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Arquivo : Mogi

Para entrar no radar, Wesley Sena é único brasileiro inscrito no #NBADraft
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Giancarlo Giampietro

Wesley, primeiro, tem de trombar para jogar por Bauru. Mas seu jogo pode crescer muito

Wesley, primeiro, tem de trombar para jogar por Bauru. Mas seu jogo pode crescer muito. Crédito: Caio Casagrande

Saiu nesta terça-feira a lista dos candidatos ao Draft da NBA, e dessa vez com um único brasileiro, o pivô Wesley Sena, cujo R.G. mostra: “Wesley Alexandre Sena da Silva”. Há duas semanas, como registramos aqui, Wesley Mogi, ou “Wesley Alves da Silva”, passou pelo Nike Hoop Summit, em Portland, se apresentando para mais de 100 scouts da NBA.

Então você pode imaginar a confusão que eles fizeram ao conferir a lista do Draft, especialmente para aqueles que, até hoje, escrevem Lucas ‘Noguiera’. : ) Fica mais difícil, mesmo, até porque os xarás também nasceram no mesmo ano, 1996 Então tem de se explicar que são dois jogadores diferentes, e tal. E até por isso, por mais que seu tempo de quadra tenha minguado nesta reta final de temporada, faz sentido que Wesley, o Sena, tenha inscrito seu nome, para ganhar cartaz e gerar sua própria identidade como prospecto internacional. Talento ele tem. Falta, por vezes, um empurrão.

Com 2,11m de altura (talvez até mais já) e mobilidade, o pivô de 19 anos tem recursos técnicos para ir longe. De cara, o que chama a atenção é a habilidade para o chute de média para longa distância, apresentando aqui e ali num sistema ofensivo abarrotado de cestinhas consagrados em solo brasileiro. Murilo Becker, seu companheiro diário de treinos, discorre sorrindo pela facilidade que o a jovem revelação tem para finalizar com as duas mãos no corte, a facilidade para o chute e como pode se transformar num pivô flexível de primeira linha.

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Encontrar espaço e chances neste tipo de elenco, todavia, é uma missão ingrata, e Wesley sabe disso. “Jogo no poste baixo, arremesso de média distância, de fora. Sempre tive, mas nunca fui um chutador. É um recurso que tenho, para desenvolver, que ninguém fique pagando para ver sempre. Vejo que, para completar o time, tenho de ter um jogo diferente do Hettsheimeir e do Jefferson, que são grandes arremessadores. Tenho de mostrar meu arremesso, mas tenho de ser mais agressivo no garrafão.”

Ao falar em “agressividade”, o pivô vai deixar seus técnicos e companheiros de clube felizes. Entre as diversas atividades de que participa durante os treinos em Bauru, nos treinos específicos e nos coletivos com os veteranos, esta mensagem vem sendo martelada em sua cabeça. É assim, mesmo, que você vai tratar um atleta de tanto potencial. Pois não é só arremesso. Ele tem boa mobilidade para alguém de seu tamanho e pode ser desses jogadores que jogam dentro e fora, dependendo de quem for seu parceiro na linha de frente ou de quem estiver do outro lado.  “O Wesley ainda não entrega  50% do que pode fazer. É um pouco tímido ainda, pode ter mais intensidade. Mas é um cara que tem condições de ir muito longe em sua carreira”, disse o ex-pivô Josuel, que adotou a molecada espichada do clube em sessões específicas.

O tempo de quadra de Sena mais do que duplicou neste NBB, passando de 5,9 minutos em 2014-15 para 14,2, como complemento numa rotação que tem Rafael Hettsheimeir, da seleção brasileira, Murilo Becker, também de extenso currículo pela seleção, um dos maiores pontuadores da história do campeonato, e Jefferson William, também convocado recente para disputar o Sul-Americano, campeão pelo Flamengo e que tem média de 13,4 pontos em sua carreira pela liga nacional. Essa é uma boa estrutura para que o jovem pivô seja lançado. Aos poucos, mesmo.

Logo quando fechou com o Bauru. Baskonia foi opção

Logo quando fechou com o Bauru. Baskonia foi opção

Há garotos e garotos, prospectos e prospectos, certo? Um jogador como Lucas Dias pareceu desenvolvido desde muito cedo e já pedia mais minutos há pelo menos uma temporada, até ser premiado na atual campanha surpreendente do Pinheiros. Mas há jogadores que pedem um pouco mais de tempo para desenvolvimento. Isso não tem a ver necessariamente só com talento, mas também com sua trajetória, personalidade e clube que defende, entre tantos.

Por exemplo: Wesley, tal como seu xará Mogi, foi descoberto meio que por acaso, mas um pouco mais cedo. Se Mogi só foi apresentado ao basquete aos 16 anos, numa escolinha pública em sua cidade natal (Guaçu, no caso), Sena foi descoberto entre os 12 e 13 anos — ele não lembra direito — durante uma competição de saltos em sua escola, em Campinas. “Eu não sabia jogar basquete, nem sabia o que era. Mas já era bem alto já, tinha 1,96m (risos)”, disse. “Aí me chamaram para fazer um teste no clube da Hípica, pois estavam formando um time.”

É por isso que se bate tanto na tecla da “massificação”, por parte de governo ou CBB. O basquete brasileiro precisa encontrar um jeito de detectar talentos como esse mais cedo, para que eles sejam envolvidos mais cedo em um ambiente próspero para o desenvolvimento, mais estruturado. Em 2012, Wesley chegou ao Palmeiras. Dois anos depois, assinou com o Bauru. No meio do caminho, ao lado do irmão mais novo, Yuri, chegou a passar por um período de testes em Vitoria-Gasteiz, terra do tradicionalíssimo Baskonia, o clube espanhol que convenceu a família Splitter a liberar um adolescente Tiago, em 2000. “Ficamos umas duas semanas treinando, conhecendo, mas o Bauru me chamou. Vim para cá para treinar antes de ir para a Espanha, mas fizeram uma proposta boa, falando que iam montar um time bom, interessante. Optei por ficar aqui, perto da família. Na Espanha, demonstraram interesse, fizeram proposta, mas preferi ficar.”

