Vinte Um

Arquivo : Nenê

Augusto derruba o Real, Splitter decola e mais: um giro com os brasileiros
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Giancarlo Giampietro

Os playoffs estão chegando, em todos os lugares — no Fantasy, aliás, o bicho já está pegando. Então vale gastar alguns minutos nesta segunda-feira para checar como andam os brasileiros espalhados por aí, levantando como têm sido seus últimos dias, de preparação para a hora que importa, mesmo:

– Começamos pela Espanha. Não só para quebrar a rotina, mas também pelo fato de a maior vitória ‘brasileira’ ter acontecido por lá. Augusto Lima, em sua temporada sensacional, liderou o modesto Murcia em um triunfo histórico sobre o Real Madrid, pela Liga ACB. Há 20 anos que seu clube não derrotava a potência merengue em casa. O pivô teve dificuldade para finalizar no garrafão (3/11 nos arremessos), mas não deixou a confiança esmorecer. Como de costume, batalhou pelas próprias sobras e terminou com um double-double de 13 pontos e 11 rebotes. Foram 5 na tábua ofensiva, buscando contato (6/7 nos lances livres).

Augusto rege a torcida: vitória muito comemorada

Augusto rege a torcida: vitória muito comemorada

Ao menos neste ano vem sendo acompanhado por Magnano, que o elogiou recentemente, depois de ter sido ignorado na convocação passada. Até porque Augusto tem ao seu lado Raulzinho, que foi titular no domingo. Em 24 minutos, somou 7 pontos, 2 assistências e 2 rebotes. Durante a campanha, o jovem armador vem dividindo a condução da equipe com o veteraníssimo Carlos Cabezas, sendo observado pelo Utah Jazz.

Em termos de classificação, o resultado devolve a esperança ao Murcia de chegar aos playoffs. Mas não vai ser fácil. O time está na décima posição, com 11 vitórias e 13 derrotas, empatado com o Gran Canaria. O oitavo Zaragoza é o Zaragoza, com 14 e 11, respectivamente, também empatado com o Baskonia e o Valencia. Restam 9 rodadas na temporada.

De acordo qualquer forma, tem de comemorar, mesmo. Não só quebraram um tabu — chamado de “maldição” por lá –, como derrubaram o Real da liderança. O Málaga volta a se isolar na ponta. Mais: para se ter uma noção do quão difícil é derrotar o gigante espanhol, saibam que, de 2012 até esse domingo, os caras haviam ganhado 82 de 92 partidas pela temporada regular.  Aproveitamento de 89,1%. Só.

Augusto e Raul na rodinha animada

Augusto e Raul na rodinha animada

Ainda na Espanha, outro que está numa crescente é o armador Rafael Luz, titular na vitória do Obradoiro sobre o Fuenlabrada por 88 a 82, no sábado. O brasileiro marcou 9 pontos e deu 9 assistências em 29 minutos arredondados. Nos últimos quatro jogos, ele tem médias de 10,7 pontos, 5,2 assistências e 3,2 roubos de bola, números elevados para a a liga, ainda mais em 25 minutos.

– Ok, agora a NBA. A julgar pela desenvoltura com a qual se movimentou em quadra neste domingo, parece não haver incômodo algum na panturrilha de Tiago Splitter. O pivô fez uma grande partida contra o Atlanta Hawks, em surra dada pelo Spurs (114 a 95). O catarinense jogou por 27  minutos e terminou com 23 pontos e 8 rebotes, convertendo impressionantes10/14 chutes.

Não é segredo que o Spurs rende seu melhor basquete, há duas temporadas, com Splitter entre os titulares — ainda que um Boris Diaw com bom ritmo seja muito valioso contra times mais ágeis. Tim Duncan, mesmo, já disse ao VinteUm que prefere a formação de duas torres. Os números vão comprovando a tese novamente: desde que o ilustre cidadão de Blumenau recuperou o posto, o quinteto inicial do time texano vem esmagando a oposição.

Taí a dupla

Taí a dupla

Antes, porém, que vocês queiram descer o cacete no Coach Pop, favor considerar os seguintes fatores: 1) Splitter teve sua pré-temporada prejudicada pelas lesões; 2) Pop não ia desgastá-lo, ciente de sua importância; 3) Diaw ainda é um que está atrás da curva, e a equipe vai precisar dele mais para a frente; 4) Aron Baynes meio que jogou bem, mas não conte para ninguém; 5) mais importante de todos: demorou para o quinteto inteiro ficar em forma, na mesma época.

O Spurs, assim como Splitter torcia, está chegando. Se o jogo no Madison Square Garden foi uma desgraça, praguejado com veemência por Popovich, a verdade é que ultimamente os campeões têm dado muito mais sinais de grandeza. Mike Budenholzer viu de perto, num primeiro quarto arrasador: eles voltaram. O que é salutar. Quando o Spurs está em seu melhor nível, difícil encontrar jogo mais bonito e atordoante. A bola cruza a quadra com máxima velocidade, de mão em mão, para frente e para trás, até a defesa rival se despedaçar. E o legal foi ver Splitter totalmente envolvido nessa. Dos raros pivôs com quem a bola não morre. No defesa, as rotações são uma belezura. Green e Kawhi agridem no perímetro, os pivôs cobrem, e a intensidade é plena.

Está tudo enrolado na tabela, mas, mantendo esse ritmo, San Antonio vai ter mando de quadra na primeira rodada, independentemente de ficar com a quarta posição. Tivessem batido os Bockers, já registraram melhor aproveitamento hoje que Blazers e Clippers.

Bruno Caboclo volta a entrar em quadra. Por dois minutos

Bruno Caboclo volta a entrar em quadra. Por dois minutos

– O Toronto Raptors não está jogando tão bem assim, mas tem sua classificação para os mata-matas assegurada, vai. Ao time canadense, o que resta é tentar recuperar o basquete dos dois primeiros meses da temporada. Essa conjuntura não favorece os dois brasileiros do elenco – se o mando de quadra também estivesse garantido, as perspectivas de tempo de quadra aumentariam. De qualquer forma, neste domingo, depois de um looongo inverno e de problemas fora de quadra, pela primeira vez desde 4 de fevereiro, o técnico Dwane Casey colocou o ala em quadra. Foram apenas dois minutinhos contra o Knicks, uma baba.  Isso só foi possível pelo fato de Kyle Lowry estar afastado por lesão, abrindo uma vaga para Caboclo trocar o terno pelo uniforme.

Lucas Bebê não estava presente para ver. O carioca está cedido ao Fort Wayne Mad Ants, da D-League. Ao contrário do que aconteceu com o caçulinha brasileiro por lá, Lucas chegou para jogar – foram três partidas até agora, com médias de 11,0 pontos, 13,0 rebotes e 2,6 rebotes, em imporantes 25,7 minutos – para comparar, Bruno teve apenas 8,9 minutos em sete compromissos. Quer dizer: o pivô produziu bem. Mas não dá para se levar perdidamente pelos números da Liga de Desenvolvimento da NBA. Os jogos são acelerados, a bagunça costuma imperar. Tem de pegar os VTs no YouTube para avaliar com cuidado o que o pivô anda fazendo. O Mad Ants não é a franquia mais aberta da D-League aos jogadores de cima, mas segue como a melhor oportunidade para a dupla ser aproveitada.

Leandrinho, ao ataque. Briga por minutos relevantes

Leandrinho, ao ataque. Briga por minutos relevantes

– Leandrinho foi outro que ganhou espaço devido a uma lesão de um dos titulares. Klay Thompson está fora de ação pelo Warriors, e o ligeirinho tem sido mais acionado por Steve Kerr, dividindo os minutos do jovem astro com Andre Iguodala e Justin Holiday. O ala-armador recebeu 80 minutos em três jogos (26,6) e marcou 44 pontos (14,6). É um momento importante para mostrar serviço: uma hora Kerr vai ter de definir sua rotação para os playoffs, e ainda não está clara a ordem de chamada no banco. Andre Iguodala, Shaun Livingston e Marreese Speights vão para a quadra. É de se imaginar que David Lee também. Restaria uma vaga, pela qual duelam as habilidades ofensivas do brasileiro e as defensivas de Holiday, irmão do Jrue.

– Depois de um mês de fevereiro tenebroso, o Washington Wizards tenta se recuperar, mas vem de duas derrotas (Clippers e Kings, no domingo). Nenê volta a viver sua rotina de entra-e-sai do plantel de relacionados de Randy Wittman, devido aos constantes problemas físicos. O técnico precisa do pivô na briga por mando de quadra, mas a produção do paulista sofreu uma boa queda neste mês, tendo acertado apenas 42,9% de seus arremessos de quadra (na temporada, a média é de 51,5%; na carreira, 54,5%). É uma situação para se monitorar, ainda mais se a seleção brasileira tiver de jogar por uma vaga olímpica neste ano.


O mundo lá do alto: uma entrevista surreal com Gheorghe Muresan
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Giancarlo Giampietro

Gheorghe Muresan

Na literatura do basquete, há toda uma antologia dedicada aos pivôs, os grandalhões, os homens altos, the big men. Sobre como eles enxergam o mundo de modo diferente de nós de 1,80 m  (ou menos, ou um pouquinho mais… bem-vindo ao clube!). Tudo é realmente uma questão de ponto de vista. Afinal, eles veem de cima. Tudo para eles é, de alguma forma, pequeno. Talvez pequeno e simpático. Talvez pequeno, simpático e curioso.

Foi justamente essa a sensação que tive quando Gheorghe Muresan, lá do alto de seus 2,31 m de estatura – um recorde na NBA, batendo Manute Bol por milímetros – abaixou a cabeça para me olhar. Na verdade, para me observar. Quase como se fosse um guerreiro da Terra Média olhando para um pimpolho de um hobbit. Dava para notar, no fundo, fundo, que Muresan me encarava com admiração. “Que homenzinho mais engraçado”, devia pensar em romeno. Sairia algo mais ou menos assim, segundo o Tradutor do Google: “Ce un om amuzant mic”.

Eu queria ter tirado uma foto ali, mesmo, para flagrar sua expressão, e apresentá-la aqui como prova. Mas vocês acreditam quando escrevo, né? Pois bem, Muresan, o ex-pivô do Washington Bullets – que teve uma passagem meteórica pela capital americana, numa carreira que se iniciou promissora, mas foi abreviada por lesões – estava olhando para baixo, enquanto eu tinha o pescoço flexionado no mesmo ângulo exigido para avistar o cume do Empire State.

O que Muresan estaria enxergando dali de cima?

