 85 a 65, e a vaga nas quartas de final conquistada. A Sérvia é o próximo obstáculo, na quarta-feira.

"Wild Thing". Um dos melhores apelidos do basquete atual, fazendo justiça a um Anderson Varejão dominante nos rebotes: 5 ofensivos _ 8 pontos e 4 assistências numa grande atuação

“Wild Thing”. Um dos melhores apelidos do basquete atual, fazendo justiça a um Anderson Varejão dominante nos rebotes: 5 ofensivos _ 8 pontos e 4 assistências numa grande atuação

Na defesa e nos pormenores do jogo interno, os pivôs foram totalmente dominantes na zona pintada e seguraram o craque argentino com uma linha estatística irreconhecível: 7 pontos, 7 rebotes e 2/10 nos arremessos, mais os frustrados 3/8 nos lances livres. Além disso, Raulzinho veio do banco totalmente confiante, ignorando por completo a idade que seu RG mostra, 22 anos, caçula da equipe, marcando 17 pontos em 22 minutos, acertando 8 de 9 arremessos.

Uma revelação em quadra o armador, ajudando o Brasil a conquistar sua terceira vitória contra a Argentina em jogos em que Scola estivesse em quadra, depois de sete derrotas em nove confrontos. Os argentinos sentiram a falta de Manu Ginóbili durante todo o torneio – mas já haviam batido os brasileiros sem o genial ala-armador do Spurs antes. Dessa vez, porém, com um elenco cheio de improvisos, mesmo com o fator emocional e o retrospecto ao seu lado, não tiveram forças para lidar com a seleção brasileira.

Eles só se deram bem, mesmo, por dez minutos. No primeiro quarto, os brasileiros permitiram que os hermanos acertassem cinco bolas de fora, 15 pontos, equivalendo a 71% do escore deles. Pablo Prigioni, de uma hora para a outra, havia se transformado num Stephen Curry, acertando todos os seus chutes – terminou o primeiro tempo com 100% de quadra e 15 pontos na sua conta.  Sabemos que o veterano argentino não é tão produtivo ou arrojado assim com a bola em mãos. Nunca foi. Suas oportunidades surgiam com base na movimentação de bola de um ataque muito espalhado.

Sem referências internas, o adversário jogava com até cinco atletas flutuando. Por dez minutos e um pouco mais, a defesa brasileira simplesmente permitiu muitos chutes livres. A partir do momento em que acertou suas rotações – novamente com participação decisiva e muito mais atenta de Alex, Larry e Raulzinho – sim, o armador foi primeiro importante na defesa, para depois arrebentar no ataque, matando seus arremessos de todos os cantos. Ajudou, claro, o acúmulo de faltas de Scola também, que teve de descansar por quase todo o segundo período. Quando ele voltou, porém, sua presença não foi o suficiente para desequilibrar novamente a defesa no perímetro.

Garrafão: território brasileiro
As faltas anotadas contra Scola e sua ineficácia geral na partida foram consequências diretas do impacto dos pivôs brasileiros (mais tamanho, mais força física, mais agilidade e disposição para prevalecer no jogo sujo e nas pequenas tarefas). Splitter, Nenê e Varejão marcaram 21 pontos somados. Aí numa análise mais rasa, pode-se até pensar que foram mal, que espera-se muito mais deles, e tal cousa, e lousa, e maripousa, como diria o Alberto Helena. Mas realmente não dá para cobrar muito mais dos grandalhões, como outros números igualmente importantes atestam. Por exemplo: eles deram 11 das 16 assistências brasileiras.

O fato é que os três foram agressivos durante toda a partida e, aos poucos, com persistência e inteligência,  controlaram o garrafão – especialmente depois do intervalo. No terceiro período, a equipe nacional apanhou o dobro de rebotes ofensivos que havia obtido em toda o primeiro tempo, chegando a nove. Varejão foi o destaque aqui, atacando a tábua de ataque sem parar, atropelando um guerreiro como Andrés Nocioni no meio do caminho. O capixaba terminou cinco rebotes do lado argentino da quadra. Splitter apanhou mais três. O trio somou 21 rebotes. Para comparar, no total, a Argentina teve 26 (contra 39 do adversário). Ressalte-se aqui também os oito rebotes de Marquinhos, um fundamento que nunca foi o seu forte. O ala estava energizado.

Com mais posses de bola, oprimindo e desmoralizando a defesa argentina no jogo interno, o Brasil passou a afinar seu ataque, elevando atee mesmo sua produção nos tiros de fora, saindo de 2/11 no primeiro tempo (18,8%) para 8/18 na segunda etapa (44,4%). Outro mundo. A mínima troca de passes envolvendo os pivôs representava um desafio para os adversários, que formaram uma seleção sem envergadura e capacidade atlética. Tiveram muita dificuldade para contestar.

Depois de tomar 5 em 9 disparos até a metade do segundo quarto (55,5%), a seleção limitou seus oponentes a apenas 4 dos próximos 17 (23,5%) até que Salem Safar procurou sacudir as coisas no quarto final. Quando a vantagem brasileira já era superior a 10 pontos. Não seria o ala reserva argentino que alteraria o panorama do jogo. A essa altura, a Argentina estava basicamente rendida, sem ter a quem recorrer para fazer frente a um time muito mais atlético, sem nenhum vestígio de temor do seu lado. Dessa vez, não houve retrospecto, não Scola, nem nada que impedisse a seleção brasileira de avançar.