O início promissor pelo Palmeiras

O início promissor pelo Palmeiras, quando estreou pelo NBB já aos 16 anos

Pelo clube do interior paulista, que se tornou gradativamente um papa-títulos na América do Sul, o pivô foi desenvolvido durante toda a sua primeira temporada, mais como uma peça de LDB (com 30,2 minutos, 12,2 pontos, 7,0 rebotes, 1,3 assistência e 1,1 roubo de bola) do que do time principal. Para o início da atual temporada, porém, o cenário mudou. Primeiro por causa de seu progresso, mas também pelas circunstâncias bauruenses, com diversos atletas se apresentando à seleção, outros voltando de lesão e alguns mudando de clube.

Com o Campeonato Paulista começando muito cedo, veio a grande chance para os atletas mais jovens do clube, até por conta de uma Copa Intercontinental que se aproximava também. A equipe sofreu para se classificar para as quartas de final e acabou derrotada pelo Mogi das Cruzes em dois jogos. Mas ao menos Wesley pôde ir para a quadra e respondeu bem, com 11,4 pontos e 5,9 rebotes, em 12 partidas, com 54,6% nos arremessos e 60,4% nos lances livres. Se você excluir os duelos com Mogi, já com a cavalaria de volta, foram 13,1 pontos e 6,8 rebotes. Não são números que quebram a bolsa, mas são significativos para alguém tão jovem no basquete brasileiro, numa competição que ainda estava relativamente em clima de pré-temporada, mas com diversos clubes da elite nacional, claro. Isso para um jogador ainda em formação.

“Já era combinado, que eu teria mais tempo para ficar em quadra e que precisariam de mim no Paulista. Era para eu ajudar os veteranos que ficaram, como o Paulinho e o (Robert) Day. Acho que me surpreendi um pouco com meus números. Comecei bem discreto o Paulista, e aí cobraram mais de mim. Depois, foi acontecendo”, afirmou. “Foi uma experiência que me ajuda muito, de poder tanto jogar na minha categoria abaixo como com os adultos. Já treino com caras de alto nível. Mas no jogo sempre se exige mais. “Fiquei muito contente com meu desempenho dentro de quadra, mas não dá para se contentar. Tem de querer mais e tem muito o que melhorar ainda, diariamente é que você vê suas dificuldades. Tenho de ter mais agressividade no jogo, brigar por todo rebote, sempre estar correndo, fazer as ajudas na defesa com mais velocidade.”

Estão aí, de novo: agressividade e cobranças, como Wesley, mesmo, admite ser preciso. “Ele é um jogador de quem a gente exige 200%”, afirma André Germano, que coordena a base bauruense, trabalha com Demétrius e Hudson Previdelo no time de cima e também responde pelas seleções menores na CBB. “Falamos o tempo todo sobre os acertos e erros dele, de como ele pode expandir seu jogo. É só acreditar no que ele pode fazer.”

Se, no decorrer da temporada, Wesley perdeu muitos de seus minutos, especialmente com o retorno de Murilo à boa forma, não quer dizer que ele tenha sido esquecido por seus treinadores. Especialmente pelo primeiro semestre, quando o calendário se afrouxou um pouco antes da Liga das Américas, Germano o colocou em um programa de treinamento dedicado, que em geral começava às 8h, com academia, e terminaria entre 11h30, 12h, com o treino dos adultos. No meio do caminho, fazia sessões específicas.

Pelo NBB, os minutos estão sendo reduzidos na reta final

Pelo NBB, os minutos estão sendo reduzidos na reta final

Ainda estamos falando de um projeto, de um jogador que ainda pode ser desatento na defesa, na disputa por rebotes, em um time que entra em todas as competições para tentar ser campeão. A previsão de Germano, por exemplo, é de que ele possa alcançar a maturidade como jogador aos 23, 24 anos, ganhando em fundamentos e entendimento do jogo, além do crescimento fora de quadra, mesmo. No trabalho com bola, a ordem é não limitá-lo ao garrafão, mesmo que, a princípio seja a tarefa que o time principal espera dele. Nenhum jogador deve ser enquadrado a nada, ainda mais nesta idade. Basta ver o que Cristiano Felício fez em Chicago quando teve chances, comparando com o modo como era utilizado no Flamengo.  O brasileiro está hoje com 23 anos, justamente na faixa de idade que Germano aponta, por sinal.

É natural que Wesley sonhe com a NBA. Jogando por Bauru, aliás, ele teve sua primeira chance de conviver com a elite da modalidade, ao viajar para os dois amistosos históricos contra New York Knicks e Washington Wizards, em outubro, pelo calendário de pré-temporada da liga americana. Contra o time de Nenê, recebeu do então técnico Guerrinha 28 minutos para correr pela quadra. Terminou com 11 pontos, 5 rebotes e 2 assistências, matando 5 em 8 arremessos, com direito até a uma bola de três, na linha estendida. Nervoso, porém, errou seus quatro arremessos — a adrenalina sobe quando você para para pensar, né? “Não esperava jogar tanto, achei que ia entrar, mas não por tanto tempo. Entrei bem ansioso, mas acho que deu para produzir bem. Deu para ter uma noção do que é um jogo de NBA, bem diferente, bem físico. O Nenê ficou me dando dicas. Falou que era para continuar assim, que estou jogando bem. Foi uma grande sensação”, afirmou.