O que Muresan estaria enxergando dali de cima?

O que se seguiu a partir daí foram precisamente 3min56s de uma conversa muito maluca. A entrevista mais nonsense que me lembro de ter feito – e olha que nesse universo de possibilidades, constam coletivas com Paulo Maluf se defendendo das acusações de sempre e conversas com jogadores sub-17 da Costa do Marfim.

Como um gigante, com sua perspectiva única de mundo, o dócil Muresan atendeu ao VinteUm na beira de uma das quadras do camp Basketball without Borders, em Nova York. Ele havia dado as caras por lá para bater um papo com alguns garotos convocados pela NBA. Coincidentemente, só passou pela estação de treino em que estavam os pivôs. Estava de saída quando foi interceptado por um repórter que vive num país muito bonito. Vejam no que deu:

21: Você ainda está envolvido com atividades de basquete? Quando está em quadra, como hoje, vendo a garotada bater bola, sente saudade da época em que jogava?
Sim, tenho trabalhado com um monte de garotos na região de Washington, e também feito alguns trabalhos para o Washington Wizards, meu ex-time. Sou um embaixador do clube na comunidade da capital. Ah, tem tantas coisas com as quais posso me envolver agora… Bem diferente daquela época em que eu só me concentrava no meu time, no que tinha de fazer em quadra.

Billy Crystal tem 1,70 m

Billy Crystal tem 1,70 m. Ele contracenou com e dirigiu Muresan no filme Meu Gigante Favorito, de 1998

Como o cinema, não?
(Risos) Sim, como o cinema. Foi algo bem divertido. Mas já não faço mais… Antes de tudo, queria dizer que você vem de um país muito bonito. Muito bonito, mesmo, com pessoas boas.

Já foi para lá, então?
Para onde?

O Brasil. Já visitou meu país?
Não… (E de repente solta…) Não ! Fui, sim. Desculpe, claro que fui. Fui para Anápolis (em Goiás), alguns anos atrás. Mas fiquei doente lá, acredita? Tive de ir para a emergência do hospital, inclusive.

Não!?
Estou falando sério.

Mas o que houve? E o que você estava fazendo lá?
Aí passei mal e fui para o hospital. Tive uma cirurgia lá.

Cirurgia?!
Não me lembro de muita coisa, mas passei por uma cirurgia para tirar o “XXXX” e ficou tudo bem.

(Nota: o XXXX não é falha de edição, não. É que, sinceramente, não consegui entender de modo algum o que Muresan falou. Antes de me chamarem de filho do dicionário, saibam que fui até o Consultor Oficial para Assuntos de Língua Inglesa e Sotaques Matreiros do blog e não obtive sucesso, levando esse consultor a um colapso nervoso; depois, me dirigi ao assessor da NBA responsável pela condução do camp, e… Nada. “Simplesmente não tenho ideia do que ele falou aqui. Desculpe, mesmo”, me disse. Sentiram o drama? O mais legal é que, no final das contas, faz diferença? Pode ter sido “apêndice”, “amídala” em qualquer dialeto da Transilvânia, vai saber. O que importa é que o cara foi operado no Brasil, correu tudo bem e pôde me proporcionar essa conversa de maluco.)

Desculpe, mas cirurgia do quê?
“XXXX”

(Ah, com boa vontade, dava para escutar algo como “Globe Trotter” na resposta dele, mas aí já seria o cúmulo do absurdo, né? Então, se alguém tiver uma sugestão a partir dessa dica de fonética, favor encaminhar para a secretaria.*)

O que você estava fazendo em Anápolis? Eram férias, mesmo?
Seu país é bonito.

Poxa, obrigado, mas você foi a passeio? Conhece alguém lá?
Fui visitar só.

Muresan foi escolhido pelo Bullets na 30ª posição do Draft de 1993, quando tinha 22 anos. Disputou 307 partidas até 2000, com médias de 9,8 pontos, 6,4 rebotes e 1,5 toco em 21,9 minutos. Em 1997, jogou os playoffs contra o Chicago Bulls de Jordan, perdendo na primeira rodada. Sua melhor temporada individual, porém, foi a de 1995-96, quando foi eleito o jogador que mais evoluiu na liga

Muresan foi escolhido pelo Bullets na 30ª posição do Draft de 1993, quando tinha 22 anos. Disputou 307 partidas até 2000, com médias de 9,8 pontos, 6,4 rebotes e 1,5 toco em 21,9 minutos. Em 1997, jogou os playoffs contra o Chicago Bulls de Jordan, perdendo na primeira rodada. Sua melhor temporada individual, porém, foi a de 1995-96, quando foi eleito o jogador que mais evoluiu na liga

Bom que correu tudo bem no final, então. E agora que você está aqui em Nova York, acompanhando a molecada, se lembra do tempo em que começou a jogar? Como foi seu início no basquete?
Eu tinha 15 anos, foi pelo Cluj, na Romênia. Mas esses garotos aqui são muito mais talentosos. Espero que eles não se cansem, não parem de trabalhar, de se dedicar, sabendo que estão sendo observadas por pessoas interessantes. Estão com alguns dos melhores técnicos para treinar com eles, dos melhores que se pode encontrar ao redor do mundo.

Foi alguém que te descobriu, ou você, quando mais jovem, queria jogar já?
Foi meio por acidente, quando me levaram para o Cluj. Mas, quando comecei a praticar, não demorou para me apaixonar pelo esporte.

Bom, e alguns anos depois você já estava na França e, depois, na NBA, com Chris Webber e Juwan Howard. Até que aconteceram as lesões…
É, tínhamos um time bom. Foram bons anos. Mas o Wizards também tem um time muito bom agora, inclusive com um cara brasileiro. É um time muito legal.

Pois é, o Nenê, que é importante…
Oh, é um jogador muito bonito, um jogador muito bom, habilidoso.

O que ele oferece para o Wizards?
Ele dá experiência ao time, é muito bom de grupo. Um bom líder. Vou indo, ok?

Claro. Obrigado pela entrevista!
Obrigado, você.

*ATUALIZANDO!!! Eduardo Baltasar Francisco, o famoso Duda, amigão de infância, solucionou o mistério em torno da cirurgia de Muresan. Seguindo minhas mirabolantes dicas de fonética, mas sem ter ouvido a gravação original, é coisa de 99,9% de certeza de que o romeno tenha falado “GALLBLADDER”. Ou: vesícula biliar. Eureka!

Para constar: Duda é basqueteiro e futuro psiquiatra, não necessariamente nessa ordem – uma combinação que, vocês sabem, se encaixa perfeitamente com o que se passa aqui no VinteUm. “Por enquanto, sou melhor basqueteiro, mas agora estou focando para me tornar melhor psiquiatra”, diz. Abusado, afirmou ainda que enterraria na cabeça do Muresan. Num scout informal, eu diria que o camarada tinha muita impulsão, belo controle de bola e era ótimo tanto no chute de média para longa distância como na finalização perto da cesta: dava trabalho demais para marcá-lo. Daí a desafiar o simpático, mas gigante Muresan? Aí eu pagaria para ver… ; )


Washington Wizards: mudança de hábito
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Giancarlo Giampietro

30 times, 30 notas sobre a NBA 2014-2015 (acabou!)

Nenê e os dois garotos: alto astral na capital

Nenê e os dois garotos: depois de muito tempo, alto astral na capital

Foram cinco anos inacreditáveis. Desde o episódio das armas de Gilbert Arenas, em meio a sua rixa com Javaris Crittenton, até as trapalhadas de JaVale McGee, os incessantes arremessos forçados de Nick Young e Jordan Crawford, a postura pouco elogiosa de Andray Blatche, as negociações fracassadas… Afe. A folha corrida seria interminável se fosse para esmiuçar cada um dos tópicos aqui citados.

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O gerente geral Ernie Grunfeld, porém, pode respirar aliviado. Ao que parece, toda a turbulência vivida entre 2008 e 2013, ficou realmente distante no retrovisor. O cartola ao menos conseguiu limpar a bagunça que ele mesmo fez, se desfazendo de uma tranqueira depois da outra, antes que John Wall fosse contaminado.

Muitos podem pensar que o Wizards hoje é um time jovem, em ascensão. A segunda parte se sustenta: depois de cinco anos fora dos playoffs, eles voltaram na campanha passada e ainda venceram o Chicago Bulls numa série. Mas a pecha de um elenco jovial a gente pode esquecer. Está certo que Wall e Bradley Beal são os grandes chamarizes, com 24 e 21 anos cada. Otto Porter Jr. também tem 21. No restante da rotação do técnico Randy Wittman, porém, são seis atletas acima dos 30 anos, com destaque para os 37 de Paul Pierce e os 38 de Andre Miller.

O impagável Gilbert Arenas ainda tirou sarro após levar armas ao vestiário

O impagável Gilbert Arenas ainda tirou sarro após levar armas ao vestiário

O plano de Grunfeld está claro: rodear suas jovens estrelas com veteranos profissionais, para reforçar uma cultura séria no vestiário e jogar para vencer agora, para já. Talvez o mais prudente fosse dosar mais as coisas e detectar mais algumas promessas para desenvolver um sólido núcleo ao redor de sua dupla do perímetro. Todavia, levando em conta o circo que foi a franquia no início da década, o caminho adotado fica mais compreensível.

Nessa mudança de hábitos, o pivô Nenê foi essencial. Não só pelo fato de o clube ter se livrado de McGee e Young no mesmo negócio, mas também devido principalmente à influência do brasileiro dentro e fora de quadra. Ele não esquivou de dar tremendas broncas em Wall e Beal, quando julgou que os dois estavam sendo excessivamente individualistas, sem se importar com o sucesso do time.

O pivô acabou se tornando um aliado importante para Wittman, que também merece crédito depois de fracassar em Cleveland e Minnesota. Promovido a treinador após a demissão de seu camarada Flip Saunders, ele fez a defesa da equipe evoluir consideravelmente, se estabelecendo entre as dez melhores da liga desde a temporada passada. “Esse foi o primeiro passo. Nesta liga, você tem de vencer pela defesa e precisa ter disciplina, e acho que Randy, desde o primeiro dia, começou a pregar isso. Ele tratou todos da mesma forma, mas cobrava bastante. Ele fez um ótimo trabalho ao convencer os jogadores”, afirma Grunfeld.

Wittman orienta, e Gortat intimida na defesa. De moicano e tudo

Wittman orienta, e Gortat intimida na defesa. De moicano e tudo

Numa Conferência Leste ainda desolada, Cleveland Cavaliers e Chicago Bulls apresentaram as contratações de impacto, as estrelas para serem apontados automaticamente como favoritos. Mas o clube de Washington também tem talento, experiência e confiança para ir longe. Depois de tanta palhaçada na capital norte-americana, esse time agora é sério.