Desfalques, improvisos, Scola… qual Argentina encara o Brasil?
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Giancarlo Giampietro

Eles

Eles

Muita coisa pode mudar e campeonato para campeonato. Manu Ginóbili joga um, perde o outro. Carlos Delfino aparece para suprir sua ausência, dependendo da fase e da motivação. Andrés Nocioni andou um tempão afastado, mas agora está batendo cartão. Fabricio Oberto se foi há tempos, Walter Herrmann regressou. Enfim, um fluxo constante. Tudo passa, menos Luis Scola.

O argentino fez alguns jogos bem fracos pelo Indiana Pacers este ano, dando a impressão de que seus dias de matador talvez estivessem chegando ao fim. Mas nada como uma temporada com sua seleção nacional para se reenergizar. E cá está o pivô, já histórico, liderando a tabela de cestinhas do Mundial, se levarmos em conta só os que ainda estão em competição. Ele e sua seleção prontos para desafiar novamente os brasileiros, com nova configuração ao seu redor.

E aqui chegamos a um ponto muito relevante sobre a versão 2014 da Argentina. Quando falamos em desfalques, pensamos rapidamente nos nomes – Ginóbili e Delfino. A ausência da dupla é muito sentida do ponto de vista atlético, mas também abala seu poder de imprevisibilidade. Nenhuma novidade nisso. Mas pouco se fala sobre as consequências dessas baixas em relação o papel de quem se apresentou e sobre qual seria a melhor forma de combiná-los. Enfim, o impacto na rotação.

Para quem gosta de numerar os atletas de 1 a 5 em quadra, fica o convite para se enquadrar os argentinos. Dos oito atletas que vêm sendo mais utilizados, teríamos algo como três da posição 1 (Prigioni, Campazzo e Laprovíttola), um da 3 (Mata) e quatro que seriam 4 (Scola, Nocioni, Herrmann e Leo Gutiérrez). Que tal? Faz sentido? Obviamente que não, e por isso que é sempre preciso muito cuidado na hora de rotular jogadores de basquete. Dependendo da dinâmica de cada time, tudo é muito volátil. Vejam Oberto tentando matar a charada: “Estão jogando com posições trocadas. Um quatro, Scola, que joga de cinco. Um mix de três com Chapu e Walter. Um mix de 1, com Campazzo e Prigioni. Em vez de ter uma posição forte, cada um ajuda o outro”, disse (segundo declarações coletadas pelo site BásquetPlus.com).

Nocioni não vem fazendo o melhor Mundial possível, um tanto sacrificado pelas combinações diferentes do elenco agentino. Mas ainda é um leão na defesa e nos rebotes, para quem nunca vai faltar confiança. Sem contar a catimba, claro

Nocioni não vem fazendo o melhor Mundial possível, um tanto sacrificado pelas combinações diferentes do elenco agentino. Mas ainda é um leão na defesa e nos rebotes, para quem nunca vai faltar confiança. Sem contar a catimba, claro

Antes que alguém pegue carona com o ex-pivô do Spurs sobre Nocioni ser um 3 e tal, tal, tal, saibam que, na real, nos últimos dois anos ele jogou como o ala-pivô/4/PF (se quiserem muito, escolham…) pelo Baskonia. Com liberdade para atacar de todos os cantos da quadra, mas quase que defendendo grandalhões na defesa. Com sua força física, determinação e inteligência, não foi problema. A ponto de ser contratado pelo Real Madrid. Para Herrmann, ainda mais lento, vale o mesmo. Se Lamas fosse, então, encarar seu elenco de modo estratificado, teria sérios problemas. Muita gente boa não ia nem poder entrar em quadra.

Mas sua abordagem não foi convencional. Sem Manu ou Cabeza, poderia term simplesmente promovido o ala Selem Safar para o quinteto titular. Agora, mesmo que ele tenha feito grande partida contra Porto Rico na estreia, parece não ter a confiança do treinador para jogos mais duros. O que ele fez? Puxou uma dupla armação da cartola, até para ganhar mais velocidade e arrojo a partir do drible.  “Essa de trocar posições acho que saiu da melhor maneira possível. Não creio que Júlio goste de jogar desta forma, com a dupla armação, porque nunca jogamos assim. Mas não há ouros criadores de jogo que não sejam os armadores. Não há outras alternativas”, afirma Pepe Sánchez, justamente o condutor do time campeão olímpico em 2004 e hoje um excepcional analista.

Essas “posições trocadas” também foram adotadas, forçosamente ou não, na linha de frente, para acompanhar Scola. Aqui acontece o mesmo: Lamas não parece disposto a confiar minutos significativos a seus atletas mais jovens. Marcos Delia recebeu apenas 7,8 minutos em quatro partidas (ficando fora de uma, inclusive). Matías Bortolín (muito promissor) e Gallizzi só entraram nos minutos finais de uma lavada para cima de Senegal. Em seu conservadorismo, o treinador priorizou os veteranos a todo custo. Agora, isso não impediu que quebrasse alguns padrões a partir daí.

Delía seria o único 5 do time (por favor, só não se refiram a ele como um “cincão”, uma vez que ele faz tanta sombra em quadra como uma caneta esferográfica). Talvez ganhe mais tempo de quadra contra o Brasil, especialmente no primeiro período, para tentar frear um pouco o jogo interno brasileiro. No decorrer da partida, porém, espere por muitas rotações com Scola, Herrmann e Nocioni juntos. Três alas-pivôs atacando e combatendo em conjunto, talvez fazendo mais uso de marcação bem recuada, em zona, para fechar o garrafão. “Delía pode dar minutos de oxigenação para a equipe, mas a realidade é que precisam fazer com que joguem Chapu e Luis todo o tempo que puderem, e viver ou morrer com isso”, diz Sánchez.