Mas tudo tem seu tempo. Ainda há uma longa estrada à frente para Wesley Alexandre Sena da Silva. Ou Wesley Sena, mesmo.

*   *   *

Lucas Dias arrebentou no NBB. Está no radar

Lucas Dias arrebentou no NBB. Está firme no radar

Por falar em Felício… Uma lembrança importante: talvez o pivô do Bulls seja o melhor exemplo para qualquer prospecto brasileiro, em vez de Bruno Caboclo, que foi uma clara exceção em todo esse processo. O Toronto se encantou por seu talento, assegurou uma promessa é, depois que o burburinho em torno do garoto fugiu do controle, gastaram logo uma escolha de primeira rodada nele, para surpresa geral. Isso nunca havia acontecido antes de, pelo menos não exatamente com um roteiro destes.

Já Felício passou batido em seu último Draft, o mesmo de Caboclo, em 2014.  Mesmo depois de ter se apresentando bem no adidas EuroCamp em Treviso. Tudo bem. Voltou ao Rio de Janeiro e seguiu trabalhando. Até que o Bulls lhe abriu as portas para um teste. Contrariando todas as perspectivas, devido à conjuntura específica do elenco de Chicago, cheio de pivôs altamente qualificados. Como ele conseguiu?  Não só com talento natural, mas com muito empenho. Ser ignorado por um sistema que só abre 60 vagas anuais é o mais provável, na verdade. Mas não é o fim da linha.

Esse tipo de roteiro deve estar na cabeça se cada garoto com aspirações de NBA, como o trio do Pinheiros (e mesmo um pivô bem jovem que logo mais vai estar em pauta, Lucas Cauê), Mogi e outros.

Dessa vez eles decidiram ficar fora do Draft. A movimentação, declarada, de scouts pelo país não foi das mais agitadas. Spurs e Sixers estiveram por aqui, do que sei. Bem menos do que no ano passado, quando Georginho foi um chamariz, depois de perfil publicado pelo DraftExpress. Que eles não tenham vindo não significa que não haja interesse. Pelo menos mais quatro clubes estiveram de olho no progresso da turma. A parceria da LNB com o sistema Synergy contribui muito para isso.

Três scouts manifestaram surpresa pela decisão de Lucas ficar fora, positivamente impressionados peço NBB que fez, passando de promessa a realidade, com números dignos de um All-Star nacional já. O progresso de Humberto também foi registrado. Mas seus clubes também não foram agressivos o suficiente também em suas sondagens. Para gente tão jovem, porém, não há pressa.

Lucas e Humberto vão completar 22 anos em 2017. Então vão ser candidatos automáticos ao Draft. Com mais um ano de cancha, desde que com tempo de quadra e oportunidade para produzirem, mantendo essa curva de ascensão, terão candidaturas ainda mais fortes, sólidas. Entre os olheiros, há aqueles que topam o risco máximo, como aconteceu com Caboclo, que tinha as ferramentas físicas, atléticas dos sonhos. Mas há muitos que preferem apostas mais factíveis, levando em conta aquilo que os atletas já produzem em suas ligas locais. Faz mais sentido, aliás. No caso de Mogi, George e Sena, de 1996, eles tem ainda mais dois anos.

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Mogi se destaca entre gringos do Hoop Summit. O que os scouts acharam?
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Giancarlo Giampietro

Imagine o cenário. Você vai para a quadra, depois de ter contundido o pé logo no primeiro treino, algo que o atrapalhou um pouco nos treinos. Não domina o inglês e demora um pouco para se soltar, física e emocionalmente. Na hora do jogo, sua equipe, muito mal convocada, estava absolutamente controlada pelo adversário. Quando o técnico o chama, o resultado já está praticamente definido. Na plateia, para ver o resultado de tudo isso, estão dezenas de avaliadores da NBA.

Mogi marcou nove pontos, pegou oito rebotes e deu três assistências em 22 minutos de jogo. Cinco de seus pontos saíram na linha de lances livres, com 100% de aproveitamento. Ele tentou três chutes de fora e não converteu nenhum

Mogi marcou nove pontos, pegou oito rebotes e deu três assistências em 22 minutos de jogo. Cinco de seus pontos saíram na linha de lances livres, com 100% de aproveitamento. Ele tentou três chutes de fora e não converteu nenhum

Não era o contexto mais fácil para Wesley Mogi mostrar seu talento pelo Nike Hoop Summit, em Portland. Ainda assim, ao final de uma semana de atividades, com jogo no sábado, enfrentando todas essas limitações que o cercavam, o ala brasileiro fez quase tudo que estava ao seu alcance para deixar uma rara lembrança positiva em meio aos jovens talentos.

Se a seleção de prospectos internacionais foi muito criticada e não teve chance nenhuma contra um forte combinado americano (101 a 67), a promessa de 19 anos do Paulistano ao menos conseguiu se distanciar desse fiasco.  Mesmo que, na opinião de dois scouts da NBA consultados pelo blog, ainda não tenha inserido seu nome na pauta mais imediata do Draft da liga.

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Para ambos os olheiros, experientes e designados para avaliar talentos de fora dos EUA durante a temporada, trabalhando para clubes que têm investido nesse tipo de jogador, foi a primeira chance de ver Mogi ao vivo.

É importante ter isso em mente, primeiro. Não se trata de uma avaliação definitiva sobre o jogador, mas sim algumas observações sobre uma semana de exercícios e 22 minutos de ação. Além disso, estamos falando de um garoto que, mesmo sendo o mais velho deste evento, tem uma carreira extremamente curta, que só conheceu uma bola de basquete aos 16 anos de idade e que mal joga pelo NBB.

Ok?

(Mais detalhes sobre sua trajetória estão aqui.)