O time: Trevor Ariza foi embora, Nenê voltou a ser afastado por conta de sua insistente fascite plantar, e, ainda assim, o Wizards segue com uma retaguarda imponente: é a quinta defesa mais eficiente no início de temporada, atrás de Warriors, Rockets, Spurs e Grizzlies. Nada mal. John Wall coloca muita pressão nos armadores adversários e, por trás dele, está um garrafão muito forte, físico para fechar os espaços. Gortat ajuda muito nesse sentido, assim como a coleção de pivôs que Grunfeld acumulou. Drew Gooden, Kevin Seraphin, Kris Humphries, DeJuan Blair… São diversos brutamontes para se revezar e castigar os adversários.

No ataque, a ideia é acelerar sempre que possível, explorando o arranque de Wall, um dos jogadores mais velozes do mundo. Em situações de meia quadra, contra uma defesa já estabelecida, o time tende a encontrar mais dificuldades, mas a perspectiva é de melhora para quando Beal entrar em forma e sitnonia e quando Nenê retornar. Pierce oferece mais caminhos a serem explorados com seu jogo de mano-a-mano, visão de quadra e chute de longa distância. O conjunto de pivôs também se complementa bem.

A pedida: vocês vão dar licença, mas o Wizards tem o direito, sim, de pensar até mesmo nas finais da NBA.

Porter Jr., produtivo após ano perdido

Porter Jr., produtivo após ano perdido

Olho nele: Otto Porter. No imprevisível Draft de 2013, o segredo mais mal guardado era de que, se pudesse, Washington selecionaria o ala de Georgetown na terceira posição. Não deu outra. O gerente geral Grunfeld via no espichado atleta um complemento ideal para Wall e Beal. Imagine, então, a apreensão do cartola ao observar uma primeira temporada desastrosa do garoto. Porter Jr. foi um fiasco sob qualquer perspectiva, desde a liga de verão, em que se mostrou perdido em quadra. Para piorar, sofreu uma lesão no quadril que o afastou da pré-temporada. Quando se recuperou, Trevor Ariza e Martell Webster ocupavam todos os minutos nas alas, e o time estava ajeitado, de modo que um calouro sem ritmo de jogo não teria espaço. Foi preciso paciência de ambas as partes, jogador e técnico, mas a espera valeu a pena. O jovem atleta de 21 anos ainda está no banco, mas agora tem um papel bem definido na rotação de Wittman e, em 15 jogos, já recebeu mais minutos do que no campeonato passado inteiro. De braços bastante longos e ágil, tem se esforçado para ajudar sua equipe nas pequenas coisas, contribuindo para uma defesa já forte. No ataque, muito mais confiante, elevou seu aproveitamento nos arremessos, com destaque para os 38,9% de três pontos.

Abre o jogo: “Só quero aproveitar o momento, sem me preocupar com o futuro, embora isso seja difícil. Vou para casa, e todo mundo fica me perguntando. Cara, é maluco. Até criancinhas de 4 anos perguntando se eu vou para o Wizards. E eu pergunto como diabos eles sabem dessas coisas. Com 4 anos de idade, eu nem sabia o que eram jogadores de basquete. Como eles sabem agora até sobre o mercado de agentes livres?”, Kevin Durant, ao USA Today, sobre a relativa pressão que sofre nos arredores de Washington, durante as férias, com muita gente esperando por sua assinatura em 2016, quando expira seu contrato com OKC.

Cassell levou Pierce para jogar com Beal. E aí se mandou para L.A.

Cassell levou Pierce para jogar com Beal. E aí se mandou para L.A.

Você não perguntou, mas… Pierce nem cogitava assinar com o Washington como agente livre, até que recebeu uma ligação de seu ex-companheiro de Boston, Sam Cassell. O clube estava preparado para perder Trevor Ariza e escolheu o veterano astro como uma opção. Será que rolaria? Bem, o ex-armador teve de ser persistente. Ambos estavam em Las Vegas e marcaram um almoço. No mesmo dia, também jantaram. Foi aí que o ala começou a assimilar a ideia. Gostou do plano e fechou contrato. A ironia é que, dias depois, Cassell deixou o Wizards e foi para o Clippers, trabalhar com Doc Rivers. Justamente o time para o qual Pierce acreditava que iria, caso não renovasse com o Nets.

2503-690978FrUm card do passado: Chris Webber. Infelizmente, aqui cabe um lembrete desagradável. Das últimas duas vezes que o time da capital conseguiu montar uma base forte e promissora, o sucesso durou pouco. No final dos anos 90, com a reunião de dois dos Fab 5, C-Webb e Juwan Howard, a equipe sonhava alto. Em 1996-97, chegaram a enfrentar o mítico Bulls nos playoffs e, claro, foram eliminados. A expectativa, porém, era de que voltassem ao mata-mata, e mais fortes. Não rolou: na temporada seguinte, até venceram mais do que perderam (42-40), e não foi o suficiente. As frustrações foram se acumulando, e a franquia fez uma das piores trocas possíveis: mandou Webber para Sacramento e recebeu Mitch Richmond e Otis Thorpe, dois veteranos que já estavam capengando. Na década passada, o núcleo formado por Arenas, Jamison e Butler durou mais tempo, deu trabalho para o Cavs do jovem LeBron, mas acabou se dissipando. A ver o que acontece com a formação de Wall e Beal.


Helinho: “Quero terminar a carreira jogando bem”
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Giancarlo Giampietro

Helinho para o ataque: se aposentando nos seus termos

Helinho para o ataque: se aposentando nos seus termos. Crédito: Newton Nogueira

Aos 39 anos, pode ser que Hélio Rubens Garcia Filho esteja se preparando para se despedir das quadras – mas certamente não do basquete, pretendo estudar para virar treinador. Então falemos em aposentadoria pelo menos como atleta. Se optar por isso, mesmo, não havia lugar mais adequado para fazê-lo do que em Franca, .

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Por mais que tenha ganhado títulos em Uberlândia e no Rio de Janeiro, pelo Vasco, é inevitável associar Helinho à capital da basquete, a cidade aonde nasceu, na qual sua família criou algo que chega bem perto de uma dinastia brasileira. Foi por Franca, aliás, que ele conquistou seus três primeiros campeonatos nacionais, de 1997 a 1999, quando não havia chegado nem aos 25. Depois, ganharia mais três canecos ainda. Na fase de NBB, ainda seria vice-campeão em 2011 e 2013. Hoje, disputa o campeonato como seu segundo jogador mais velho – é exatamente um mês mais jovem que Marcelinho Machado.

Se em abril ele não falava em parar, agora, com o início de mais uma temporada pela frente, o discurso mudou. De modo que fica mais do que apropriado seu segundo retorno ao clube, que defendeu desde a saída das categorias de base nos anos 90 até 2000 e, depois, numa segunda passagem, de 2006 a 2012. “Acho que vai ser meu último ano de carreira jogando. Quero terminar a carreira me sentindo muito bem, jogando bem, dando minha parcela de contribuição”, afirmou ao VinteUm.

Em 2011, contra o Limeira de Ronald Ramon

Em 2011, contra o Limeira de Ronald Ramon

Está bem cedo ainda para falar de prognósticos, mas Helinho, por enquanto, vem cumprindo com suas expectativas – e o time também, com duas vitórias (sacolada para cima do Basquete Cearense e um jogo duro contra Brasília, ambas em casa). Nas duas primeiras rodadas, ele marcou 25 pontos e matou bolas de tudo que é lado da quadra, com 60% no aproveitamento dos arremessos, de dois ou três pontos. O chute que sempre foi a maior qualidade do atleta, um verdadeiro Steve Kerr brasileiro – a média na carreira apenas em NBBs nos tiros de longa distância é de 41,6%, com a diferença de que o integrante do clã Garcia já criou muito mais por conta própria, a partir do drible (média de 3,92 assistências). Sua liderança e intensidade em quadra também foram sempre subestimadas pelo público em geral.Agora, a bola vai ficar mais nas mãos de Juan Figueroa, um dos argentinos do time, ao lado de Marcos Mata, um grande reforço. A combinação do retorno do veterano e da chegada do ala da seleção argentina só vai inflar a esperança do torcedor francano, que anda sedento por uma conquista. “Estão todos muito, muito motivados para chegar mais longe do que nos últimos anos. Essa é a nossa expectativa”, afirma.

Helinho, vice-campeão do NBB em 2011 por Franca. Brasília venceu a final por 3-1

Helinho, vice-campeão do NBB em 2011 por Franca. Brasília venceu a final por 3-1

Bom, se for para levar em conta o retrospecto do clube apenas no NBB, temos as seguinte colocações: 7º, 3º, 2º, 10º e 5º. Então Helinho quer e espera ver seu clube brigando pelas primeiras posições. Não chega a falar em título, mas em vagas nas competições continentais, o mínimo que a exigente cidade espera. E algo que caberia bem para sua eventual saideira.

Confira a breve entrevista, na qual o armador relembra bons tempos com Demétrius, avalia o progresso de Leo Meindl e Lucas Mariano e fala sobre o primeiro trabalho com Lula Ferreira em um clube:

21: Como tem sido este novo retorno a Franca e quais os planos daqui para a frente? Ficará na cidade até o fim agora?
Helinho: Estou muito feliz, cara, um momento muito legal, importante. Acho que vai ser meu último ano de carreira jogando. Estou me sentindo muito bem. Quero terminar a carreira jogando bem, dando minha parcela de contribuição. A equipe é boa e já mostrou que tem qualidades. Estão todos muito, muito motivados para chegar mais longe do que nos últimos anos. Essa é a nossa expectativa. Uma vaga na Liga Sul-Americana ou na Liga das Américas tem de ser um objetivo. Mas é claro que outras equipes também estão pensando nisso. Estamos focados nisso, e eu, focado em poder fazer minha parte para alcançar isso.

Se for sua última temporada, mesmo, como imagina que vai ser? Seu papel, a média de minutos, envolvimento com o time etc.
No Campeonato Paulista eu me senti muito bem, joguei bastante tempo e até muitas vezes jogando de 2, uma posição que eu gosto de jogar. Quando tinha um armador que me passava bastante bola igual o Demétrius (risos), ficava mais fácil. Mas é um papel que gosto de fazer também. Neste momento, como disse, eu quero contribuir da forma que puder, dentro e fora da quadra, para que as coisas possam fluir da melhor maneira possível. Estou me sentindo bem, podendo ajudar, mesmo, nesse início de temporada.