É um caminho que Lamas se vê obrigado a seguir, por dois motivos. Ninguém parece ter dado conta da falta de Juan Gutiérrez. Claro que ele não está no nível técnico de muitos dos nomes aqui já citados. Mas é alto, rodado e encarou bem os pivôs brasileiros em Londres 2012.  Sem esse tipo de cobertura defensiva, teve de se virar. O segundo ponto: não deixar que Scola fique por muitos minutos num combate mano-a-mano com gente que é mais alta e muito mais atlética. Daí viria um risco inadmissível: um acúmulo de faltas para o craque – tal como aconteceu no choque com Andray Blatche e as Filipinas – seria provavelmente mortal para suas pretensões contra o Brasil. Se no último clássico, nas Olimpíadas, o treinador conseguiu resguardar o pivô, que recebeu “apenas” 29 minutos, isso aconteceu só por ter Ginóbili e Delfino também ao seu dispor. Isto é, tinha outras fontes produtivas de onde tirar pontos. No Mundial de 2010, porém, só lhe deu um minutinho de descanso. Esperem um manejo parecido neste domingo.

Pepe Sánchez pede: quanto mais Chapu e Luis, melhor

Pepe Sánchez pede: quanto mais Chapu e Luis, melhor

A despeito dos improvisos constatados, os veteranos acreditam que a Argentina já desenvolveu um bom conjunto na primeira fase da Copa para poder encarar – e derrubar o Brasil, até por notarem algumas falhas no próprio adversário. Sánchez recorre ao amistoso que disputaram no mês passado, em Buenos Aires. “A partida em Tecnopolis ficou na retina. O Brasil não sabe lidar com isso. Nestes anos todos, o time não mostra uma conexão entre o jogo interior e o perímetro. Ou é perimetral, ou é interior. Quiçá Marquinhos agora esteja fazendo um pouco isso, mas nós temos Chapu, Leo, Walter, que são jogadores que fazem essa conexão. Nós conseguimos complicá-los muitos quando nos fechamos e oferecemos o tiro externo, cortando-lhes o pick-and-roll e os obrigando a arremessar”, afirmou o ex-armador.

Confiante, não? Mas não se pode tomar seu comentário como soberba. Fato é que essa (des)conexão destacada por Sánchez é o que vem sendo pedido por aqui desde os mesmos amistosos. Ele só usa um termo diferente. A “conexão” seria produto (ou mesmo a causa) de um ataque mais fluído, com mais movimentação dos laterais e dos próprios pivôs, algo que vem faltando ao time de Magnano nas situações de meia quadra.

Além do mais, o próprio Sánchez parece depositar muito mais fichas no aspecto emocional do confronto deste domingo do que nos aspectos táticos, ainda que não veja ainda a seleção brasileira com uma “consistência europeia” – mesmo que o adversário não jogue mais de modo acelerado. É aquela coisa: nem sempre a cadência significa coordenação.  “Tivemos dificuldades contra os europeus (na primeira fase). Em um cruzamento com o Brasil, há coisas diferentes. É um clássico, que se joga de outra maneira, e isso pode nos ajudar. O que melhor mostramos até agora foi o coração, a energia, a entrega, e isso pode pesar contra o Brasil. Contra os europeus, pesa menos, porque têm um plano tático que seguem à risca. A consistência da outra equipe executando está custando muito para nós. Se pudermos envolver o Brasil num jogo mais quente, sanguíneo… Anos atrás teria sido o contrário, mas hoje temos de maximizar nossas possibilidades. Estamos no limite.”

Herrmann, futuro flamenguista, muito forte próximo ao aro. Talvez as mais largas mãos da Copa

Herrmann, futuro flamenguista, muito forte próximo ao aro. Talvez as mais largas mãos da Copa

Pensando neste limite, é muito provável que a equipe vá até onde Scola puder levá-la. Quanto menor a frequência de Ginóbili em torneios com El Alma, como os hermanos tratam o time internamente, mais natural foi o crescimento da liderança do camisa 4. Hoje, seu pulso firme já interfere em questões muito além das quadras, como pudemos ver durante a crise política aberta antes do início da preparação – foi a voz mais assertiva entre os jogadores. Além disso, há diversos relatos sobre o modo cuidadoso como trata as revelações do país. De grandes gestos como levar o espigão Marcos Delía em sua bagagem para um período de treinamentos em Indiana, pagando tudo, a pequenos mimos: durante este Mundial, deu uns quatro pares de tênis para Tayavek Gallizzi. Um grande personagem, que merece todo o respeito.

Sua influência no campo ofensivo é um problemaço para se resolver. Neste sazonal mundo Fiba, o cabeleira bota para quebrar tanto perto como longe da cesta. A variação é grande não só em suas fintas, mas nos pontos em que recebe a bola para atacar. Isso requer muito mais estudo e atenção a detalhes por parte de treinadores e jogadores. Você pode preparar um scout com diretrizes, mas nem sempre há uma solução clara, uma vez que este craque pode te ferir tanto com os arremessos de média para longa distância, como também pode por a bola no chão e partir para a cesta com leveza surpreendente para alguém tão forte e que pode parecer pesado à primeira vista (no caso da audiência brasileira, já é à quinta, à sexta vista, mas tudo bem).

Com três pivôs fortes, experientes e atléticos para marcá-lo, a defesa brasileira não deveria recorrer de primeira a marcação dupla. Se isso for acontecer, as rotações precisam estar afinadas para que seus arremessadores não sejam liberados. Neste Mundial, os argentinos têm cinco jogadores queimando a redinha nos chutes de longa distância: Scola (60%), Mata (58,3%), Herrmann (50%), Safar (46,2%), e Prigioni (43,8%). Os veteranos Nocioni e Leo Gutiérrez, por outro lado, não vêm tão bem no fundamento, respectivamente com 27,3% e 32%, assim como Campazzo (27,8%), mas melhor nem pagar para ver.