Então vamos lá. A partir daqui, vamos identificar as fontes como Scout 1 e 2. A opinião de ambos sobre o brasileiro divergiu ligeiramente. O consenso é de que o time que o cercava era muito fraco e que isso o atrapalhou de forma considerável. Mogi hoje precisa de um time bem organizado para mostrar os melhores aspectos de seu jogo ofensivo.

“A seleção internacional era realmente ruim. É difícil você se dar bem num ambiente desses”, disse o Scout 1. “Mogi deixou uma boa impressão. Provavelmente foi o melhor jogador da equipe. Nos dias em que estive lá porém, eles não fizeram nenhum coletivo durante os treinos, então é uma amostra reduzida.”

Para o Scout 2, a recepção foi um pouco mais morna. “Ele mostrou um arremesso não muito confiável e sua habilidade para o drible é mediana. O que gostei mais foi sua valentia. Ele joga duro. Na defesa, gostei mais desse aspecto, de encarar, do que por seus atributos físicos. Ele tem bom corpo. Pode marcar na ala. Os LeBrons? Não. Mas num nível mais abaixo?  Deve ter uma chance”, disse.

Mogi tenta contestar o arremesso de Frank Jackson

Mogi tenta contestar o arremesso de Frank Jackson (Cameron Browne/NBAE via Getty Images)

Uma terceira opinião que registramos aqui é a da dupla Jonathan Givony e Mike Schmitz, do DraftExpress. Ambos, que já o haviam assistido ao vivo antes,  notaram como a seleção mundial respondeu positivamente quando Mogi foi para a quadra, devido à sua intensidade na defesa, dando energia ao quinteto.

Em seu texto de avaliação sobre o brasileiro, Givony também apontou o empenho defensivo como seu ponto mais forte no momento: “Sua envergadura de 2,08m ajuda a compensar a altura mediana. Ele sua seus atributos físicos, seu nível alto de intensidade e instintos sólidos para movimentar seus pés e atacar consistentemente as linhas de passe, a tabela e até mesmo bloqueando alguns arremessos ocasionalmente”. Sobre o ataque, na avaliação não é tão positiva ainda. O analista ainda registra que, durante a semana, a mecânica de arremesso do brasileiro mostrou “um vislumbre de esperança”, sendo mais consistente com em situação de recepção do passe, com os pés plantados, e subida para o chute (o catch-and-shoot). “Foi muito mais consistente do que você poderia pensar considerando sua reputação”, escreveu. Em movimento, porém, a história ainda é outra. Além disso, o drible e o entendimento do jogo foram questionados: “Não estão tão desenvolvidos como você poderia esperar”, especialmente quando o ataque vem em meia quadra.

É legal que Wesley tenha se sobressaído na hora mais importante, a do jogo, em meio aos seus companheiros estrangeiros. Só não dá para esconder que a garotada que o acompanhava deixou os espectadores bastante decepcionados. Bastante mesmo.

Como pode acontecer isso? É que, amigos, o dinheiro começa a falar mais alto. A Nike patrocina este evento, a academia de LeBron, entre outros. Já a adidas conta com o EuroCamp em Treviso e também o adidas Nations, torneio que ajudou bastante na cotação do ala do Paulistano, por sinal. Na hora de lidar com esses eventos, as companhias têm duas escolhas: se concentrar em reunir os melhores prospectos, independentemente de seus patrocinadores ou apoiadores, ou se limitar a atletas que já estejam sob seu guarda-chuva. Foi o que aconteceu este ano. “Eles não chamaram nem mesmo atletas que tivessem um contrato só de 5 mil pelo ano todo”, disse o Scout 2. “Eles poderiam certamente ter feito um trabalho melhor. A política interferiu.”

Mogi briga por posicionamento com Jarrett Allen. Cameron Browne/NBAE via Getty Images)

Mogi briga por posicionamento com Jarrett Allen. (Cameron Browne/NBAE via Getty Images)

Não é fácil montar essa equipe, vale pontuar. Para monitorar o progresso de adolescentes mundo afora, você precisa de uma rede extensa de contatos bem treinados. E outra: alguns dos melhores jogadores já estão envolvidos com times profissionais em momentos decisivos da temporada. Por fim, existe uma preocupação de distribuição regional de vagas. Se você vai levar em conta a marca que os meninos usam, aí é uma tremenda furada. “Várias convocações foram questionáveis”, sinalizou Givony.

Esses equívocos ficaram ainda mais graves quando a molecada estrangeira teve de enfrentar uma seleção norte-americana muito forte, com uma geração que promete muito para a próxima temporada do basquete universitário. “No ano em que os EUA estão abarrotados e organizados,  a seleção mundial precisava reunir o melhor grupo para poder competir, e não foi o que aconteceu.”

Schmitz afirma que não havia “nenhum jogador criativo, capaz de atacar a cesta ou servir”. “E eles enfrentaram excelentes marcadores no perímetro. Não era uma receita vencedora para a seleção mundial”, completou. Os armadores William McDowell-White, australiano de 17 anos, e o dominicano Andrés Feliz, que só vai chegar ao College em 2017, sentiram muito a pressão imposta por uma defesa agressiva e atlética. Cometeram juntos 13 turnovers.

Para alguém que ainda não consegue criar muito por conta própria, Mogi precisava de um time mais ajeitado, com parceiros que possam acioná-lo a partir de sua movimentação distante da bola. Claro que, para um elenco reunido em apenas uma semana, com atletas de culturas diferentes, esse é sempre um baita desafio para o técnico Roy Rana. Dessa vez, porém, nem o talento individual compensou,.como no ano passado, quando tinha Jamal Murray, Ben Simmons e outros.