Em 2001, aos 26, na melhor fase pela seleção. Partida contra Colômbia pelo Sul-Americano, com o pai ao fundo

Em 2001, aos 26, na melhor fase pela seleção. Partida contra Colômbia pelo Sul-Americano, com o pai ao fundo

(Aqui, uma breve interrupção: a menção a Demétrius Ferraciú não foi gratuita, mas, sim, pela aproximação de seu ex-companheiro de tantas jornadas, seja por clubes ou seleção nacional, hoje treinador do Limeira, aos 41 anos – dois mais velho que Helinho. Demétrius jogou até os 33. Quando ouviu o comentário de mais um representante da família Garcia, Demétrius disse: “Difícil é achar um desses hoje, né?”, com Helinho consentindo. O repórter, bobão, lembro que aquela era a “dupla do Goodwill Games”, ao que o armador respondeu: “É, aquele torneio foi bom”.

E aí vale aquela digressão: estamos falando dos extintos Jogos de Amizade, quando o calendário do esporte mundial ainda permitia eventos do tipo. Em 2001, em Brisbane, na Austrália, o Brasil deu um calor danado numa seleção dos Estados Unidos composta por atletas de NBA. O elenco tinha Baron Davis, Andre Miller, Jason Terry, Mike Miller, Shane Battier, Wally Szczerbiak, Rashard Lewis, Shawn Marion, Marcus Fizer, Kenyon Martin, Calvin Booth (!?) e Jermaine O’Neal. Os dois times se enfrentaram pelas semifinais, e os EUA venceram apenas na prorrogação, por 106 a 98.

Demétrius chegou a ter a bola do jogo nas mãos no tempo regulamentar, mas Baron Davis não o permitiu arremessá-la. A dupla de armadores brasileiros causou estragos naquela partida, acreditem. Foram 24 pontos para cada. Outra anedota: foi nessa competição que um jovem pivô chamado Nenê Hilário primeiro chamou a atenção dos olheiros internacionais, tendo sido bastante elogiado por Jermaine O’Neal, o cestinha deles na partida com 22 pontos e já uma estrela em ascensão pelo Pacers. Em geral, acho que esse é um dos episódios mais interessantes e talvez menos comentados do basquete brasileiro recente. Agora, de volta ao mundo de hoje…)

Sabemos da paixão genuína de Franca pelo basquete. O clube ainda não ganhou um NBB e não conquista um Paulista desde 2007.  Ao mesmo entendem que o time passou por uma renovação nos últimos anos. Para este campeonato, porém, você voltou, tem um cara do nível do Mata chegando. Como anda a cabeça do torcedor nesses dias? Como está a cobrança?
Na cidade sempre teve cobrança, e nada melhor do que ter cobrança para se ter motivação. Quanto mais você é cobrado, mais vai ter força para fazer. Isso acontece muito em Franca, e acho que é um dos nossos segredos. Estamos num momento importante, tentando fechar alguns patrocínios que ainda não estão acertados. Mas estamos empenhados, com um elenco de jogadores de cabeça boa, que sabem das dificuldades que existem no basquete tanto dentro como fora da quadra. O torcedor entende e abraça a equipe mais uma vez.

Essa é a primeira vez que você vai trabalhar com o Lula Ferreira, não? Pelo menos em clubes. Como tem sido a relação, lembrando sempre da rivalidade com Ribeirão Preto na década passada?
Sim, já joguei com ele na seleção, mas em clube é a primeira. Joguei mais contra aquele time do Lula quando estava no Vasco, e, não, por Franca. Mas muita gente na cidade ainda me aborda e fala disso: ‘Pô, como perdeu aquele Paulista?!’ (Risos) Mas a verdade é que eu não estava naquele time, né?  O Lula é um cara trabalhador, que tem credibilidade e conhecimento da causa. Tem sido um convívio tranquilo. Estou muito feliz, e ele dá liberdade para falar no dia-a-dia. Acho que ele também está sentindo a mesma coisa. Quando você quer ajudar, fazer o bem, naturalmente o bem volta para nós mesmos. A gente se encaixou muito bem.

Helinho, Franca, família Garcia, basquete

Tá em casa

Do ponto de vista nacional, na hora de olhar para o time francano, a curiosidade sempre aguça em relação ao Leo Meindl e o Lucas Mariano. O que você pode nos contar a respeito do progresso deles? O que tem sentido?
São dois jogadores talentosíssimos, que vieram da nossa categoria de base e têm muita confiança no jogo deles. Eu particularmente também aposto muito neles. Acho que no futuro próximo os dois vão estar pegando seleção brasileira. Sinto ainda um crescimento deles nos treinamentos, nos jogos, isso fica nítido. Estamos dando muita força para eles, que serão muito importantes para o clube. Estou sempre falando para eles que os chamo os chamo de ‘galudos’. Estão sempre perguntando, pedindo conselhos, querendo melhorar. Isso, acredito,  é a característica de grandes talentos que querem chegar a algum lugar. Eles têm isso.

E o pai, como está?

Está bem, está bem. Quase que ele veio hoje. Deveria ter vindo, aí ficava completo.


Fã de Harley e Stephen King, gigante sérvio desafia brasileiros
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Giancarlo Giampietro

Cara de mal e físico de urso: o páreo duro que os brasileiros têm pela frente

Cara de mal e físico de urso: o páreo duro que os brasileiros têm pela frente

Miroslav Raduljica é uma grande figura, nos mais diversos sentidos. Com 2,13 m de altura e um peso que nenhuma medida oficial jamais vai precisar, o pivô se transformou aos 26 anos numa inesperada arma da seleção sérvia nesta Copa do Mundo, pronto para desafiar novamente o garrafão de NBA composto por Tiago Splitter, Anderson Varejão e Nenê, nesta quarta-feira.

Raduljica provavelmente já chamaria sua atenção logo no tapinha inicial. O cara é realmente imenso.  “Ele é um cara grande, é como um urso”, resume seu jovem companheiro de seleção, o ala Bogdan Bogdanovic.

Nesse corpanzil todo, o sérvio decidiu também usar uma grande quantidade de tinta para compor as mais diversas, complexas e sinistras tatuagens. Os desenhos podem envolver até mesmo um livro de seu autor preferido: Stephen King, para quem ele sonha apresentar a tattoo especial. A propósito, ela está em seu antebraço esquerdo, e desconfio que tenha como inspiração um dos volumes que compõem a série “A Torre Negra”, com caveira metida no meio – se alguém souber, favor eclarecer. “Nunca assisti TV. Sempre fui muito ligado em livros. Quando ganhei meu primeiro do Stephen King, tinha uns 10 ou 12 anos, e fiquei fascinado. Era só disso que queria saber”, afirma em entrevista ao site oficial do Milwaukee Bucks, seu ex-time.

Se não for o seu gosto trocar ideias sobre o best-seller King, Raduljica também pode falar bastante sobre a Harley-Davidson, a fábrica de motocicletas fundada justamente em Milwaukee. “Sou o maior fã no planeta”, garantiu , tendo chegado para conhecer as dependências do Bucks com uma camiseta preta tradicional da marca. “Não é uma coincidência. Comprei ontem quando estava conhecendo a cidade. Estava muito empolgado de ter visitado o museu e depois fui para a loja. Acho que comprei a loja inteira.”

O problema, minha gente, é que, embora essas informações ajudem a humanizar o personagem – “por trás daquela carcaça toda, reside um coração” –, a compra de roupas para motoqueiros também pode reforçar sua imagem de malvado: fica andando todo de preto e jaqueta de couro por aí, parecendo um Son of Anarchy aditivado. Não obstante, desde que se apresentou para seu primeiro ano na NBA, resolveu cobrir o braço direito também. Entre as novas tatuagens está uma escritura: “Memento mori“. É uma frase em latim que significa basicamente: “Lembre-se de que você vai morrer”. E aí? Não é um amor? Além disso, decidiu cultivar para o Mundial uma barba de tal espessura e comprimento que já rivaliza com a de James Harden.

Sons of Anarchy

Sons of Anarchy

Imaginem esse tipo, então: gigante, largo, todo tatuado, cabelo raspado nas laterais e muito barbudo, além do look sombrio. Se você for o pivô adversário, tendo de aguentar uns 30 ou até mesmo 40 minutos com um sujeito desses, faz como? Mas o pior, MUITO PIOR: e você só for um pobre repórter que cobre basquete!?

Por acaso dá vontade de perguntar algo na zona mista, ou melhor passar reto e olhando para baixo, de preferência? Durante a temporada da NBA, quando o calouro se destacava ao sair do banco de reservas para arrebentar em quadra, os setoristas do Bucks se depararam com esse dilema. Obviamente, o dever de reportar é soberano, e eles no fim “encaravam” – ou tinham de encarar – a fera, de gravador e microfone em punho.

Como fez o repórter Guido Nunes, do SporTV, valente que só, ao parar o pivô na zona mista, logo depois da impactante vitória da Sérvia sobre a Grécia, pelas quartas de final da Copa, em Barcelona. Sua equipe havia vencido por 90 a 72, numa das exibições mais bonitas da competição. Raduljica marcou 16 pontos e pegou 6 rebotes em 24 minutos. Quando questionado se aquela havia sido a melhor partida de sua seleção no campeonato, ele poderia ter sorrido mas optou por não fazê-lo. Apenas disse com um semblante fechado algo como: era aquela a pergunta que ele estava esperando e que, mesmo se o brasileiro o tivesse indagado sobre qual o seu modelo de Harley preferida, ele teria respondido sobre o belíssimo jogo que haviam feito. “Então você foi bem nessa”, disse.

OK, a parte das Harleys eu inventei, mas o resto foi verdade. Figura.

É de se imaginar esse tipo de contato do pivô com a rapaziada que cobriu a desastrosa campanha do Milwaukee no campeonato 2013-14 da liga norte-americana. A direção da franquia tinha realmente a esperança de competir por uma vaga nos playoffs da esvaziada Conferência Leste, mas teve de aturar, no fim, 67 derrotas em 82 partidas. Uma jornada em que o calouro Giannis Antetokounmpo foi um dos pontos positivos e na qual o pivô sérvio também teve seus momentos.