Outra questão que requer atenção decorre dos ataques em que Scola vai flutuar na cabeça do garrafão. A ideia inicial tende a ser uma jogada em dupla com o armador da vez. Com Campazzo e Laprovíttola, Julio Lamas não verá problema em forçar a troca e fazer seu baixinho atacar um grandalhão (por sorte, os três pivôs da NBA são excelentes nesse tipo de situação de aparente desequilíbrio). De todo modo, o ideal seria que cada atleta seguisse grudado ao seu oponente, impedindo o mismatch, para que Scola também não tenha um instante de liberdade para receber o passe de volta e subir para o arremesso. Uma terceira via que os argentinos podem buscar a partir daí é o corte pelo fundo de um Nocioni ou de um Herrmann em que eles assumem o poste baixo e a assistência em high-low para punir defensores mais baixos.

É a tal da conexão em que Pepe Sánchez aposta. O entrosamento que a Argentina acredita impor ao redor de seu pilar ofensivo, não importando as peças que tenha disponíveis. Caberá mais uma vez ao Brasil de Magnano tentar desmantelá-los..


Brasil x Argentina: o clássico em números
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Giancarlo Giampietro

Neste domingo, tem Brasil x Argentina pela Copa do Mundo de basquete (17h no horário de Brasília). Acho que vocês já sabem, né? Seguem então alguns links relacionados ao jogo e, logo abaixo, um apanhado de números da história recente dos confrontos:

161 – minutos Luis Scola passou em quadra nas primeiras cinco rodadas do campeonato (32,2). Foi o quinto que mais jogou, atrás de Andray Blatche (Filipinas), Gorgui Dieng (Senegal), Bojan Bogdanovic (Croácia) e Samad Nikkah Bahrami (Irã).

116 – já Leandrinho foi aquele que ficou menos tempo sentado no banco brasileiro, com 116 minutos (23,2) de ação, apenas 63ª maior média do torneio.

77,7% – é o aproveitamento da Argentina contra o Brasil com Luis Scola em quadra, em nove jogos desde o Mundial 2002. Foram sete vitórias (Mundial 2002, Copa América 2003, 2 na Copa América 2007, Mundial 2010, Copa América 2011 e Olimpíadas 2012) e duas derrotas (Copa América 2009 e 2011).

Huertas, efetivado como titular com Moncho, numa rara vitória sobre Argentina de Scola (2009)

Huertas, efetivado como titular com Moncho, numa rara vitória sobre Argentina de Scola (2009)

37 – no Mundial da Turquia 2010, Scola arrebentou a defesa brasileira com 37 pontos, numa atuação verdadeiramente histórica (recorde individual de seu país no torneio). Sabe quantos minutos ele descansou na ocasião? Um. Apanhou ainda nove rebotes, deu três assistências e matou 14 de seus 20 arremessos, para um aproveitamento absurdo de 70%.

Hettsheimeir brilhou em 2011. Pivô é o segundo mais jovem da seleção hoje aos 28 anos

Hettsheimeir brilhou em 2011. Pivô é o segundo mais jovem da seleção hoje aos 28 anos

31 – anos é a idade média do elenco brasileiro, o mais velho do torneio. Apenas três de seus atletas estão abaixo dos 30 (Raulzinho, o caçula, com 22, Hettsheimeir, 28, e Splitter, 29). A média de idade argentina é de 28 anos, com sete atletas abaixo dos 39 (o mais jovem é o pivô Matías Bortolín, de 21 anos, que jogou apenas quatro minutos no torneio até aqui).

21,6 – A média de pontos de Scola neste Mundial. É o cestinha argentino e também o cestinha entre os atletas que ainda estão vivos na disputa por pódio. José Juan Barea, estrela de Porto Rico, anotou 22 pontos por jogo na 1ª fase, mas já está eliminado.

19 – os pontos de Rafael Hettsheimeir na última vitória brasileira no clássico, em Mar del Plata 2011, uma atuação marcante e surpreendente, em 22 minutos. Na atual Copa do Mundo, o pivô perdeu espaço na rotação e anotou só 13 pontos no total, em 59 minutos. Huertas anotou 17 pontos naquele jogo, seguido pelos 14 de Marquinhos e outros 13 de Giovannoni.

18 – maior pontuador do Brasil na primeira fase, com 13,6 em média, Leandrinho foi apenas o 18º na lista de anotadores da fase de grupos, numa prova de um ataque dissipado para a seleção – não há concentração nas mãos de um só atleta.

Splitter tinha apenas 17 anos em 2002, para seu primeiro Brasil x Argentina. Jogou 2 minutos

Splitter tinha apenas 17 anos em 2002, para seu primeiro Brasil x Argentina. Jogou 2 minutos

10 – atletas das seleções jogam ou já jogaram partidas oficiais na NBA: seis brasileiros (Alex, Marquinhos, Leandrinho, Varejão, Splitter e Nenê) e quatro argentinos (Nocioni, Herrmann, Scola e Prigioni). O armador Raulzinho já foi draftado no ano passado pelo Utah Jazz.

9 – jogadores vão disputar a próxima temporada do NBB: Alex, Marcelinho, Marquinhos, Hettsheimeir, Larry, Giovannoni, Herrmann, Laprovíttola e Marcos Mata. O Flamengo tem quatro deles, enquanto o Bauru aparece com três.