Como fica Mogi agora? Seu agente, Eduardo Fonseca, em parceria com o grupo Wasserman, tem de decidir se a resposta que tiveram das cabeças da NBA são positivas o suficiente para lhe inscrever no Draft. Lembrando sempre que os atletas estrangeiros podem se candidatar e retirar o nome se acharem melhor. E têm até o ano que vão completar 22 para participar desse processo. No caso de Wesley, até 2018. “Não seria uma surpresa se ele decidir colocar seu nome neste Draft para ver qual a sua cotação entre os times fã NBA depois de uma semana sólida em Portland”, escreveu Givony. “Encontrar um lugar em que ele possa continuar trabalhando em suas habilidades vai ajudá-lo a compensar o tempo que ele perdeu no Brasil.”

Qual seria a cotação do brasileiro no momento para as duas fontes consultadas? O Scout 1 acredita que Wesley pode estar nas conversas para um top 100, embora “ainda seja cedo”. “Depende de quais jogadores internacionais vão manter seus nomes. Gostaria de vê-lo mais, em treinos privados ou no EuroCamp.”

O Scout 2 afirmou que “não acha que ele teria muita chance”. “Você só precisa de um time para gostar de você, então tudo é possível. Mas não estou certo sobre ele”, disse, citando uma das máximas sobre a qual o namoro entre Toronto e Caboclo é o maior exemplo recente.

Eu os questionei se o viam, hoje, ao menos com chances de ser escolhido na segunda rodada. Para o Scout 1, “a diferença entre ser escolhido entre as posições 50-60 são bem grossas, então todo mundo pode ter uma diferente opinião”.

O Scout 2 completou: “O que pega este ano é que a leva para a casa de 50 a 60 não é boa. Se você tem uma escolha nessa faixa e quer usá-la em um ‘stash’ (um atleta que possa ficar sob contrato com um clube do exterior, se desenvolvendo por conta), não há muitas opções”.

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Aprendendo rápido, Mogi se exibe para olheiros da NBA em Portland
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Giancarlo Giampietro

No busão com a galera: Wesley (segundo sentado à direita)

No busão com a galera: Wesley (segundo sentado à direita)

Começou nesta segunda-feira, em Portland, o Nike Hoop Summit, um dos eventos juvenis mais importantes do calendário internacional, especialmente para os clubes da NBA. Providencial para scouts conferirem de perto em um só lugar, durante toda uma semana, diversos atletas de muito potencial, de todos os cantos do globo, e que provavelmente ainda não têm uma ficha tão extensa assim em seus banco de dados.

O ala Wesley Alves da Silva, ou, simplesmente, Mogi, do Paulistano, certamente se enquadra nesse grupo, de talentos intrigantes a serem avaliados com muita atenção a cada sessão de treino até a realização do jogo de sábado, contra a equipe dos Estados Unidos (que não necessariamente é a seleção americana oficial).

Georginho, promessa do Pinheiros, esteve por lá no ano passado. Agora é a vez do campeão de enterradas do NBB, seu companheiro na Copa América Sub-18 de 2014, em Colorado Springs, se testar diante de plateia exigente e curiosa. De olho em um Draft considerado fraco de modo quase unânime, se causar boa impressão na capital hipster do Oregon, deve entrar na discussão imediatamente. Mas é difícil falar em cotação no momento, até pela aura de mistério em torno de seu nome.

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Para alguém que mal jogou pelo time principal do Paulistano, Mogi é encarado como uma interrogação por muitos scouts que entraram em contato com o blog nas últimas semanas. Dos sites especializados, apenas o DraftExpress o acompanha com alguma regularidade, listando-o hoje como o décimo melhor prospecto na geração de 1996. Para o NBADraft.Net, seria o oitavo nessa lista.

No radar

Mogi mal joga pelo NBB. No final de semana das estrelas, brilhou

Mogi mal joga pelo NBB. No final de semana das estrelas, brilhou

Isso, na verdade, só torna ainda mais interessante o convite que recebeu. Ajuda, claro, ser representado nos Estados Unidos pelo gigantesco WMG (Wasserman Media Group). O grupo passa, sim, por reestruturação após a saída do superagente Arn Tellem para a gestão do Detroit Pistons, mas ainda tem cartela impressionante de clientes. Mas o interesse por Mogi não se justifica tão somente por lobby, claro. Cada um dos 12 estrangeiros convocados chegou ali depois de muita campanha nos bastidores, pode ter certeza.

Para Mogi ser listado, é porque há um interesse, ou curiosidade óbvios por parte da NBA. Resta saber se pesa mais a necessidade daqueles clubes que o acompanham mais de perto, desde aquele torneio em Colorado Springs – quando entrou na mira do DraftExpress, referência óbvia no serviço, por exemplo –, passando pelo adidas Nations do ano passado, na Califórnia. Ou se influencia mais a leva de times que só agora procura se informar melhor pelo ala nascido em Mogi Guaçu.

Se agora está num evento patrocinado pela multinacional norte-americana, foi em atividade conduzida por sua principal concorrente, alemã, no mercado de material esportivo que Mogi fez mais barulho, para se consolidar como um prospecto de primeiro time.

Em Anaheim, o brasileiro brilhou em um combinado sul-americano, ao lado dos compatriotas Daniel Bordignon Barbieri (ala-pivô do Baskonia, em franco desenvolvimento na Espanha), do pivô Lucas “Pipoka” Siewert (pivô já há um tempo no high school americano, na Califórnia e tem hoje sete ofertas de grandes universidades) e do armador Guilherme Santos (hoje segurando o rojão em final de temporada pelo Bauru, após a infeliz lesão de Ricardo Fischer).