Quando Raduljica foi anunciado, a sensação foi de estranheza total. Nem mesmo a turma mais ligada no basquete europeu sabia explicar o que estava por trás daquela sacada, uma vez que o bisnagão não despertava interesse nem mesmo dos grandes da Euroliga. Não que ele fosse um completo desconhecido: como juvenil, foi campeão mundial pela Sérvia, enfrentando até mesmo a seleção brasileira naquele torneio, numa história triste que já contamos aqui. Ele fechou um contrato com o Anadolu Efes, da Turquia, mas mal foi aproveitado por lá. Foi emprestado sem parar,  jogando a principal competições de clube do continente pelo Partizan Belgrado em 2011-12. Nada de outro mundo, e, de repente, lá estava o cara no meio do Winsconsin.

O técnico Larry Drew (demitido e substituído por Jason Kidd) pouco o utilizou. O pivô só recebeu 465 minutos no total, o equivalente a dez jogos e um pingado. Mas quer saber? Em termos de produção estatística, ele esteve bem. Numa safra bastante fraca de novatos, foi um dos poucos que ficou acima da média nas medições de eficiência.O problema é que era difícil de encontrar a hora certa para usá-lo. Numa liga que prioriza cada vez mais a velocidade, o sérvio se rastejava pela quadra.

Um dos jogos em que pôde ser acionado foi contra o Detroit Pistons de Andre Drummond e Greg Monroe, no dia 22 de janeiro. Somou 8 pontos e 8 rebotes, em 20 minutos, e seu time time, aleluia!, venceu uma. Em todo o mês, foi o único triunfo, com uma ajudinha de sua atuação física. “Ele sabe como usar seu corpo”, afirmou Drew. “Ele tem dificuldade para ir de um lado para o outro da quadra, mas, para alguém do seu tamanho, ele sabe como se mexer por ali e trombar. Os jogadores inteligentes entendem o que estão enfrentando e entendem quais são suas vantagens e desvantagens.”

Raduljica sabe mesmo o que precisa fazer. “Apenas tentei ficar em uma boa posição para atacar a tabela e… brigar pelo rebote, vamos dizer assim. Sei lá. É isso o que eu faço”, afirmou, sobre o embate com Drummond, hoje o 12º homem na seleção dos Estados Unidos. “Era o jeito de jogar contra ele, que pula mais do que eu e é mais atlético. Tive de encontrar um jeito de afastá-lo da cesta.”

De braço direito limpo, Raduljica se deu bem numa noite de janeiro contra o Pistons

De braço direito limpo, Raduljica se deu bem numa noite de janeiro contra o Pistons

Nenhum dos pivôs brasileiros é tão atlético ou explosivo como o jovem do Pistons. Poucos são. Mas ele são rápidos e ágeis o bastante para incomodar o sérvio. Ao mesmo tempo, têm de se proteger na defesa, porque sabem que lá bem pancada. No duelo da primeira fase, pelo Grupo A, a seleção balcânica não hesitou em acionar o gigante logo de cara, tentando minar o garrafão adversário – e também encher seu cestinha de confiança.

Pois, sim, Raduljica está liderando o ataque da Sérvia, mais um dado inesperado, com 14,5 pontos por partida e aproveitamento de 54% nos arremessos, para alívio de Nenad Krstic, que é capitão da seleção e em quem se apostava como a referência do jogo interior. “Ele me livrou da pressão jogando tão bem assim”, diz o veterano ex-Nets, Thunder e Celtics ao site da Fiba Europa. “Não estou nem perto de 100% fisicamente. Mal posso jogar 10 ou 15 minutos, então é um grande alívio para mim vir para o jogo sabendo que Raduljica está aqui.”

Raduljica tenta abrir espaço no garrafão

Raduljica tenta abrir espaço no garrafão

Sim, o novo pivôzão sérvio está lá, limpando espaço no garrafão com muito movimento de… quadril. Fora as braçadas, ombradas e esparramadas. Os pés não se mexem tanto assim. Nenê e Splitter se viraram muito bem contra ele, mas ficaram carregados de falta. De todo modo, permitiram apenas quatro cestas de quadra em oito arremessos e forçaram quatro turnovers. Seguraram o adversário abaixo de suas médias no torneio: dever cumprido. Mas não deve ser nada prazeroso enfrentar uma montanha dessas.

Mas ele acha o maior barato. “Estou me divertindo e me sentindo muito bem. É ótimo estar de volta”, diz Miroslav, que foi vice-campeão do EuroBasket de 2009 e andava afastado da seleção desde então. Como disse: poucos davam bola para ele, como Hammond fez em Milwaukee e agora faz o técnico Sasha Djordjevic. “É uma sensação ótima. Fazia alguns anos que não ficava na equipe. Agora estou aqui num Campeonato Mundial, um momento muito especial. Dá para dizer que o treinador me deu confiança e que acredita em mim. Então me senti bem desde o primeiro dia.”

Na Espanha, Raduljica tem motivações a mais também para jogar bem e avançar com a Sérvia: está sem clube. Horas antes de fazer sua estreia, soube que havia sido trocado no mesmo pacote com Carlos Delfino, do Bucks para o Clippers, que o dispensaria na hora. A ideia de Doc Rivers era limpar salário na folha, fugir de multas pesadas e reforçar o elenco com atletas que seriam mais baratos, como o pivô Epke Udoh.

Ironicamente, Udoh é outro atleta ex-Bucks que se assume publicamente como um leitor voraz – risos: parece até ousadia dizer isso, né? –, tendo criado  um Clube do Livro para trocar dicas e promover debates, vejam só.

Será que um dia, nesse mundinho pequeno, ele vai ter a chance de se sentar com o sérvio para analisar alguma obra fantástica de Stephen King? Tomara.

Afinal, Splitter, Nenê e Varejão já têm muito com o que se preocupar nesta quarta – que os analgésicos estejam separadinhos no vestiário brasileiro.


Brasil supera traumas, anula e Scola e mete 20 pontos na Argentina
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Giancarlo Giampietro

Nenê e seus comparsas dessa vez dominaram Scola, abrindo caminho para sacolada

Nenê e seus comparsas dessa vez dominaram Scola, abrindo caminho para sacolada

O começo de jogo não poderia ser mais preocupante. Luis Scola terminou o primeiro quarto com apenas dois pontos, e a Argentina estava na frente por 21 a 13, bombardeando da linha de três pontos. Então ficava aquela impressão: você tira o cabeleira do jogo e abre o perímetro. Se for brecar os tiros de fora, vai deixar o cara jogar? Como se as coisas fossem excludentes.

Hoje, Scola joga muito mais flutuando do que próximo da cesta. Segurar o velho carrasco na cabeça do garrafão e fiscalizar os arremessos eram tarefas que poderiam ser enquadradas no mesmo plano, e, quando isso passou a acontecer, o Brasil deslanchou em quadra, caminhando para uma vitória há muito tempo aguardada sobre os rivais sul-americanos em um mata-mata de respeito: 85 a 65, e a vaga nas quartas de final conquistada. A Sérvia é o próximo obstáculo, na quarta-feira.

"Wild Thing". Um dos melhores apelidos do basquete atual, fazendo justiça a um Anderson Varejão dominante nos rebotes: 5 ofensivos _ 8 pontos e 4 assistências numa grande atuação

“Wild Thing”. Um dos melhores apelidos do basquete atual, fazendo justiça a um Anderson Varejão dominante nos rebotes: 5 ofensivos _ 8 pontos e 4 assistências numa grande atuação

Na defesa e nos pormenores do jogo interno, os pivôs foram totalmente dominantes na zona pintada e seguraram o craque argentino com uma linha estatística irreconhecível: 7 pontos, 7 rebotes e 2/10 nos arremessos, mais os frustrados 3/8 nos lances livres. Além disso, Raulzinho veio do banco totalmente confiante, ignorando por completo a idade que seu RG mostra, 22 anos, caçula da equipe, marcando 17 pontos em 22 minutos, acertando 8 de 9 arremessos.

Uma revelação em quadra o armador, ajudando o Brasil a conquistar sua terceira vitória contra a Argentina em jogos em que Scola estivesse em quadra, depois de sete derrotas em nove confrontos. Os argentinos sentiram a falta de Manu Ginóbili durante todo o torneio – mas já haviam batido os brasileiros sem o genial ala-armador do Spurs antes. Dessa vez, porém, com um elenco cheio de improvisos, mesmo com o fator emocional e o retrospecto ao seu lado, não tiveram forças para lidar com a seleção brasileira.

Eles só se deram bem, mesmo, por dez minutos. No primeiro quarto, os brasileiros permitiram que os hermanos acertassem cinco bolas de fora, 15 pontos, equivalendo a 71% do escore deles. Pablo Prigioni, de uma hora para a outra, havia se transformado num Stephen Curry, acertando todos os seus chutes – terminou o primeiro tempo com 100% de quadra e 15 pontos na sua conta.  Sabemos que o veterano argentino não é tão produtivo ou arrojado assim com a bola em mãos. Nunca foi. Suas oportunidades surgiam com base na movimentação de bola de um ataque muito espalhado.

Sem referências internas, o adversário jogava com até cinco atletas flutuando. Por dez minutos e um pouco mais, a defesa brasileira simplesmente permitiu muitos chutes livres. A partir do momento em que acertou suas rotações – novamente com participação decisiva e muito mais atenta de Alex, Larry e Raulzinho – sim, o armador foi primeiro importante na defesa, para depois arrebentar no ataque, matando seus arremessos de todos os cantos. Ajudou, claro, o acúmulo de faltas de Scola também, que teve de descansar por quase todo o segundo período. Quando ele voltou, porém, sua presença não foi o suficiente para desequilibrar novamente a defesa no perímetro.

Garrafão: território brasileiro
As faltas anotadas contra Scola e sua ineficácia geral na partida foram consequências diretas do impacto dos pivôs brasileiros (mais tamanho, mais força física, mais agilidade e disposição para prevalecer no jogo sujo e nas pequenas tarefas). Splitter, Nenê e Varejão marcaram 21 pontos somados. Aí numa análise mais rasa, pode-se até pensar que foram mal, que espera-se muito mais deles, e tal cousa, e lousa, e maripousa, como diria o Alberto Helena. Mas realmente não dá para cobrar muito mais dos grandalhões, como outros números igualmente importantes atestam. Por exemplo: eles deram 11 das 16 assistências brasileiras.

O fato é que os três foram agressivos durante toda a partida e, aos poucos, com persistência e inteligência,  controlaram o garrafão – especialmente depois do intervalo. No terceiro período, a equipe nacional apanhou o dobro de rebotes ofensivos que havia obtido em toda o primeiro tempo, chegando a nove. Varejão foi o destaque aqui, atacando a tábua de ataque sem parar, atropelando um guerreiro como Andrés Nocioni no meio do caminho. O capixaba terminou cinco rebotes do lado argentino da quadra. Splitter apanhou mais três. O trio somou 21 rebotes. Para comparar, no total, a Argentina teve 26 (contra 39 do adversário). Ressalte-se aqui também os oito rebotes de Marquinhos, um fundamento que nunca foi o seu forte. O ala estava energizado.