8 – o primeiro confronto de mata-mata entre as duas gerações aconteceu no Mundial de 2002, Indianápolis, pelas quartas de final. E não é que, 12 anos depois, oito atletas que estiveram em quadra naquele dia 5 de setembro estão listados para o jogo deste domingo? Diz muito sobre a (falta de) renovação de ambos os times. Pela Argentina, Luis Scola, Andrés Nocioni e Leo Gutiérrez. Pelo Brasil, uma penca: Alex, Marcelinho, Anderson Varejão, Splitter e Giovannoni. Se Leandrinho tivesse saído do banco, seriam nove. O cestinha brasileiro naquela ocasião é hoje diretor de seleções da CBB: Vanderlei Mazzuchini (20 pontos).l

4,5 – a média de pontos das vitórias argentinas nos últimos dois confrontos entre as seleções.

4 – por quatro temporadas, Scola e Splitter foram companheiros de clube, no Saski Baskonia, da Liga ACB. São amigos de longa data. Juntos, ganharam a Copa do Rei em duas ocasiões (2004 e 2006). Já o armador Pablo Prigioni acompanhou o pivô catarinense por seis temporadas.

3 – a Argentina ocupa a terceira posição no Ranking da Fiba vigente. O Brasil aparece em décimo.

 


O 7º dia da Copa do Mundo: Zebras de folga
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Giancarlo Giampietro

Uma, duas, três e quatro franquias da NBA representadas na foto. EUA também têm torcida na Espanha

Uma, duas, três e quatro franquias da NBA representadas na foto. EUA também têm torcida na Espanha

Ufa. Depois da maratona em sua primeira semana, neste sábado a tabela da Copa do Mundo pegou bem mais leve com esses pobres jornalistas. Quatro joguinhos, nada simultâneo, e a chance de apreciar melhor o que se passa em quadra. Embora, quem esteja tentando enganar? Aquela avalanche de jogos dos grupos era divertida pacas e nos deixa com abstinência. Difícil até digitar aqui, de tanto tremelique. Mas vamos lá: depois de alguns sustos na fase de grupos, não temos nada de surpresas por ora nas oitavas. Os grandes favoritos, Espanha e Estados Unidos, passaram com tranquilidade, para agora enfrentarem, respectivamente, Eslovênia e França nas quartas de final.

O jogo do dia: França 69 x 64 Croácia
Um segundo tempo redentor nos livrou daquele que poderia ter sido o primeiro duelo com menos de 100 pontos no placar. No caso, com os dois ataques somados! A primeira etapa, para se ter uma ideia, teve 48 pontos anotados. Um inacreditável: 23 a 22 a favor dos Bleus, que haviam anotado apenas 7 pontos no primeiro período – quantia igualada pelos balcânicos no segundo quarto. Uma tristeza que só, uma batalha do jogo feio. Na volta do intervalo, para alívio geral, os ataques desafogaram, permitindo que Ucrânia 64 x 58 Turquia ficasse com o justíssimo título de partida mais sonolenta do campeonato.

A vitória francesa ganha este espaço devido aos 20 minutos finais, na disputa mais equilibrada da jornada, e também pela quantidade de jogadores talentosos de ambos os lados. Dario Saric, Ante Tomic, Bojan Bogdanovic, Boris Diaw, Nicolas Batum e mais. Todos de NBA ou em grande parte em potência europeias. Entre eles, Bogdanovic foi quem se destacou, com 27 pontos em 35 minutos, exibindo todos os seus fundamentos que poderiam perfeitamente ilustrar um manual. No ataque, o croata é uma maquininha de cestas, e com um estilo mais classudo impossível.

Bogdanovic deixa pirulão Gobert para trás: rumo a Brooklyn o cestinha croata

Bogdanovic deixa pirulão Gobert para trás: rumo a Brooklyn o cestinha croata

Num tiro de três a 52 segundos do fim, o ala diminuiu uma vantagem francesa que chegou a ser de 11 pontos para apenas dois. No ataque seguinte, Antoine Diot errou um chute de fora na zona morta, e os croatas tinham a chance de virada. Foi aí que a apareceu a outra faceta do “hero ball”, com Bogdanovic se precipitando com uma bola de fora, de muito longe, restando mais de 10 segundos de posse no cronômetro. Nos lances livres, os adversários definiram o placar. Olho neste jogador na próxima temporada da NBA: vai jogar pelo Brooklyn Nets. É um dos principais cestinhas da Europa, mas é preciso ver como irá se a ajustar, já que está habituado a jogar com a bola em mãos, como referência primária (e secundária, hehe) de seus times. Um tanto fominha.

De resto, é de se lamentar o fogo que Batum tem com a bola em diversos momentos, abrindo mão das infiltrações para cômodos disparos de longe (0/6 para ele hoje nos três pontos, 5/7 de dois). Também fica a dúvida sobre como a Croácia demorou para abastecer Tomic no garrafão durante todo o campeonato. No quarto período, hoje ele foi o grande responsável pela reação de seu time, com 17 pontos em 25 minutos (7/10 nos arremessos). O pivô do Barcelona, mesmo assim, ficou no banco nos últimos três minuto.

Quem fez falta: as Filipinas… 🙁
O esforço da atlética seleção de Senegal contra a Espanha foi formidável, especialmente primeiro tempo, mas é difícil de fugir de um devaneio sobre como teria sido o confronto dos anfitriões com as Filipinas nestas oitavas de final. Antes que me acusem de pirado: não, os filipinos não venceriam, não causariam a maior surpresa da história. Mas pode ter certeza de que eles proporcionariam alguns instantes de pura diversão em quadra, deixando Pau Gasol atônito.