Em quatro jogos, Mogi teve médias de 23,8 pontos, 7,3 rebotes e 2,3 assistências, acertando 66,6% de seus arremessos de quadra. Foi o cestinha e também o jogador mais eficiente da competição. Quem esteve por lá, de olho mais nos jogadores de fora do país, anotou seu nome no caderninho. O que nem sempre acontece, devido ao gigantesco tamanho do evento, com nove seleções diferentes, além de uma leva de quase 40 “conselheiros” universitários, como a sensação australiana Ben Simmons, o cestinha Buddy Hield, o jogador do ano, o ala-pivô Brice Johnson, destaque de North Carolina, entre outros.

Físico

Capacidade atlética e envergadura para ganhar nas enterradas

Capacidade atlética e envergadura para ganhar nas enterradas

Do ponto de vista do biótipo, tem “ferramentas” que os scouts procuram: bom tamanho (1,97m) e envergadura e capacidade atlética acima da média, ou muito acima da média, seguindo os parâmetros do NBB) com agilidade, mobilidade lateral, explosão em ataques verticais e impulsão. E, quando você soma impulsão e longos braços, tem um candidato sério a dar show em enterradas. Outro ponto a ser destacado: o rapaz é daqueles que parece jogar com mola nos pés, capaz de saltar várias vezes em sequência, sem perder força.

Por outro lado, Wesley ainda é muito magro, porém, a despeito de ter ganhado alguns quilos de músculo no ano passado. Não que seja o caso de bombá-lo: você não quer que ele perca em nada de sua rapidez. É só questão de deixá-lo um pouco mais forte apenas, até pelo estilo de jogo agressivo que apresenta, e isso não deve ser problema, de todo modo.

Isso chama a atenção: mesmo que seja magro até mesmo para um jogo de LDB, Wesley não foge do contato físico. Ataca o garrafão de modo incessante, com ou sem a bola, e também se dedica aos rebotes ofensivos, quesito em que tem bom aproveitamento para alguém de sua posição. Há momentos que você pensa que ele até pode se machucar em quadra, mas ele não liga: está constantemente de modo acelerado, vidrado na bola. É o que os scouts americanos gostam de qualificar como “motor” – e o do garoto gira em alta rotação.

Projeto


(Vídeo do adidas Nations 2015 em Long Beach. Wesley é o número 96, de cinza)

Para monitorar o progresso de Mogi, então, restou a eles  basicamente os 14 jogos que disputou pela LDB, a liga desenvolvimentista nacional, na qual caíram ainda na primeira fase, e o Campeonato Paulista Sub-19 do ano passado, pelo qual foram eliminados na semifinal. O difícil aí é colocar as ações do ala, ou de qualquer outro jogador promissor, em perspectiva, devido ao desnível em termos de talento.

Suas médias pela LDB foram de 10,6 pontos, 5,4 rebotes, 0,9 roubo, 0,9 assistência e 2,2 turnovers, em apenas 26,3 minutos. Quando jogou exclusivamente com garotos de sua idade, teve maior protagonismo, sendo um dos cestinhas do sub-19, diga-se – só uma pena que o site da Federação Paulista seja tão precário, para checagem de outros dados. Mas também é algo que os olheiros vão questionar. São poucos aqueles que, como Masai Ujiri, se sentem confortáveis em apostar em um garoto de números não muito expressivos num torneio sub-23 brasileiro. Essa dúvida girou em torno de Georginho no ano passado, ao passo que, neste ano, a elevada produção de Lucas Dias pelo Pinheiros não passa despercebida. Mas é aí que entra a parte mais legal (creio) e desafiadora da profissão, não? Justamente analisar o atleta de modo minucioso e projetar o que ele pode fazer entre os grandalhões.

Sem a bola

Pela LDB, Mogi não teve tanta liberdade em quadra nesta temporada

Pela LDB, Mogi não teve tanta liberdade em quadra nesta temporada

Bastava ver o Paulistano sub-23 em ação para entender o volume reduzido nas estatísticas. Acompanhado por dois armadores, o badalado Arthur Pecos e Leonardo, Mogi basicamente se via obrigado a atacar como arma secundária, enquanto os dois baixinhos seguravam demais a bola. De tanto driblarem, perdiam diversas oportunidades de assistir o ala em cortes que poderiam gerar cestas fáceis ou lances livres. Para alguém com sua explosão física, dificilmente os marcadores conseguiriam freá-lo se fosse acionado em curva em direção ao garrafão. É nesse tipo de movimentação e em transição que ele produz a maior parte de seus pontos. Basta que o armador o veja. Quando perto da tabela, tem elasticidade e criatividade para finalizar as jogadas, sabendo usar o famoso “euro step” – pense nos movimentos laterais que Dwyane Wade e Manu Ginóbili tanto executaram na carreira –, explorando a tabela, ou cravando com tudo, mesmo.

Em termos de jogadas individuais, o ala ainda precisa trabalhar bastante em movimentos, mesmo que seu primeiro passo consiga lhe colocar em posição de vantagem contra o defensor. Ele é rápido e ganha terreno com facilidade, mas pode refinar seu drible, mantendo a bola mais próxima de seu corpo – como vemos em dois lances de vídeo abaixo –, algo que foi uma das prioridades durante o mês de treinamentos que fez na academia IMG em junho passado. (Sim, a mesma academia que já acolheu Lucas Dias e Georginho, além de Henrique Coelho e Leonardo Demétrio, dupla do Minas, virando uma central brasileira basqueteira na… Flórida, claro).

Mogi também tem de desenvolver seu arremesso. Pela LDB, acertou apenas 68,9% de seus lances livres e 18,2% dos tiros de longa distância (8 em 41 tentativas), regredindo na primeira e evoluindo um pouco na segunda, em relação à temporada 2014-15. Talvez ele nunca vire Marcelinho Machado, mas não que seja um caso perdido. Comparando de um ano para o outro, conseguiu por um pouco mais de arco em seu chute, com a mecânica também mais elevada. Ao menos, ciente dessa deficiência, não força os arremessos a partir do drible. Isto é: ele tem limitações ainda relevantes em seu jogo, que precisam ser atenuadas na hora de se pensar em voos mais altos para a carreira.