Com mais posses de bola, oprimindo e desmoralizando a defesa argentina no jogo interno, o Brasil passou a afinar seu ataque, elevando atee mesmo sua produção nos tiros de fora, saindo de 2/11 no primeiro tempo (18,8%) para 8/18 na segunda etapa (44,4%). Outro mundo. A mínima troca de passes envolvendo os pivôs representava um desafio para os adversários, que formaram uma seleção sem envergadura e capacidade atlética. Tiveram muita dificuldade para contestar.

Depois de tomar 5 em 9 disparos até a metade do segundo quarto (55,5%), a seleção limitou seus oponentes a apenas 4 dos próximos 17 (23,5%) até que Salem Safar procurou sacudir as coisas no quarto final. Quando a vantagem brasileira já era superior a 10 pontos. Não seria o ala reserva argentino que alteraria o panorama do jogo. A essa altura, a Argentina estava basicamente rendida, sem ter a quem recorrer para fazer frente a um time muito mais atlético, sem nenhum vestígio de temor do seu lado. Dessa vez, não houve retrospecto, não Scola, nem nada que impedisse a seleção brasileira de avançar.


Brasil é o 3º pior nos lances livres na Copa. O que acontece?
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Giancarlo Giampietro

Splitter matou 71,8% de seus lances livres nos últimos playoffs

Splitter matou 71,8% de seus lances livres nos últimos playoffs. Fotos de Gaspar Nóbrega/Inovafoto/Divulgação

Ao atualizar o retrospecto do clássico Brasil x Argentina de 2002 para cá, os confrontos que envolvem personagens da atual geração, foi preciso relembrar o que se passou em quadra no último embate – e triunfo dos nossos vizinhos ao Sul: o jogo válido pelas quartas de final das Olimpíadas de Londres 2012. Fuçando em relatos do jogo, o que aparece de familiar?

Trechos como este: “A seleção penava para alcançar a marca da mediocridade: 50%, nos lances livres. Foram 12 desperdiçados em 24 batidos. Se pelo menos seis amais tivessem caído…”.

Os números do embate estão aqui, mas vale nos concentrarmos neste fundamento. Naquele duelo decisivo, os brasileiros acertaram apenas 12 em 24 tentativas. Não é que os argentinos tenham cumprido uma jornada exemplar: erraram nove de 28 arremessos da linha (68% de rendimento). Mas 68%, convenhamos, é algo bem melhor do que 50%, numa conta que lhes valeu sete pontos preciosos numa vitória por 82 a 77.

Não sejamos simplistas, porém: numa conta óbvia, se o Brasil tivesse convertido seis chutes a mais, teria vencido, claro. Mas o mesmo poderia ser dito para duas bolas de três pontos, três de dois ou, quem sabe, dois turnovers ou três faltas a menos. Lance livre perde e ganha jogo. Assim como um rebote ofensivo cedido ou caputrado, um passe a mais no ataque etc. O basquete é um jogo de detalhes – mas são muitos os detalhes para se observar.

Ao final da fase de grupos da Copa do Mundo, fui dar uma espiada nas estatísticas gerais das equipes. Até me dar conta de uma coisa. Fazer qualquer comparação generalizada sobre as seleções caba sendo um exercício um tanto fútil. Como julgar quem tem o melhor o ataque, ou a melhor defesa, se os adversários não foram os mesmos?

O Brasil, por exemplo, enfrentou três pedreiras em seu caminho (Espanha, França e Sérvia), passou por um adversário inexpressivo (Irã) e atropelou o time mais fracote da competição (Egito). No Grupo C, a Turquia lidou com os Estados Unidos e não tiveram nenhum sparring (baaaaaaaba de verdade) para esbofetear. E aí? O que é mais difícil? O que influencia mais os dados computados? A única avaliação justa a ser feita seria entre os concorrentes de uma mesma chave, que tiveram a mesma tabela.

Posto isso, há um dado, sim, que pode ser avaliado de maneira universal, pois independe de quem está do outro lado a quadra, pois a ação do jogo está parada. Já sabe qual? Claro que sabe: o lance livre, justo aquele em que o Brasil surge com sua pior cotação. Com sofrível 61,1% de acerto, dentre os 24 times da primeira fase, a equipe de Rubén Magnano superou apenas duas: República Dominicana e Egito. Quer dizer: dos oito times eliminados, apenas os egípcios – que tomaram nesta quinta-feira a maior lavada brasileira na história dos Mundiais – ficaram abaixo.

“Tivemos um denominador comum no torneio: O baixo aproveitamento de tiros livres. Precisamos treinar, mas não em 45 dias de concentração, em 365 dias do ano”, afirma Magnano. Mas sabe quando ele soltou essa declaração? No dia 8 de agosto de 2012, após a derrota para seus compatriotas. Esse é o problema: as aflições de dois anos atrás ainda estão aqui vivinhas da silva.

Naquele jogo – mais uma vez – fatídico, Tiago Splitter errou seis de seus oito arremessos. De todas as qualidades excepcionais que o pivô oferece num jogo de basquete, certamente o lance livre não era uma delas. O que não quer dizer que não tivesse salvação. Trabalhando com Chip Engelland em San Antonio, o catarinense conseguiu elevar seu rendimento de 54,3% em sua primeira temporada (2010-11) de NBA para 69,9% no último campeonato, tendo chegado a 73% em 2012-13. Não é o ideal ainda, mas representa um progresso notável. Como explicar, então, que, no Mundial, ele esteja convertendo apenas 44%?

Varejão: 68,1% pelo Cavs neste ano e 53,8% pela seleção no Mundial

Varejão: 68,1% pelo Cavs neste ano e 53,8% pela seleção no Mundial

Não pára por aí. Ocorre que Anderson Varejão (53,8%) e Nenê (60%) também estão abaixo do que costumam produzir.

O capixaba acertou 62,7% em sua carreira de NBA, nunca ficando abaixo dos 51,3% de seu segundo ano em Cleveland. Desde então, só evoluiu, a ponto de converter 70,4% nos últimos três campeonatos. De novo: dá para melhorar, mas já é algo bem decente comparando com a maioria de seus pares. Já o paulista acertou 67,4% desde que entrou na liga americana em 2002. Em seu pior ano, foram 57,8%, também a sua primeira campanha por lá (excluindo 2007-08, em que disputou apenas 16 jogos, de modo atípico).

Então, de novo, qué pasa?

É a bola diferente? Menos carga de treinamento? Pressão?

Pode acontecer, claro, mas também não é que os pivôs não estejam habituados a situação de maior tensão.

Entre os três, apenas Nenê cai de modo significativo neste fundamento se formos comparar seus números de temporada regular com os playoffs da NBA (de 67,4% para 59,9%). Mas é preciso dizer que esse dado foi bastante abalado por sua última campanha nos mata-matas, a primeira com a camisa do Washington Wizards, neste ano, no qual ficou ficou abaixo da linha da calamidade: 34,6%, acertando apenas 9 em 26. Por outro lado, pelo Denver Nuggets, numa amostra bem maior (sete anos!), o rendimento foi de 63% – 3% a mais do que neste Mundial. De qualquer forma, temos no mínimo um “empate técnico”.

Splitter também despencaria de 68% para 62% nos mata-matas, mas ficar limitado a esta queda seria sacanagem. O que torpedeia seus números foram os horripilantes 37,2% de 2012, ano em que foi até mesmo atacado propositalmente em confronto com o Oklahoma City Thunder (o “hack-a-Splitter”).  Nos anos posteriores,  saltou drasticamente para 78,8% e 71,8% – com o San Antonio Spurs alcançando as finais em ambas ocasiões. Varejão, por sua vez, repete nos playoffs a mesma média dos jogos “que não valem nada”: 62,9%. De novo: todos superiores ao que temos visto nos últimos dias.E aí?

Ginásio cheio, jogos importantes: brasileiros estão habituados

Ginásio cheio, jogos importantes: brasileiros estão habituados

Bem, em jogos internacionais, levando em conta a falta de resultados, e a suposta “maior responsabilidade” de servir à pátria (argh), alguém poderia levantar a tese de que esse seria um bom motivo para entender o intervalo que existe entre o que produzem por seus clubes e pela seleção. Mas isso seria realmente mera especulação. Apenas aqueles que estão mais próximos dos atletas podem avançar neste campo com mais propriedade.

Outro ponto importante que não pode ser relevado: se estamos falando aqui apenas dos pivôs, é porque os lances livres batidos pela seleção se concentram nesta trinca. Algo recorrente num jogo de basquete, claro, já que os grandalhões estão trombando muito mais sujeitos a trombadas e tudo o mais.  Dos 95 cobrados em cinco jogos, 51 foram deles (53%). Os alas Marquinhos, Alex e Leandrinho chutaram 27 (28%). Huertas, 11, Raulzinho, apenas um e Larry, nenhum (12%). Um jogo mais agressivo dessa turma em direção ao aro também poderia balancear as coisas e elevar o percentual geral do time. Quando se fala em jogo interior, perto da cesta, isso não quer dizer ações exclusivas com os pivôs. Agora, independentemente de seus tropeços, os três talentosos atletas não podem deixar de ser abastecidos e explorados.

De qualquer forma, temos aqui um mistério que comissão técnica brasileira ainda não resolveu e que se arrasta de modo preocupante para enfrentar um adversário que tem mais essa vantagem no aspecto emocional: terminaram a primeira fase com a terceira melhor média do torneio (76%), abaixo de Espanha e Filipinas. Mantida essa média, temos aí um detalhe que já estaria no papo para a Argentina. Restaria, então, aos brasileiros vencerem as outras pequenas e igualmente importantes batalhas de um jogo de basquete.


Como não? Brasil reencontra Argentina; veja o retrospecto
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Giancarlo Giampietro

Flamenguista Laprovíttola e a duplinha Scola e Prigioni. De novo

Flamenguista Laprovíttola e a duplinha Scola e Prigioni. De novo

Sí, sí. É isso, mesmo. Deu Brasil x Argentina novamente.