Blatche e as Filipinas já partiram, cada um para o seu lado

Blatche e as Filipinas já partiram, cada um para o seu lado

Um causo
Não chega a ser um dramalhão mexicano, mas Gustavo Ayón ainda está desempregado. A despeito de suas diversas qualidades, o pivô não tem contrato para a próxima temporada. Que vergonha, NBA. Neste sábado, contra os Estados Unidos, ele mostrou que tem bola. A melhor vitrine. Será o suficiente para levantar uma proposta? Vejamos. Só não foi suficiente para evitar uma derrota por 86 a 63.

Curry acertou 16 de seus últimos 25 arremessos de 3 pontos no Mundial. Melhor marcar o craque

Curry acertou 16 de seus últimos 25 arremessos de 3 pontos no Mundial. Melhor marcar o craque

Alguns números
35 –
Os “Splash Brothers” do Golden State Warriors anotaram juntos 35 pontos na vitória contra o México.  Stephen Curry foi o cestinha, com 20. Klay Thompson anotou 15. Juntos, eles mataram nove de 18 arremessos de longa distância.

33 – A vitória por 89 a 56 sobre Senegal, por 33 pontos, foi a mais larga da Espanha em um jogo de mata-mata de Mundiais, EuroBasket ou Olimpíadas.

18 – O cestinha da Eslovênia contra a República Dominicana foi um Dragic. Mas Zoran dessa vez. O ala-armador não permitiu que um jogo abaixo do esperado de seu irmão derrubasse a equipe, marcando 18 pontos com 8/15 nos arremessos. Goran ficou com 12 pontos e 6 assistências – mas também cometeu seis desperdícios de posse de bola. Curioso que o astro do Phoenix Suns tenha se atrapalhado contra uma equipe que não é muito conhecida por sua pressão defensiva. Duro agora é se preparar para um embate com os Estados Unidos.

11,1% – Os irmãos Gasol não deixaram Gorgui Dieng se despedir da Copa da melhor maneira. Uma das sensações do campeonato, o pivô senegalês terminou as oitavas de final com 6 pontos, 7 rebotes e 2 assistências, acertando apenas 1 de 9 chutes de quadra (aproveitamento de 11,1%). No geral, ele teve médias de 16 pontos, 10,7 rebotes, 2 assistências e 1,5 bloqueio.

4 x 5 – Para Ricky Rubio, que preencheu a tabela estatística hoje, com pelo menos cinco incidências em quatro categorias diferentes: 7 pontos, 5 rebotes, 6 assistências e 5 roubos de bola em apenas 20 minutos. O armador já não tem a mesma badalação dos tempos de adolescente, mas ainda é um jogador bastante singular quando em forma.

Andray Blatche: acabou a contagem
Vocês sabem, né? O pivô mais filipino da Copa liderou a primeira fase em total de arremessos de quadra. Foi bom enquanto durou. Agora ele já está de volta aos Estados Unidos. Destino: Miami. Para assinar com o Heat, ou simplesmente por que vive lá? A Internet não responde com clareza. Consta apenas que ele não será reaproveitado pelo Brooklyn Nets.

O que Giannis Antetokounmpo fez hoje?
Treinou com seus amigos gregos e estudou o comportamento dos alas da Sérvia. Simples assim.

Tuitando:

O técnico Vincent Collet vem sendo cobrando por muita gente neste torneio sobre os parcos minutos que o ala-armador Evan Fournier, agora do Orlando Magic, vem recebendo no torneio. Contra a Croácia, ele saiu do banco para anotar 13 pontos em apenas 16 minutos, sendo fundamental na reação francesa no segundo período. Mas o treinador não fica muito impressionado, não, depois de ver o jovem atleta arrriscar uma bola de fora precipitada contra marcação por zona. “Ele não conhece o jogo de basquete, pelo menos não o bastante”, disse. Ouch.

Fair play, a gente se vê por aqui. Depois de seus pivôs anularem Gorgui Dieng, o armador entra em contato com seu companheiro de Minnesota Timberwolves com algumas palavras de incentivo.

É com esse espírito que a torcida espanhola vai para as quartas de final.


Mas nem todo mundo é só sorrisos no basquete espanhol. Para vocês verem que não é só jornalista brasileiro quem chateia. ; )


Argentina acelerou mais que o Brasil na 1ª fase. E neste domingo?
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Giancarlo Giampietro

Alex é um dos veteranos do Mundial. Mas ainda acelera como poucos

Alex é um dos veteranos do Mundial. Mas ainda acelera como poucos

Na onda de medição de estatísticas ditas avançadas do basquete, uma das mais interessantes á de “pace”. Ao pé da letra, mesmo: ritmo. O ritmo de jogo de cada time, o número de posses de bola que cada equipe usa durante os 40 minutos.

Em sua prévia sobre os confrontos de oitavas de final da Copa do Mundo, o jornalista John Schuhmann, do NBA.com, apresentou o ritmo de ataque de cada uma das 16 seleções que seguem na disputa pelo título. Para minha surpresa, a Argentina teve uma proposta mais acelerada do que o Brasil na primeira fase.

Justo a Argentina que, em sua rotação, tem um dos conjuntos mais lentos de todos os 24 elencos inscritos. Nos cálculos do analista, nossos vizinhos usaram 74 posses de bola em média nas cinco primeiras partidas, contra 72,6 da seleção brasileira. Pode não parecer muito numa primeira piscadela, mas é o suficiente para separar cinco equipes (é a diferença entre o 11º colocado e o 16º).

Para comparar, a Espanha tem 75,8 (em quinto), enquanto os Estados Unidos deixam todos os concorrentes comendo poeira, com 85,8 (em primeiro). Run, baby, run! Tendo em vista o ritmo empregado pelo Team USA, os dois rivais sul-americanos parecem tartarugas. O que não chega a ser uma surpresa, do ponto de vista deles. Agora, ver o Brasil abaixo da Argentina nesta relação só comprova a grande influência de Rubén Magnano sob seus comandados.