Quilometragem baixa

(Duas cravadas de Wesley num top 5 do adidas Nations, jogadas 2 e 4)

De qualquer forma, uma coisa que não podem perder de vista: se Wesley é o jogador mais velho entre os estrangeiros convocados para o #HoopSummit – além dele, só o ala francês Isaia Cordinier nasceu em 1996, enquanto quatro companheiros são de 1998 –, também é um dos que menos tem rodagem. Poucos sabem, mas o ala começou a jogar muito tarde. Realmente tarde: em 2012, aos 16 anos. E não é que estivesse jogando em parques ou na escola até ser descoberto em um projeto social em Mogi Guaçu. Nada disso. Ele mal havia pegado numa bola de basquete até participar dessa escolinha. Como atleta, o máximo que fazia era disputar uma pelada, como zagueirão. E dos piores, ele mesmo confessa, ficando sempre entre os últimos a serem escolhidos.

O fato de, em 2016, entrar em uma lista de candidatos a NBA só mostra o quanto possui de talento natural e o quão dedicado tem sido a seus treinamentos, sob a orientação de Gustavo de Conti e de seu assistente Beto, comandante do sub-23 do Paulistano, que o trouxe do Palmeiras. Os dois ficaram juntos no clube alviverde por aproximadamente um ano, depois de ser levado por seu primeiro treinador para fazer um teste. Beto, aliás, conta uma anedota: Mogi chegou a ser dispensado, mas conseguiu retomar a vaga graças ao apoio do pai de Arthur Pecos. Em 2014, já estava na seleção sub-18.

Até pela inexperiência, o ala ainda comete alguns erros claros em quadra, de posicionamento, se distraindo com facilidade, permitindo cortes pelas costas, arremessos livres etc. No mano a mano, porém, costuma ir bem, colocando muita pressão no adversário, usando sua envergadura e as mãos ágeis. Também devido aos seus atributos físicos, consegue se recuperar em uma jogada. Por vezes, pode se ver sedento pela bola, no ataque e na defesa, congestionando de um lado ou perdendo seu oponente do outro. Falta cultura, e os técnicos do clube até procuram compensar isso ao lhe entregar alguns livros sobre o jogo. Para compensar essa desvantagem, Wesley apresenta um instinto apurado em quadra. Quando não precisa pensar muito em quadra, encontra maneiras de influenciar a partida, seja explorando buracos na defesa adversária, ou com botes rápidos para tentar o desarme. Ele ainda está aprendendo o jogo, fato. Pelo nível que apresenta hoje, dá para dizer que aprende com facilidade.

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A Fiba Américas agora é da Venezuela e Néstor García. Ou quase isso
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Giancarlo Giampietro

A Fiba Américas agora é da Venezuela. Ou quase isso

Néstor García, o argentino que conquistou a Venezuela

Argentina, Brasil. Brasil, Argentina. Se bipolarização é o nosso esporte, o basquete sul-americano seguiu por muito tempo na mesma. Até que a Venezuela decidiu bagunçar um pouco essa história, com seu primeiro título continental desde o bicampeonato do Trotamundos de 1988-89. Isto é, também o primeiro título com este formato. Além disso, ao derrotar, em sequência, Mogi e Bauru, o Guaros de Lara garantiu ao país a unificação dos dois principais títulos regionais no mundo Fiba,  entre os rapazes. Primeiro haviam chocado a geração NBA do Canadá. Agora puseram fim a uma hegemonia brasileira na competição.

Os clubes brasileiro chegaram ao final four da liga com 75% de chances de título, já que o Flamengo também estava na luta contra os anfitriões. Mas dessa vez não deu, e não dá para dizer que tenha sido uma surpresa. Este Guaros fez de tudo para chegar lá. De gestão gastona, mas elogiada nos bastidores por saber para onde destinar seus investimentos, montou um grande elenco e ainda tinha um treinador competente para orientá-los.

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O detalhe é que o clube venezuelano conseguiu jogar sempre em casa, a cada etapa, se aproveitando de um regulamento que permite tudo e não valoriza critérios técnicos. Em vez de estipular prioridades com algum senso de justiça com com base em resultados, ranking, a Fiba Américas, seguindo o modelo da matriz, simplesmente abre concorrências pouco transparentes e altamente rentáveis. Daí chegamos à ridícula (ou, vá lá, questionável) decisão de, numa festa em que 75% dos representantes eram brasileiros, a minoria foi felicitada.

Quanto os venezuelanos pagaram para superar as candidaturas de Mogi e Rio (que, aparentemente, foi descartada de cara)? Vai saber. Mas deve ser algo substancioso, para se ignorar a possibilidade de reunir três torcidas distintas num mesmo ginásio, em vez somente de um — barulhento, é verdade — público do Guaros.

Alex não pára: Bauru conseguiu grande virada contra o Flamengo para jogar a final

Alex não pára: Bauru conseguiu grande virada contra o Flamengo para jogar a final

De novo: como o processo nunca é detalhado, qualquer observador tem a inclinação a dar asas à imaginação. E vem desse buraco a linha de raciocínio de que talvez fosse a hora de algum outro país levar o caneco. Vai saber. Também por conta de um regulamento esportivo esdrúxulo, tivemos um desfecho estranho no último quadrangular semifinal, no mesmo Domo Bolivariano, que resultou na queda de Brasília. O mesmo Brasília que ao menos havia, um dia antes, vencido o Guaros por conta própria — e que também os havia derrotado pela segunda fase. De todo jeito, o time do DF também tinha a chance de se classificar sem depender dos outros e, quiçá, compor um histórico Final 4 brasileiro, mas complicou ao perder de muito para o Flamengo.

O Guaros fez das suas, se intrometeu na fase decisiva e conseguiu um grande título, sem ser exatamente soberano. Pela semifinal, a equipe anfitriã penou contra Mogi (81 a 73), um adversário que provou que era pura bobagem o empurra-empurra com o Flamengo dias antes. Como consolação, o estreante superou os rubro-negros e garantiu mais que honroso lugar no pódio (73 a 71).

Depois, valendo o título, veio o último golpe de sorte a favor do Guaros. O Bauru teria de buscar o bicampeonato sem dois titulares – Fischer e Hettsheimeir, dois de seus três principais jogadores. Para piorar, o armador suplente, Paulinho, também estava fora. Ainda assim, Bauru fez um jogo duro até o final (84 a 79), com Demétrius dando 17 minutos a um pivô de 19 anos (Wesley Sena, que faz sua primeira temporada realmente efetiva na rotação) e um armador de 18 anos (Guilherme Santos, lançado aos poucos, com 35 minutos no total pelo NBB. Dá para conhecer um pouco mais sobre ele aqui, com scouts da NBA na plateia). Para esses garotos, aliás, estar em quadra com rivais tão experientes, num ambiente como aqueles, já vale como um mês inteiro de cancha.

O Bauru, como se esperava, não teve muita facilidade na articulação de suas jogadas. Especialmente no quarto período em que seus atletas se viam constantemente obrigados a atirar de muito longe, bem marcados e sem equilíbrio algum, antes que a posse de bola estourasse. O belo aproveitamento nos rebotes ofensivos ao menos evitou que seu oponente desgarrasse no placar um pouco antes.

(O ponto positivo é a recuperação de Murilo, se movimentando com confiança e leveza. Se havia um jogador que merecia o título, era o veterano pivô, que passou por muitas dificuldades nas últimas duas temporadas, dentro e fora de quadra, entre lesões graves. Entre a experiência para os garotos, a demonstração de força perante os desfalques e a virada para cima do Flamengo, pela semi, a equipe paulista ganha bons argumentos para voltar para casa de cabeça erguida.)

Wilkins vai curtindo o final de carreira no mundo Fiba

Wilkins vai curtindo o final de carreira no mundo Fiba

Nos minutos finais, porém, uma bola de três pontos de Tyshawn Taylor e uma cesta+falta em Damien Wilkins fizeram a diferença, em sequência. Justamente dois dos ótimos reforços que o clube foi buscar, ao lado de um terceiro americano também produtivo, o ala Zach Graham. Taylor e Wilkins são talentos de NBA, ou quase. O jovem armador foi draftado pelo Nets e dispensado muito cedo – e foi contratado durante o torneio, daqueles movimentos que a Fiba também permite sem o menor controle. O veterano ala tem longa passagem pela liga, teve seus momentos aqui e ali e hoje busca mais alguns trocados mundo afora.

MVP da fase final, Wilkins foi sempre um porto seguro para os venezuelanos como referência ofensiva, matando 6 em 11 lances livres e descolando ainda mais sete pontos em lances livres. Com vasta bagagem, altura, força, personalidade e fundamentos, é o tipo raro de jogador no mundo Fiba que vai conseguir aguentar o tranco e bater o incansável Alex Garcia. Esses gringos se juntaram a uma base bastante experiente, de jogadores que entram e saem da seleção nacional.

Sobre o caráter de Wilkins, falo sobre seu histórico na NBA. O ala tem um sobrenome de peso, mas se virou na liga sem a capacidade atlética que seu tio e seu pai ostentavam. Foi com suor e como boa companhia no vestiário. Se errou lances livres peopositais contra o Flamengo, foi por ordem de seu treinador. Poderia contestar a ordem, claro, mas não é o pedido fosse ilegal. Assim como faltas intencionais em péssimos arremessadores no segundo ou quarto período, está no regulamento e não há muito o que ser feito.

E aí chegamos a Néstor Garcia, que vai chegar ao Rio de Janeiro cheio de moral, como campeão continental em duas esferas. O sujeito se transformou na Venezuela. Se não taticamente, mas pessoalmente, com uma persona que mais parece a de um torcedor do que um técnico na lateral da quadra. Seus trejeitos exagerados, seu uniforme todo amassado e/ou esgarçado gera empatia impressionante com o torcedor (e certo estranhamento por parte de seus americanos, é verdade).

García, o personagem da vez no basquete sul-americano

García, o personagem da vez no basquete sul-americano

Da campanha surpreendente pela Copa América, “Che” é o ponto comum mais óbvio. Daquele elenco, apenas o intrigante e inconstante ala-pivô Windi Graterol foi campeão da Liga das Américas. Em ambas as conquistas, o campeão foi definido aos trancos e barrancos, em jogos apertados, emocionantes, nos quais suas equipes conseguiu se manter equilibrada, consistente em quadra, mas também empurrada pela torcida – tal como aconteceu no México, com os espectadores de público recorde abraçando.os venezuelanos. Será que no Brasil a torcida terá essa boa vontade? Há mais que uma simples conexão latina aqui, sabemos. Será uma nota curiosa entre tantos assuntos olímpicos.

Mas não sei se podemos tirar muitas conclusões aqui. As circunstâncias da Copa América para a Liga das Américas é bem diferente. Na primeira, a Venezuela era uma zebraça. Na segunda, a equipe venezuelana era uma das favoritas. Vale monitorar, mas não indica exatamente um problema para o basquete brasileiro, por exemplo. A mera possibilidade de reunir quatro times num Final 4 seria impensável cinco anos atrás, antes de as conquistas começarem.


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