Para que o clássico sul-americano se repetisse logo de cara nos mata-matas da Copa do Mundo de basquete, era necessária pelo menos uma combinação de três resultados no Grupo B: que as Filipinas lavassem a alma com pelo menos uma vitória sobre a outra zebra do torneio, Senegal; que a Croácia afastasse os rumores sobre autocombustão (mais uma!?) e vencesse Porto Rico; e que a Grécia provasse sua consistência redescoberta para derrotar nossos vizinhos do Sul, para que  eles terminassem em terceiro. Check, check, check. Confere, e cá estamos em mais um jogo decisivo entre os dois rivais.

Em competições intercontinentais, o confronto acontece pelo terceiro evento consecutivo. Sem brincadeira: rolou no Mundial passado, em 2010, e também nas Olimpíadas de Londres 2012. Vocês me deem licença, então, para resgatar e editar um texto de dois anos atrás, recuperando o retrospecto – já nem mais tão recente assim – entre as duas gerações que vão se reencontrar no domingo (17h, horário de Brasília). Uma experiência dolorosa para muita gente, eu sei. Mas esse histórico, que vem de 2002 para cá, é um componente emocional inegável, que tem de ser enfrentado nas próximas 40 e poucas horas.

Desde o torneio de Indianápolis, 12 anos atrás, muitas figuras fundamentais se despediram das quadras. Deu tempo de Marcelinho Machado, por exemplo, anunciar em duas ocasiões que não jogaria mais pela seleção brasileira, para reconsiderar prontamente. Do outro lado, Walter Herrmann também alternou bastante: foi, voltou, foi, voltou. De constantes, mesmo, temos Luis Scola e seu vasto arsenal ofensivo, que continua superprodutivo e eficiente (21,6 pontos por jogo no atual campeonato, mais 8,8 rebotes, 2,2 assistências e 52% nos arremessos).

Splitter, Leandrinho, Huertas e muito mais: Brasil dessa vez é quem tem força máxima

Splitter, Leandrinho, Huertas e muito mais: Brasil dessa vez é quem tem força máxima

A diferença é que dessa vez são os argentinos que entram com desfalques. Manu Ginóbili e Carlos Delfino fazem uma falta danada no perímetro: não só como pontuadores, mas também como criadores e defensores. Já o Brasil surge com força máxima. A primeira vez em muito, muito tempo, com todos os seus atletas apresentados, fisicamente bem (ao menos segundo as aparências e os relatos oficiais). Esse é um fator que deve passar obrigatoriamente mais confiança para os rapazes de Rubén Magnano – algo que compense de alguma forma o desequilíbrio emocional gerado por tantas derrotas no decorrer da última década (pensando apenas em grandes competições, ok? Sul-Americano, isto é, excluído). Vamos lá, passo a passo:

Varejão x Oberto

O jovem Anderson Varejão disputa rebote com Fabricio Oberto – Rogério Klafke também estava lá

– Os argentinos conseguiram sua primeira grande vitória em clássico pelo Mundial de 2002, em Indianápolis, onde seriam vice-campeões. A seleção ainda era treinada por Hélio Rubens, havia dois irmãos Varejão no garrafão, Tiago Splitter estreava com 17 anos, Nenê já estava fora (havia acabado de ser draftado pelo Nuggets), e a armação era dividida por Helinho e Demétrius, hoje assistente de Rubén Magnano. Que, na época, trabalhava para seu país natal. O primeiro tempo terminou empatado em 29, mas os caras abriram boa vantagem no terceiro quarto e triunfaram por 78 a 67.

– Eles repetiram a dose no Pré-Olímpico de 2003. Um ano depois, se consagrariam como campeões olímpicos em Atenas. Em San Juan, Porto Rico, ajudaram a empurrar ladeira abaixo a seleção braileira, agora com Lula Ferreira no comando e bastante renovada. Os ainda garotos brasileiros sofreriam mais três reveses – até para o México de Nájera! – e seriam eliminados. Aquele foi um jogo feio, arrastado e equilibrado do início ao fim, com 35 (!!!) desperdícios de posse de bola.

– Avançamos no tempo consideravelmente agora, ignorando a esvaziada Copa América de 2005, e chegamos a Las Vegas, 2007. Só jogatina e ressaca: o Brasil sem Anderson Varejão, mas com Splitter já bem crescido na Europa e Nenê retornando após quatro anos, e a Argentina sem: 1) Ginóbili, 2) Nocioni, 3) Oberto e 4) Herrmann. Foram duas derrotas para os campeões olímpicos: uma pela segunda fase e a outra, valendo vaga nos Jogos de Pequim, pelas semifinais. Este blogueiro aqui estava lá, ganhou muitos pontos na escala de animosidade com boa parte do atual grupo, em uma cobertura de ambiente tumultuado, extremamente tenso. Luis Scola jogou uma barbaridade, Delfino acertava tudo de fora, Kammerichs tinha o bigodão mais legal do basquete, e foram duas pauladas bem doloridas que custaram a demissão de Lula. What happens in Vegas, stays in Vegas, baby!

Marcelinho x Delfino

Em Las Vegas-2007, Marcelinho viu a Argentina de Delfino vencer mais uma vez

– Agora estamos em 2009, com o tiozão Moncho Monsalve no comando, bem piradão, e voltamos a San Juan, pela Copa América, para enfim derrotar uma Argentina que tenha escalado o tal do Scola. Foi pela primeira fase, não tinha vaga em jogo, nem nada. Das principais peças, eles tinham apenas o ala-pivô número 4 e Prigioni, enquanto o Brasil jogou com Varejão, Splitter, Huertas, Leandrinho, Alex e, sim, Duda. Injusto? O trauma era tão grande, que não importava.

– Em 2010, Mundial de Istambul, ainda ouvindo instruções em espanhol, mas com um sotaque argentino: Magnano foi contratado para o lugar de Moncho. A seleção apresenta uma defesa combativa de um modo nunca visto nesta geração, quase derrota os Estados Unidos, mas é eliminada pelos caras nas oitavas de final. Foram 37 pontos de Scola, santamãe, com um quarto período, infelizmente, inesquecível. Para completar, Delfino e Jasen (lembra dele!?) mataram juntos 21 pontos de longa distância. Nocaute.

– Que tal lavar, um pouco, da alma, então, derrotando os arquirrivais logo na casa deles, em Mar del Plata-2011? Foi o que fez a seleção de um Marcelinho Huertas dominante na armação e de um Hettsheimeir surpreendente, não importando que os grandes ícones da Geração Dourada estivessem reunidos por ali. Foi um triunfo que encaminhou a equipe nacional para a primeira vaga olímpica desde Atlanta-1996. Já classificados, os dois times se enfrentaram, então, na final: de moicano, e ressaca das brabas, a trupe tupiniquim perdeu por cinco pontos.

– Em Londres 2012, depois de a Espanha supostamente manipular a tabela, o Brasil terminou em segundo em seu Grupo A. E quem estava em terceiro no B? Sim, a Argentina, numa repetição do atual cenário. As duas equipes contavam com seus grandes nomes, e isso pesou a favor do time que já tinha duas medalhas olímpicas (o ouro de Atenas e um Bronze em Pequim). Os argentinos abriram vantagem de até 15 pontos, viram os brasileiros reagirem, mas ganharam no final. Um drama particular daquele jogo? Os lances livres…

Passando por tantas derrotas assim, não dá para dizer, mais uma vez, que o jogo deste domingo sirva de tira-teima, né? Apenas valeria se nos limitássemos aos confrontos deste ano, em que já se enfrentaram em dois amistosos, com uma vitória para cada lado, cada um vencendo em casa. Mas eram apenas amistosos, bem no início da fase de preparação. No primeiro, no Rio, o Brasil venceu bem, explorando seus pivôs, mas Luis Scola não estava do outro lado. No segundo, em Buenos Aires, um bombardeio de três pontos desarmou a defesa de Magnano. Dois jogos que provavelmente não dizem nada.

Agora, com tanta história envolvendo os rivais, é impossível relevar o retrospecto geral. Os brasileiros vão precisar de toda a maturidade que puderem acessar para encarar esses diversos tropeços, erguerem a cabeça e partirem para mais um clássico para se acrescentar neste relato. Em 2016, vai ter mais?


Armadores brilham, mas pivôs também ajudam em vitória brasileira
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Giancarlo Giampietro

Huertas comandou a seleção no quarto período em dura, mas importante vitória

Huertas comandou a seleção no quarto período em dura, mas importante vitória

Olhando de primeira, a França não é um time que você vá julgar como de “garrafão forte”, de “referências no jogo interno” etc. Mas a verdade, mon Dieu, é que eles têm um conjunto de gente explosiva e loooooonga, comprida, de muita envergadura, mesmo. Um pacote atlético que dificultou ao máximo a vida dos pivôs brasileiros no jogo de estreia na Copa do Mundo de basquete.

Justamente os pivôs, o ponto forte da seleção de Magnano. Atração nos amistosos, o quarteto Spliter-Nenê-Varejão-Hettsheimeir foi limitado a apenas 19 pontos neste sábado, em Granada. Se fôssemos analisar este número num vácuo, pareceria uma tragédia. Derrota na certa, né? Acontece que os “baixinhos” contra-atacaram dessa vez, liderando o Brasil para uma importante vitória por 65 a 63.

Não foi bonito – faltam mais passes no ataque, muito mais movimentação fora da bola, tecla que vendo batida há tempos. Não foi fácil – e, tirando Irã e Egito, dificilmente esse panorama vai se alterar, até pelo problema citado. Mas já valeu para levar a melhor num confronto direto, que de cara deixa a equipe em boa posição pensando na classificação geral do grupo e no emparelhamento dos mata-matas.

Por falar em matar, Marcelinho Huertas, depois de um acidentado primeiro tempo, apareceu de modo decisivo na segunda etapa. O armador anotou oito pontos nos últimos quatro minutos, encarando a defesa francesa. Em situações de pick-and-roll, os adversários priorizaram descaradamente a contenção dos grandalhões brasileiros. Huertas soube, então, aproveitar os espaços para entrar no garrafão e usar seu arsenal de tiros em flutuação para machucá-los. Algo que fez a diferença, para atenuar o drama de novas falhas nos lances livres,  com quatro bolas desperdiçadas nos dois minutos finais (sem contar a última de Marquinhos).

Raulzinho ataca Rudy Gobert, seu companheiro de liga de verão pelo Utah Jazz (no ano passado)

Raulzinho ataca Rudy Gobert, seu companheiro de liga de verão pelo Utah Jazz (no ano passado). Crédito: Gaspar Nóbrega/Inovafoto

O veterano do Barcelona foi quem carregou o time nos instantes derradeiros, terminando com , mas foi o jovem Raulzinho quem segurou as pontas entre os segundo e terceiro períodos. Extremamente combativo, importunou Thomas Heurtel e, especialmente, o lento-quase-parando Antoine Diot, ajudando a defesa brasileira a mudar o ritmo da partida.

A França havia começado de modo impositivo. Boris Diaw deitou e rolou contra Nenê, flutuando no perímetro. Nicolas Batum estava com a munheca em dia. Rudy Gobert veio do banco para dominar o garrafão por alguns minutos. Chegaram a abrir nove pontos de vantagem. A partir das trocas, um festival de substituições que mata qualquer diretor de transmissão, perderam rendimento, mas muito por conta do abafa promovido pelos brasileiros.

A seleção realmente brigou pela bola. Algo que é elementar, oras, mas nem sempre acontece – e pondo isso de maneira geral, sem ser algo especificamente direcionado para o time de Rubén Magnano. Contra atletas como Gelabale, Batum, Diaw, Pietrus, Gobert, é preciso inteligência, mas igualmente não podem faltar intensidade e determinação.

Nesse ponto, foi muito bom ver a postura de Raul, que oscilou tanto na fase preparatória, mas respondeu ao desafio no primeiro jogo para valer. Foi tão bem, que Larry nem precisou ser acionado (apenas 3min51s para o americano). No ataque, o armador do Murcia também também teve o pulso firme: não cometeu nenhum desperdício de bola em 17min29s de ação. Terminou com seis pontos e, segundo a estatística oficial, sem nenhuma assistência. Mas isso é piada: houve pelo menos um momento em que serviu a Splitter no contra-ataque, num passe que teria de ser computado. Foi de Raul o maior saldo de cestas brasileiro: +10, seguido pelos +8 de Varejão. Energia traduzida da melhor forma.

A vibração de Marquinhos nesta foto de Gaspar Nóbrega diz muito sobre a intensidade brasileira. Incomum, não?

A vibração de Marquinhos nesta foto de Gaspar Nóbrega diz muito sobre a intensidade brasileira. Incomum, não?

Do incansável Alex, já esperávamos isso. Fez o que pôde para tentar limitar Nicolas Batum, que terminou com 13 pontos e 4/10 nos arremessos. É difícil marcar o ala fora da bola, devido a sua velocidade e impulsão. No ano a mano, o ala do Portland Trail Blazers não conseguiu produzir contra o brasileiro. Já o empenho de Marquinhos vale como uma grata surpresa, convenhamos. Não é tão comum vê-lo com tanta vitalidade em quadra. Muito mais no ataque, partindo para a cesta, em vez de estacionar no perímetro para algumas bolinhas marotas de três – na defesa ainda é propenso a alguns lapsos daqueles. De qualquer forma, esse espírito fogoso veio em boa hora para o flamenguista, para fazer frente a Gelabale, um ala discreto, mas que causa impacto com sua envergadura e presença física.

Até porque a rotação de laterais brasileiros vai se encerrar por aí. Marcelinho Machado foi chamado por Magnano no segundo quarto, e o que a França fez? Nas três primeiras posses de bola, atacou o camisa 4 sem pestanejar. Primeiro com Gelabale de costas para a cesta: dois pontos. Depois, com Edwin Jackson, mais baixo e explosivo, em corte frontal, forçando a falta. Depois, Machado conseguiu um desarme, impedindo que Gelabale recebesse a bola, mas foi com uma ajudinha de Varejão para diminuir espaços.

Varejão, aliás, foi o melhor dos pivôs hoje. Muito menos pelos 8 pontos marcados em 21 minutos do que pelo alvoroço de sempre que ele apronta em quadra, sempre ativo nos rebotes, ressuscitando diversos ataques falhos brasileiros (foram cinco apanhados na tábua ofensiva). A agilidade do carioca também impressiona quando ele faz o combate na dobra num pick-and-roll e consegue se recuperar sem deixar que seu homem ganhe terreno.

Nenê coletou 8 rebotes, mas cumpriu um primeiro jogo quém das expectativas, visivelmente incomodado com os movimentos dos atléticos defensores franceses vindo do lado contrário (não foi um privilégio seu:  Splitter também levou tempo para entender a melhor forma de enfrentá-los, terminando com 6 pontos e 3 rebotes). O pivô do Washington Wizards acertou apenas 2 de 6 chutes de quadra, sendo bloqueado pelo menos em duas ocasiões. Além disso, cometeu quatro turnovers e simplesmente não conseguia frear Diaw do outro lado.

Quando o ala-pivô francês, um craque, atacaou  mais perto da cesta, o são-carlense e, principalmente, Splitter tiveram um pouco mais de sucesso. Em geral, porém, o atleta do Spurs foi soberano em suas ações internas, com 6/10 nos chutes de dois, somados a suas cinco assistências em 29min51s. Com Diaw em quadra, a França teve saldo positivo de 6 pontos, registre-se.

Coletivamente, no entanto, os pivôs brasileiros foram valiosos para controlar a batalha dos rebotes, um ponto-chave para este confronto: 42 a 30. Mais importante: os franceses apanharam apenas quatro rebotes ofensivos contra 16 dos vencedores. Considerando que, no geral, o Brasil acertou apenas 37,7% de seus arremessos (16/42, sendo 5/15 dos três pontos), esse número ganha uma relevância considerável. Isto é: ainda que a pontuação da linha de frente tenha sido baixa, essa não é toda a história.

Então vale revisar um pouco a coisa: os protagonistas na vitória foram os armadores. Mas os valentes grandalhões também deram um belo dum empurrão, fazendo o serviço sujo de modo competente.

Varejão na briga por mais um rebote, deixando a bola viva no ataque (improdutivo) brasileiro

Varejão na briga por mais um rebote, deixando a bola viva no ataque (improdutivo) brasileiro


Brasil anula gigante e trucida o Irã; Huertas de luto
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Giancarlo Giampietro

Sim, era o Irã.

O mesmo Irã que, nas duas primeiras rodadas do quadrangular, havia perdido por apenas oito pontos (77 a 69) para a Eslovênia e por 13 para a Lituânia (80 a 67).

Obviamente, o time mais fraco do torneio amistoso. Mas não tão frágil assim com o Brasil fez parecer neste sábado numa vitória massacrante por 92 a 52. Fazendo uma subtração, temos 40 pontos de vantagem, ou cinco vezes mais o que os eslovenos fizeram.

Jogo tranquilo, até nos lances livres. Splitter: 5/5

Jogo tranquilo, até nos lances livres. Splitter: 5/5

Cada jogo é uma história, claro. Tem muito a ver também com o modo como os estilos dos oponentes se encaixam. Para falar em tática, técnica, proposta e prancheta do Irã, não tem como fugir do grandalhão Hammed Haddadi. Tudo nessa seleção gira em torno do pivô ex-Memphis Grizzlies.

Contra os eslovenos, por exemplo, ele foi um estrondo: 18 pontos, 9 rebotes e 6 assistências em 35 minutos de ação (haja fôlego!). Contra os lituanos, 12 pontos, 10 rebotes e 2 assistências em 27 minutos, sendo limitado por quatro faltas cometidas.

A bola vai para o poste (no sentido mais amplo possível), e dali ele trabalha com ela, Girando lentamente de costas para a cesta, mas com sólido jogo de pés, munheca e boa visão para o passe. Até mesmo o Brasil já tido certa dificuldade contra o cara, no Mundial de 2010 – ainda que tenha vencido por 15 pontos, só o primeiro quarto foi vencido com autoridade, e o time estava desfalcado de Nenê e Varejão.

Acontece que a seleção dessa vez fez um trabalho mais forte, até por ter quem o marque no mano a mano, sem precisar de ajuda: Nenê, que o anulou no primeiro tempo. Na etapa inicial, Haddadi teve de se contentar com 2 pontos, 3 rebotes e apenas uma cestinha de quadra em cinco tentativas. Nem o MVP do último campeonato asiático, nem sua equipe estão acostumados com números paupérrimos desses.

Com Haddadi fora de combate, caminho aberto para uma lavada de 48 a 24. Após o intervalo, as coisas não ficaram muito mais fáceis para ele. Sai Nenê, entra Splitter. Sai Splitter, entra Varejão, numa ciranda de ótimos defensores. Não passou, mesmo dos 2 pontos na partida e 4 rebotes em 24 minutos arredondados.

Se você contem o gigante, tem mais condições de contestar os chutes de fora, forçando 14 erros em 17 tentativas do perímetro (18%). Nas duas partidas anteriores, haviam matado 11 em 27 (40%).

De resto, soltinho da silva em quadra, o Brasil converteu seus lances livres (miraculosos 77% de aproveitamento, com 20/26, incluindo 4/5 de Nenê e 5/5 de Splitter!!!) e matou também as confortáveis e saudosas bolas de três pontos (49%, 10/21, com 4/6 de Marquinhos).

Muita emoção.

Marquinhos, inclusive, foi o cestinha do time, com 24 pontos em 21 minutos, na sua melhor atuação, disparada, neste ano.

As duas equipes agora vão se reencontrar em Granada, na Espanha, já com um Mundial valendo: dia 31/08, segunda rodada. Até lá, o Brasil ainda faz mais um jogo-teste contra o México, na quarta.

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Sobre Huertas, uma nota triste: seu avô, Américo, de quem o armador era muito próximo, morreu na noite desta sexta-feira. Ele já estava internado em estado grave durante toda essa fase de amistosos da seleção brasileira. Obviamente é difícil se concentrar no trabalho – qualquer trabalho que seja – num momento delicado desses, e todas as suas recentes atuações precisam ser encaradas sob outro prisma. Ainda assim, foi para o jogo hoje, com um minuto de silêncio antes do tapinha inicial. Fica aqui uma saudação ao atleta e sua família.

*  *  *

Sobre Giovannoni: recuperado de torção no tornozelo, o ala-pivô foi para quadra pela primeira vez nestes amistosos na Eslovênia – e pela segunda em toda a fase preparatória. Depois de ter jogado por apenas três minutos contra os Estados Unidos, ele foi chamado por Magnano com 3min13s restando no primeiro quarto, para entrar no lugar de Hettsheimeir (titular ao lado de Splitter) –Varejão foi acionado apenas no segundo tempo. Ficou em quadra por 16 minutos dessa vez e terminou com 3 pontos, 4 assistências e 1 rebote, acertando 1 de 6 arremessos de quadra (1/3 de longa distância). Enferrujado.

Leandrinho foi poupado mais uma vez, se recuperando de uma inflamação na garganta.