Quem se lembra do tempo em que esta geração brasileira, mesmo, era julgada por suas precipitações com a bola e os ataques tresloucados? Essas assertivas ficaram no passado já. Todavia, diante dessa 16ª posição brasileira no ranking – ainda mais com fracos adversários como Egito e Irã, com uma transição defensiva esburacada pesando positivamente na conta –, será que não é o caso de pensar se o time não poderia arrancar um pouco mais?

Huertas, em contragolpe, pode ser classificado na categoria de "mago"

Huertas, em contragolpe, pode ser classificado na categoria de “mago”

(E, tá certo, aqui abro espaço para todo os que queiram reclamar: “Caceta, mas não está bom nunca?! Vai ser do contra assim lá em Buenos Aires, meu irmão!” )

(…)

(Agora voltamos.)

Acho que a pergunta é justa se formos considerar as características dos atletas brasileiros convocados – ou do basquete brasileiro em geral. Mesmo que seja o time mais veterano do torneio, a característica geral do plantel é de velocidade, mesmo entre os grandalhões. Varejão, Nenê e Splitter são muito mais rápidos que a média de gente de seu tamanho. Inteligentes, ágeis, experientes, também rendem bem em situações de meia-quadra por seus respectivos clubes, mas, em quadra aberta, acho são bem produtivos, sim.

Leandrinho Barbosa, o Vulto Brasileiro, representa um contragolpe de um jogador só – Marquinhos, com suas passadas largas, também é difícil de ser pego. Huertas dificilmente corre com o brasileiro, mas, quando recebe sinal verde, encanta com seu controle de bola em disparada. Raulzinho e Larry também têm boa “largada”, assim como o incansável Alex. Enfim, já passamos aqui por grande parte da seleção. Deste grupo, diria que apenas Rafael Hettsheimeir não se beneficia diretamente de uma proposta de jogo mais arrojada.

Magnano obviamente pode apresentar os resultados da primeira fase para dizer que a cadência recomendada é a correta – o time foi o segundo que menos cometeu desperdícios de bola, por exemplo, com 11,4 por jogo (contra 14,7 dos norte-americanos). De fato, com essa abordagem, foram quatro vitórias e uma derrota pelo Grupo A.

Agora, qual foi justamente o melhor momento de sua equipe no Grupo A? Acho que não há dúvidas de que tenha sido o primeiro quarto contra os sérvios, não? Justamente um dos períodos em que a equipe mais golpeou em velocidade, para alcançar os seguintes números: 5 assistências para 9 cestas de quadra, 9/14 nos arremessos (64%). Uma execução de primeira.

As dificuldades do ataque brasileiro em situações de meia quadra já estão bem documentadas. Contra um garrafão poderoso como o da Espanha ou uma defesa extremamente atlética como a da França, o aproveitamento dos arremessos de quadra despencou. Diante dos franceses, talvez o convite para a corrida não fosse uma boa ideia. Agora, contra os irmãos Gasol? Ainda que eles estejam assessorados por quatro armadores de alto nível, é muito melhor do que desafiá-los no mano-a-mano na zona pintada.

A Argentina não tem, claro, nenhum Gasol ao seu lado. Por mais que Luis Scola seja um dos melhores pivôs do mundo Fiba, seu impacto num jogo está praticamente direcionado todo para o ataque. O craque é muito mais vulnerável na defesa, podendo ser atacado com frequência. Desde que com bom movimento de bola. Do contrário, seu time tende a fazer boas rotações defensivas, com dobras vindo de ambos os lados, variadas, para atrapalhar os pivôs brasileiros.

Se o Brasil tentar acelerar, no entanto, há pouca gente do outro lado que consiga se manter no páreo. Facundo Campazzo, Nicolás Laprovíttola? Sim, tranquilamente. Pablo Prigioni? Talvez. Agora, por mais que deem um duro danado em quadra, Andrés Nocioni, Marcos Mata, Walter Herrmann e Léo Gutiérrez teriam muita dificuldade. Para não falar de Scola.

Influente Magnano se vê novamente na posição de enfrentar seus compatriotas

Influente Magnano se vê novamente na posição de enfrentar seus compatriotas

Não que Magnano deva jogar todo o seu planejamento para o alto, orientando que seus atletas virem todos aríetes em quadra. Aliás, correr não significa precipitar. Não são sinônimos, se e a movimentação dos jogadores estiver bem esboçada. Num basquete cada vez mais competitivo, estudado e de atletas imensos, uma definição rápida tende a ser jogada mais eficiente, propensa a menos erros.

É de se esperar que, durante a fase de preparação, o argentino também tenha coordenado muitas ações de transição mais oportunistas, de acordo com as situações apresentadas numa partida. Talvez seja a hora empregá-las um pouco mais neste confronto específico?

Historicamente, o Brasil é o que acelera, e a Argentina, administra. Se os papéis não estão exatamente invertidos neste Mundial, percebe-se uma alteração significativa em suas dinâmicas. Se esse padrão do Mundial for mantido no jogo deste domingo, temos aí mais um componente tático bastante interessante no tabuleiro de Magnano e Lamas, que vai além do emocional.


Ayón se despede em alta do Mundial, mas sem contrato
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Giancarlo Giampietro

Ayón, orgulho mexicano, desempregado na elite do basquete

Ayón, orgulho mexicano, desempregado na elite do basquete

Gustavo Ayón já fez tanto pela seleção mexicana nos últimos anos, levando o time a uma sequência histórica de façanhas, que, num jogo perdido, não era mal algum que seus companheiros jogassem em sua função por 40 minutos neste sábado.

Na abertura das oitavas de final da Copa do Mundo, todo mundo sabia que os Estados Unidos iriam atropelar o México (86 a 63, nem foi tão feio assim). Mas a partida do mata-mata tinha um valor especial para o craque do time, o pivô camisa 8 que, inexplicavelmente, está desempregado no momento. De modo que 25 pontos, 8 rebotes e 11/19 nos arremessos não faz mal nenhum, mesmo que numa sacolada. Ele se despede do Mundial com médias de 17,6 pontos e 7,6 rebotes.

Ayón foi explorado ao máximo. Trombou com uma infinidade de pivôs americanos em 36min53s de partida, aproveitando ao máximo a oportunidade de mostrar serviço. Nos minutos finais, estava visivelmente exausto, tendo de segurar Andre Drummond e Mason Plumlee correndo que nem malucos. Coitado. Mas foi por uma boa causa.

Ayón x Monocelha no Mundial

Ayón x Monocelha no Mundial

Ele não é o único protagonista do Mundial nessa situação – temos Aron Baynes na Austrália e Miroslav Raduljica na Sérvia, por exemplo. Mas, pelo que vimos hoje no embate com os norte-americanos, é de se perguntar como é possível que alguém com os talentos de Ayón tenha sido menosprezado desta maneira. Até o momento, seus agentes asseguram que não receberam sequer uma proposta oficial da NBA, depois de seu cliente concluir um contrato de três temporadas.

Segundo o extremamente confiável Marc Stein, do ESPN.com, o San Antonio Spurs passou a manifestar interesse no jogador, mas ainda tem como prioridade a renovação com Baynes. O ídolo mexicano seria, então, um plano B – estar na lisa de atletas monitorados por Gregg Popovich e RC Buford é, de qualquer modo, um bom sinal para qualquer empresário. A mídia mexicana fala em negociações com o Real Madrid, para o qual foi oferecido. O Baskonia também teria sido sondado.

É muito estranho. Ayón não pode ser confundido com um craque, alguém que mudaria o destino de uma franquia da NBA a partir do momento em que assinasse. Mas é, por outro lado, um pivô bastante versátil, pau-pra-toda-obra.

No ataque, é capaz de pontuar com eficiência próximo da cesta, com o jovem Anthony Davis pôde atestar neste duelo, sendo fintado em diversas ocasiões em mano-a-mano. Com um jogo de pés bastante criativo, girando para os dois lados com facilidade, conseguiu se desvencilhar da interminável envergadura do Monocelha. Veja os australianos entrando na dança:

Na liga americana, embora não tenha um bom chute de média distância (seu lance livre, por exemplo, é um horror – média de 50% na carreira), ele pode ser bastante útil de outra forma no poste alto: tem visão de jogo e roda a bola com precisão (2,8 assistências por 36 minutos, para um pivô). Reparem como ele está sempre com a bola erguida, os braços alertas para fazer o passe – isto é, não basta inteligência, tem de ter fundamento também. Aqui:

Do outro lado, tem capacidade atlética para segurar a onda na disputa dos rebotes e também está disposto a trombar, bater e fazer o necessário para proteger a cesta. Numa projeção de 36 minutos, tem médias de 1,6 roubo de bola e 1,2 bloqueio, além de 9,4 rebotes e 10,2 pontos.

De novo: são habilidades em que ele está acima da média, mas não quer dizer que ele seria dominante: a concorrência na liga é grande, independentemente da posição. Vejam o caso de Francisco Garcia. Esquenta-banco em Houston, cestinha de 20 pontos pelos dominicanos nesta Copa. Ninguém pediria que Ayón arrebentasse. Mas é meio triste ver um jogador talentoso dele vagar pela liga.

Vagar, mesmo: foi contratado em 2011 pelo New Orleans, de modo até emergencial, já no meio da temporada. Ele havia se estabelecido como um dos melhores pivôs da Liga ACB, na dianteira de diversas tabelas estatísticas, incluindo a de eficiência – o que é sempre um bom sinal, considerando que Tiago Splitter, Marc Gasol e Luis Scola estiveram por lá nas temporadas anteriores.

Para quem chegou de última hora, se ajustando, Ayón mandou bem nos ex-Hornets-hoje-Pelicans. Quando o time se interessou por Ryan Anderson, porém, no mercado de agentes livres, foi despachado para Orlando num sign-and-trade. O clube solicitou o mexicano, mas não o usou muito. O elenco estava em processo de reconstrução após a saída de Dwight Howard e tinha pivôs “próprios”, mais jovens para desenvolver. Não demorou muito para repassar o atleta, então, para o Milwaukee, que vivia fase de transição semelhante (aliás, como sempre). No lugar errado, na hora errada, ou seja.

Agente livre em 2013, fora do radar, o pivô não conseguiu dar o salto pelo qual todo estrangeiro espera ao migrar para NBA: receber um senhor aumento na hora de fechar o segundo contrato. Teve de se contentar com um salário mínimo para preencher a rotação de pivôs do Atlanta Hawks, pelo qual quebrou um galho quando Al Horford se lesionou, mas não tão foi aproveitado. O técnico Mike Budenholzer priorizava o arremesso de fora, mesmo para seus grandalhões, e o macedônio Pero Antic ganhou espaço.

Aqui estamos, então. A central de negociações da liga americana está em clima de fim de feira, na real, e Ayón, sem clube. Ao menos ele pôde bater uma bolinha neste sábado contra seus (ex-)adversários de NBA e mandar um último recado.

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Independentemente do clube com o qual assinar, Ayón seguirá um orgulho mexicano: